CartaCapital
O Projeto 2025 extrapola as fronteiras dos
EUA e rege a extrema-direita global
Em 27 de fevereiro do ano passado,
funcionários da Usaid, a agência internacional de cooperação dos Estados
Unidos, tiveram 15 minutos para recolher os pertences pessoais dos escritórios
onde alguns haviam trabalhado por décadas. Cada um teria de levar as próprias
caixas de papelão. A agência não as forneceria. Foram escoltados, como
criminosos. Aos prantos, os funcionários esvaziaram as mesas e o prédio. No
fundo, sem saber, apagavam as luzes de um mundo que se desfazia.
Apesar dos problemas e das suspeitas de encobrir operações de espionagem da CIA, a Usaid, por meio de seus programas, evitou mais de 90 milhões de mortes nos últimos 20 anos ao combater doenças graves. O fechamento da agência interrompeu os programas globais de saúde e a assistência humanitária financiados pelos EUA em todo o mundo.
Não se tratou apenas de mais um gesto
irresponsável de Donald Trump. Depois de implementar de forma inédita uma
agenda ultraconservadora nos EUA, o governo do republicano ampliava a ofensiva
para exportar pelo planeta a ideologia de extrema-direita, com o apoio de
grupos políticos em diversas partes do globo. Desmontar a forma pela qual os
norte-americanos interagiam com governos estrangeiros foi o primeiro passo. A
etapa seguinte visava substituir esse modelo por uma operação de imposição de
uma nova agenda.
Um estudo do Global Project Against Hate and
Extremism (Projeto Global Contra o Ódio e o Extremismo) rede de pesquisadores
sediada nos Estados Unidos, desvela um plano meticuloso, bilionário e ambicioso
para alterar a ordem mundial e transformar o movimento de extrema-direita no
novo status quo. “As instituições criadas para promover a democracia, os
direitos humanos e a cooperação internacional estão sendo desafiadas por uma
rede emergente construída em torno do nacionalismo religioso, da retórica
supremacista branca e de alianças ideológicas”, descrevem os pesquisadores.
O plano é ambicioso, meticuloso e movimenta
bilhões de dólares, descrevem pesquisadores norte-americanos
A ofensiva é construída por meio de iniciativas
diplomáticas, redes transnacionais de ONGs e apoio financeiro condicionado a
governos aliados. A “Internacional Reacionária” usa como base o Projeto
2025, agenda que pauta o segundo governo Trump e está enraizada no nacionalismo cristão. Para os ideólogos
do projeto, os Estados Unidos devem ser governados de acordo com uma
interpretação ultraconservadora da doutrina cristã. “Estamos no processo
da segunda Revolução Americana, que permanecerá sem derramamento de sangue se a
esquerda permitir”, afirmou Kevin Roberts, presidente da Heritage Foundation e
mentor da iniciativa.
A teologia do 2025 baseia-se no Gênesis
1:28: “Crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra e sujeitai-a”, incluídos todos
os seres vivos. Os nacionalistas cristãos entendem esse “domínio” como um
mandato divino para o controle das instituições sociais – governo, educação,
mídia, família, religião, artes e negócios. “Sob essa visão de mundo, a
igualdade de gênero é uma rebelião contra a ordem divina. Leis que protegem
minorias são perseguição aos fiéis. O pluralismo atrapalha a obra de Deus. E
qualquer um que discorde não está apenas errado, está fazendo o trabalho de
Satanás”, diz o estudo.
Ao assumir o poder, portanto, a
extrema-direita iniciou um desmonte das estruturas de soft power dos EUA. A
prática da democracia, o apoio aos direitos humanos e o financiamento da
assistência humanitária foram substituídos por iniciativas destinadas a
promover uma coalizão global centrada na oposição ao direito ao aborto, à
igualdade LGBTQ+, a programas de igualdade para mulheres e meninas e na
definição de família segundo uma interpretação nacionalista cristã. Para
permitir a exportação da ideologia, as reformas foram profundas. No mesmo dia
de sua posse, Trump reclassificou milhares de servidores de carreira como
ocupantes de cargos políticos que podem ser demitidos sem justa causa. Russell
Vought, autor de um dos capítulos do Projeto 2025, foi nomeado como chefe do
Escritório de Administração e Orçamento e passou a implementar seu próprio
plano. “Essa purga de pessoal viabiliza diretamente a agenda nacionalista
cristã global”, disse Vought. “Diplomatas de carreira que negociaram acordos
internacionais de direitos humanos por décadas estão sendo substituídos por
indicados políticos. Sua principal qualificação? Lealdade à ideologia
nacionalista cristã e à cruel agenda do Projeto 2025.”
