O Estado de S. Paulo
O preço agora depende de variáveis que mudam em velocidades e direções diferentes
Muito se tem comentado sobre as incertezas geradas pelas guerras, com a consequente crise energética – sem falar da pretensa irracionalidade de Trump com suas posições geopolíticas. Em diversos momentos chegamos a pensar que o grau de instabilidade já havia atingido o seu ápice. Nada disso. A turbulência só tem aumentado.
Nesta semana tivemos o anúncio da saída dos
Emirados Árabes Unidos (EAU) da Organização dos Países Exportadores de Petróleo
(Opep). Algo relevante dada a importância da sua produção potencial, mas não é
um fato que decreta o fim automático do cartel. As tensões internas já vinham
de antes, com insatisfação dos EAU com os limites de produção. A Opep já não
tem o mesmo poder devido a perda de participação global e crescimento de
produtores fora do cartel. A dúvida não é se a Opep acaba hoje, mas se ainda
consegue impedir que cada país passe a jogar sozinho. Isso joga ainda mais
fumaça num ambiente de pouca visibilidade.
Aparentemente o mercado ainda subestima o
risco – e os preços do petróleo podem subir mais. O choque atual não foi
totalmente precificado. Mas o problema atual é mais profundo: o preço depende
de eventos políticos que seguem uma regularidade que não é econômica – é
geopolítica. As projeções de preços têm mudado muito rapidamente, um sinal
claro de baixa previsibilidade.
A projeção de organismos oficiais tem mudado
quase US$ 20 por barril em poucas semanas, o problema não é apenas erro de
modelo. É que o mundo mudou mais rápido do que os parâmetros conseguem
absorver. Outro fato importante, o choque não está apenas na oferta. A demanda
também se tornou instável: voos cancelados, rotas interrompidas, preços altos e
medo de recessão alteram consumo em tempo real.
A indefinição sobre o bloqueio do Estreito de
Ormuz aumenta a instabilidade porque traz perguntas quase impossíveis de
modelar. O FMI afirma no World Economic Outlook de abril de 2026 que a economia
global foi novamente interrompida pela guerra no Oriente Médio, com alta de
commodities, expectativas de inflação mais firmes e condições financeiras mais
apertadas.
A guerra comercial EUA–China amplia o
problema porque mostra que cadeias globais, tarifas e segurança nacional também
passaram a ser variáveis de preço.
Anteriormente os modelos tradicionais de
formação de preços consideravam a oferta, a demanda e os estoques. Agora a
demanda é instável, a oferta politizada e os estoques vulneráveis. O preço do
petróleo passou a depender de variáveis que mudam em velocidades e direções
diferentes – e, muitas vezes, incompatíveis. Os mercados gostam de números.
Guerras, nem tanto. E o mundo paga a conta.

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