sábado, 2 de maio de 2026

Bancada do impeachment, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A maioria das reações de perplexidade – ante a rejeição a Jorge Messias – derivou da quebra de expectativa sobre o que deveria ser processo de aprovação automático, como se o poder de indicar fosse absoluto, como se o exercício da democracia estivesse contido exclusivamente na plenitude daquele teatro de beija-mãos a que a história de nossa República nos rebaixou-habituou. Trata-se de disfunção – sobre a essência do processo republicano – considerar perigoso que o Senado exerça uma prerrogativa; deturpação que turva a capacidade de análise sobre o que terá se passado.

É controverso que Messias tenha notório saber jurídico para ser juiz na Suprema Corte; incontroverso sendo que fora indicado em função do histórico leal de serviços prestados a um partido político e para compor-ampliar a já constituída e atuante bancada governista no Supremo, pervertido o tribunal constitucional em terceira casa legislativa. Deveria ser natural que indicações dessa natureza fossem rechaçadas. Terá demorado a ocorrer, ocorrência impulsionada pela combinação tsunâmica entre ano eleitoral e fator Master; e pela articulação entre Flávio Bolsonaro e Davi Alcolumbre.

O revés do governo Lula – objetivo do presidente do Congresso – foi instrumento para a derrota-mensagem que o Senado quis infligir ao STF, meta do bolsonarismo. O não a Messias como espécie de pré-impeachment de ministro do Supremo; manifestação-reação-juramento de um Poder contra aquele percebido como agente-interferente na atividade política, que ergueu bloco legitimador-explorador do inquérito xandônico como ferramenta de controle intimidatório.

(O cronista expressa dificuldade em compreender a versão de que Alexandre de Moraes teria trabalhado contra Messias – o que seria trabalhar contra si. Não faz sentido que tivesse se mobilizado – ainda que a matar CPI do Master – pelo que afinal seria a construção de novo patamar para a bancada do impeachment no Senado.)

Alcolumbre venceu. Imposto o comunicado de que não aceita que governo tente negociar codevasfs à margem de seu império; de que investigar a gestão do fundo de pensão dos servidores do Amapá tem consequências. A leitura mais relevante sendo a de que não teria alterado o padrão alcolúmbrico se acreditasse no favoritismo de Lula em outubro; se acreditasse que, mesmo reeleito, o presidente lhe pudesse prescindir. Aposta que o Planalto não pode retaliá-lo; que precisa mais de Alcolumbre do que Alcolumbre, do Planalto.

Venceu. Não venceria sem a sociedade com o bolsonarismo. Foi sobretudo operador da onda, hábil surfista da chance levantada pelo encontro entre ano eleitoral, caso Master e as açõesameaças de ministros do STF contra a atividade parlamentar – contra parlamentares. Mais que hábil, um surfista mágico, beneficiando-se de espírito do tempo em cujo cerne está a revolta contra o que ele, Alcolumbre, representa, também ele – dos mais interessados em enterrar o affair Master – agente blindador contra apurações legislativas sobre a teia vorcária e suas relações.

 

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