Segundo o estudo da rede de pesquisadores, um instrumento central para implementar a agenda global é a Declaração de Consenso de Genebra, iniciativa promovida ainda durante o primeiro mandato de Trump e que afirma não existir um direito internacional ao aborto e promove uma definição de família limitada ao casamento heterossexual. Sob Jair Bolsonaro, o Brasil foi um dos principais laboratórios dessa iniciativa, interrompida no terceiro mandato do presidente Lula. Com a volta de Trump ao poder, a coalizão foi expandida e reúne atualmente 40 países, muitos governados por lideranças autocráticas e cujas violações de direitos humanos estão amplamente documentadas. Por meio dessa ideia, os EUA ditam uma espécie de cartilha a ser seguida para garantir o retrocesso nos direitos das mulheres e nas proteções LGBTQ+, ao mesmo tempo que desafiam as normas internacionais de direitos humanos criadas nos últimos 30 anos.
Em entidades como a ONU, o Unicef, braço das
Nações Unidas dedicado à infância, e a Organização Mundial da Saúde, a coalizão
tenta bloquear as diretrizes que tratam da expansão de direitos ou fazem
pressão contra qualquer financiamento destinado a atender uma agenda
progressista. O governo Trump ainda abandonou 66 entidades internacionais e
cortou 380 milhões de dólares em contribuições.
Um dos focos da exportação da ideologia
reacionária é a América Latina. Segundo o levantamento, de acordos de
deportação a ataques à igualdade de gênero e aos direitos reprodutivos “a
região tornou-se um laboratório para uma poderosa agenda internacional que
prioriza o fortalecimento de alianças com atores autoritários dispostos a
marginalizar a proteção internacional dos direitos humanos”. O estudo
acrescenta: “As vitórias eleitorais de José Antonio Kast no Chile, Nasry
Asfura em Honduras e Rodrigo Paz na Bolívia em 2025 reforçaram a capacidade de
Trump de expandir sua agenda política na região. Eles se juntaram a um grupo de
líderes já alinhados com o movimento MAGA, incluindo Javier Milei na Argentina,
Nayib Bukele em El Salvador, Daniel Noboa no Equador e Santiago Peña no
Paraguai”.
Na América Latina e na África, o projeto está
a todo vapor, com resultados visíveis
A linguagem do Projeto 2025 apontava nessa
direção. A estratégia introduziu o termo “re-hemisferização”, que envolve a
transferência da produção industrial para mais perto dos Estados Unidos, em
países da América Central e do Sul. Ao assumir o segundo mandato, Trump de fato
reforçou a perspectiva do “Hemisfério Ocidental” e, pela região, líderes
alinhados com o republicano começaram a adotar políticas ultraconservadoras. “A
Argentina ilustra como essa transição do plano para a política se desenrolou. O
presidente Javier Milei anunciou a retirada do país da Organização Mundial da
Saúde, ecoando propostas apresentadas pelo Projeto 2025”, disse o levantamento.
“Sob a liderança de Milei, a Argentina passou a retroceder nos direitos das
mulheres e da comunidade LGBTQ+. O governo restringiu o acesso à terapia
hormonal para menores transgêneros e anunciou planos para remover o feminicídio
do Código Penal, apesar do alarmante aumento de casos documentado por
observatórios feministas. Essa agenda restritiva ganhou força em 2025, ao mesmo
tempo que a dependência econômica da Argentina em relação ao governo Trump se
aprofundou.”
