sábado, 2 de maio de 2026

Presa gorda, por Oscar Vilhena Vieira*

Folha de S. Paulo

Hoje todos querem ter acesso privilegiado a um ministro do Supremo

A rejeição de Jorge Messias pelo Senado tem mais relação com a disputa política do que com a biografia do candidato

Numa democracia competitiva e funcional, os adversários políticos têm incentivos para defender um Judiciário independente, capaz de aplicar as regras do jogo de forma íntegra e imparcial. Afinal, ninguém sabe o amanhã.

Não se deve ser ingênuo, no entanto, sobre a natureza das nomeações para tribunais de cúpula nas democracias contemporâneas. Essas sempre terão um componente político. Mas, quando o compromisso com as regras do jogo declina ou os tribunais se mostram mais vulneráveis a influências externas, a captura do Judiciário passa a ser uma estratégia essencial aos atores políticos.

A rejeição de Jorge Messias pelo Senado Federal nesta semana tem mais relação com a disputa entre os atores políticos para controlar o tribunal do que com a biografia do candidato. Três fatores devem ser levados em consideração para se compreender a ruptura com um padrão centenário para a nomeação de ministros do Supremo no Brasil.

O primeiro deles está relacionado à própria proeminência assumida pela corte nas últimas décadas. O Supremo ficou superpoderoso e, portanto, cobiçado. A hiperconcentração de poderes nas mãos dos ministros do STF, inclusive para julgar criminalmente os membros do Legislativo e da cúpula do governo, ampliou a ambição dos políticos de influenciar, ou mesmo controlar, o tribunal.

Um segundo fator nessa ruptura está relacionado à própria mudança no padrão de relacionamento entre o Executivo e o Legislativo. Presidentes minoritários encontram-se em uma posição de maior fragilidade na hora de indicar seus candidatos. O pêndulo da dominância se deslocou do Executivo para o Legislativo. Quando o presidente não dispõe de uma maioria sólida e consistente, deve buscar candidaturas de consenso, sob o risco de ser derrotado.

Por fim, o alto grau de politização assumido pelo Supremo, em parte como decorrência da incapacidade do sistema político de construir consensos e em parte como consequência da flexibilização das virtudes inerentes à aplicação de lei por uma corte de justiça, levou critérios como "saber jurídico" e "ilibada reputação" a cederem espaço para "lealdades pessoais", "alinhamento político" ou "capacidade de diálogo".

O fato é que, hoje, todos querem ter acesso privilegiado a um ministro do Supremo. Inclusive, alguns membros do STF passaram a expressar suas preferências e buscar influenciar a nomeação de seus futuros colegas, com o objetivo de fortalecer suas respectivas bancadas dentro da corte.

A rejeição de Jorge Messias é o resultado dessas múltiplas alterações no padrão de funcionamento e de relacionamento entre os Poderes no Brasil. Sinaliza, ainda, que o tribunal se encontra em uma posição de maior vulnerabilidade, tendo se tornado uma presa cobiçada pelos atores políticos.

Para romper esse processo, cumpre ao próprio tribunal buscar sanar suas vulnerabilidades, por meio de um esforço de fortalecimento de sua colegialidade, imparcialidade, consistência e integridade, como tem sido proposto pelo presidente Edson Fachin. Sem que o tribunal recupere sua autoridade, dificilmente conseguirá se defender das investidas dos demais Poderes.

Por outro lado, seria muito positivo que o presidente, assimilado o golpe, apresentasse uma nova candidatura, alinhada às necessidades do tribunal. O Supremo precisa urgentemente ampliar sua diversidade e fortalecer sua integridade. Uma jurista com ilibada reputação e notório saber jurídico seria fundamental para que o tribunal possa assegurar seu papel fundamental na guarda da Constituição.

*Professor da FGV Direito SP, mestre em direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP. Autor de "Constituição e sua Reserva de Justiça" (Martins Fontes, 2023)

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