sábado, 2 de maio de 2026

Preço do petróleo vira aposta geopolítica, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

O preço agora depende de variáveis que mudam em velocidades e direções diferentes

Muito se tem comentado sobre as incertezas geradas pelas guerras, com a consequente crise energética – sem falar da pretensa irracionalidade de Trump com suas posições geopolíticas. Em diversos momentos chegamos a pensar que o grau de instabilidade já havia atingido o seu ápice. Nada disso. A turbulência só tem aumentado.

Nesta semana tivemos o anúncio da saída dos Emirados Árabes Unidos (EAU) da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Algo relevante dada a importância da sua produção potencial, mas não é um fato que decreta o fim automático do cartel. As tensões internas já vinham de antes, com insatisfação dos EAU com os limites de produção. A Opep já não tem o mesmo poder devido a perda de participação global e crescimento de produtores fora do cartel. A dúvida não é se a Opep acaba hoje, mas se ainda consegue impedir que cada país passe a jogar sozinho. Isso joga ainda mais fumaça num ambiente de pouca visibilidade.

Aparentemente o mercado ainda subestima o risco – e os preços do petróleo podem subir mais. O choque atual não foi totalmente precificado. Mas o problema atual é mais profundo: o preço depende de eventos políticos que seguem uma regularidade que não é econômica – é geopolítica. As projeções de preços têm mudado muito rapidamente, um sinal claro de baixa previsibilidade.

A projeção de organismos oficiais tem mudado quase US$ 20 por barril em poucas semanas, o problema não é apenas erro de modelo. É que o mundo mudou mais rápido do que os parâmetros conseguem absorver. Outro fato importante, o choque não está apenas na oferta. A demanda também se tornou instável: voos cancelados, rotas interrompidas, preços altos e medo de recessão alteram consumo em tempo real.

A indefinição sobre o bloqueio do Estreito de Ormuz aumenta a instabilidade porque traz perguntas quase impossíveis de modelar. O FMI afirma no World Economic Outlook de abril de 2026 que a economia global foi novamente interrompida pela guerra no Oriente Médio, com alta de commodities, expectativas de inflação mais firmes e condições financeiras mais apertadas.

A guerra comercial EUA–China amplia o problema porque mostra que cadeias globais, tarifas e segurança nacional também passaram a ser variáveis de preço.

Anteriormente os modelos tradicionais de formação de preços consideravam a oferta, a demanda e os estoques. Agora a demanda é instável, a oferta politizada e os estoques vulneráveis. O preço do petróleo passou a depender de variáveis que mudam em velocidades e direções diferentes – e, muitas vezes, incompatíveis. Os mercados gostam de números. Guerras, nem tanto. E o mundo paga a conta.

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