O caso de El Salvador é emblemático. O
presidente Nayib Bukele alinhou-se às prioridades políticas do Projeto 2025 e
tornou-se um modelo para candidatos extremistas da América Latina, seduzidos
por uma política de combate à criminalidade que atropela os mais básicos
direitos humanos e pelo maior presídio do mundo, no qual cabem 40 mil detentos.
“Essas prioridades incluem a oposição aos direitos LGBTQ+ e das mulheres, bem
como o apoio à proibição total do aborto”, observam os pesquisadores.
Organizações nos EUA defenderam o arcabouço legal salvadorenho em tribunais
internacionais e grupos norte-americanos, entre eles o Moms for Liberty,
integrantes do Conselho Consultivo do Projeto 2025, influenciaram as políticas educacionais de Bukele. O
país centro-americano tornou-se ainda um campo de testes para as políticas
repressivas de deportação do governo Trump.
Outro destaque é o papel desempenhado pelo
Paraguai, apontado como um “laboratório para políticas contrárias aos direitos
das mulheres”. Antes mesmo de Trump voltar ao poder, Assunção vinha adotando
políticas destinadas a desacelerar o progresso das mulheres e da comunidade
LGBTQ+. As iniciativas incluem a proibição de termos como “igualdade de gênero”
em instituições educacionais, a oposição ao casamento entre pessoas do mesmo
sexo e a representação pública do país como uma “ilha de conservadorismo”. O
aborto não é permitido nem mesmo nos casos de estupro. A única exceção legal é
quando a vida da gestante está em risco.
Com essas credenciais, o Paraguai tem buscado
cada vez mais relevância internacional nas redes alinhadas a Trump. “Ao sediar
eventos de grande repercussão, como a CPAC e o Foro Madrid, o país tornou-se um
ponto de encontro para líderes da extrema-direita da América Latina, Europa e
Estados Unidos”, descreve o estudo. O presidente Santiago Peña também tenta
impressionar a base mais radical de Trump. “Enquanto o Paraguai existir, haverá
pessoas que dirão, em alto e bom som, ao mundo: não ao aborto livre, não a
ideias alternativas de família e não a experimentos sociais radicais”, afirmou
em uma das reuniões.
A
unidade da UE é posta em xeque por legendas como o Vox, na Espanha, e a AfD, na
Alemanha. Com Kast , o pinochetismo renasce no Chile.
A influência de lideranças norte-americanas
contrárias aos direitos humanos sobre as políticas paraguaias tem se tornado
cada vez mais evidente. O Institute for Women’s Health (IWH), comandado por
Valerie Huber, anunciou que a entidade e o governo Peña iriam implementar
projetos conjuntos. Huber foi a arquiteta do Consenso de Genebra e secretária
de Família de Trump no primeiro mandato.
Na Guatemala, a parceria entre a mesma IWH e
o governo local envolveu o desenvolvimento de cartilhas para pais e
professores. “O casamento”, define o material, “é um compromisso para toda a
vida entre um homem e uma mulher” e que “a única maneira 100% eficaz de evitar
a gravidez na adolescência é esperar até o casamento para ter relações
sexuais.”
A extrema-direita norte-americana igualmente
avança no continente africano. O Burundi tem se associado a organizações
ligadas ao Projeto 2025 para promover políticas que enfatizam a abstinência. Em
Uganda, a aproximação com os EUA coincide com a aprovação de uma das leis
anti-LGBTQ+ mais agressivas do mundo, que inclui a imposição da pena de morte
em certas situações. A estratégia envolve, porém, muito mais que um
convencimento acerca de certas posições que os reacionários gostam de chamar de
“valores”. Em dezembro último, o presidente do Quênia, William Ruto, e o
secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, assinaram um acordo de 2,5
bilhões de dólares para o país africano se tornar um modelo para a Estratégia
Global de Saúde “América Primeiro”. Trata-se de uma aliança que tem se
espalhado por todo o continente e envolve pactos bilaterais projetados para
substituir instituições multilaterais como a OMS. Se, pelo acordo, o país
africano é obrigado a adotar os princípios ultraconservadores dos EUA, o pacto
também foi visto como uma oportunidade para o governo local garantir que não houvesse
qualquer compromisso de promoção da democracia ou de direitos humanos.
A extrema-direita dos EUA age para moldar a
Europa à sua imagem e semelhança
O governo Trump ofereceu a continuação dos
tratados tarifários com os africanos, na condição de que eles adotassem suas
políticas sociais antidireitos. “Em dezembro, o Quênia reafirmou
rapidamente seu alinhamento e sua retórica de ‘família natural’ e conquistou o
direito de ter suas tarifas de 42% reembolsadas retroativamente”, aponta o
documento. “Os EUA não subsidiarão mais a indústria manufatureira africana, a
menos que essa produção seja acompanhada de total fidelidade ideológica.”
De acordo com o estudo, a agenda antimulher e
anti-LGBTQ+ dos Estados Unidos espalhou-se pela África – cerca de 20 países
passaram a subscrever a Declaração de Genebra. A investigação descobriu
que o auxílio externo e a diplomacia dos EUA foram usados para “pressionar os
países a assinar” os tratados. Em alguns casos, como o do Sudão, a assinatura
da declaração “coincidiu com a remoção da lista de países terroristas dos EUA e
com o aumento da ajuda ou do comércio”.
Os planos da Casa Branca incluem moldar a Europa à sua imagem e, por extensão, erradicar políticas progressistas. Por anos, a extrema-direita norte-americana olhou para a Hungria de Viktor Orbán como referência. Mas, com a derrota nas recentes eleições parlamentares, o foco do movimento é o de dar apoio a forças políticas de oposição. Vista como bastião de posições liberais, a Europa precisa ser “contida” por meio de uma guerra cultural. “Isso protegerá a extrema-direita americana, enfraquecerá o liberalismo na Europa e nos Estados Unidos e prejudicará o projeto europeu como um todo”, avalia o estudo. A nova Estratégia de Segurança Nacional de Washington planeja “restaurar a identidade ocidental da Europa” e salvá-la do “apagamento civilizacional”.
Segundo os pesquisadores, o Projeto 2025
defende a interferência na política interna europeia por meio do apoio a
“partidos patrióticos” de extrema-direita, uma intervenção antes impensável nos
assuntos internos de um aliado. Desde que voltou ao poder, Trump e aliados têm
feito exatamente isso. A ordem é apoiar, de todas as maneiras possíveis,
grupos como o Vox, da Espanha, Chega, de Portugal, e a AfD, da Alemanha, entre
outras facções extremistas, fascistas e neonazistas do continente. Parte da
estratégia centra-se na exigência de que empresas europeias e prefeituras
abandonem iniciativas de diversidade, caso queiram manter alguma relação com os
EUA.
A constatação dos pesquisadores é de que,
para além das fronteiras dos Estados Unidos, a base mais radical do trumpismo
tem construído uma infraestrutura global para a expansão de sua ideologia. Isso
implica adoção de leis, redes de financiamento e pressão política. “Onde,
antes, as instituições governamentais dos EUA promoviam os direitos humanos,
agora organizações privadas promovem o nacionalismo cristão”. Conclusão: o
projeto é global. “Todo o sistema pós-Segunda Guerra Mundial está sendo
desmantelado. As proteções aos direitos humanos, definidas por consenso
internacional, estão sendo substituídas por ‘direitos naturais’ definidos por
doutrinas religiosas. A promoção da democracia é substituída pela defesa da
‘família natural’. A assistência humanitária está sendo substituída pela
conformidade ideológica”.
As mesmas redes que remodelam as instituições
norte-americanas constroem, de forma ativa, alianças internacionais,
estratégias jurídicas e estruturas políticas destinadas a consolidar essa
agenda em todo o mundo. “A criminalização de pessoas LGBTQ+, os papéis de
gênero obrigatórios, o controle reprodutivo, a fusão entre Igreja e Estado –
tudo isso está retornando e conta com os recursos do governo mais poderoso do
mundo”, conclui o estudo.
Publicado na edição n° 1411 de CartaCapital, em 06 de maio de 2026.

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