sábado, 2 de maio de 2026

Programa de governo e eleições, por Marcus Pestana

Em tese, nossas escolhas deveriam corresponder à nossa identidade com as ideias do candidato. O programa de governo seria a bússola a guiar a construção de nossas preferências. Afinal, eleição é momento de avaliar o passado, dar balanço no presente e projetar o futuro.

No parlamentarismo europeu, as ideias valem mais do que o carisma dos candidatos. O presidencialismo cria espaço para a predominância de lideranças com forte apelo popular em detrimento das diretrizes programáticas. Não é à toa que, na América presidencialista, emergem políticos que são muito maiores que seus respectivos partidos como Lula, Bolsonaro, Trump e Milei.

A última vez, nestas terras tropicais, que uma ideia venceu eleição foi nos idos de 1994 e 1998, quando o Plano Real levou FHC ao Planalto, e não o contrário. Claro que os líderes carismáticos traduzem ideias e valores. Lula representa a ideia de justiça para os mais pobres. Bolsonaro, o antipetismo. Mas o projeto de futuro é eclipsado pelas paixões e rejeições despertadas. Se lembrarmos bem, a discussão programática foi marginal nas eleições de 2018 e 2022. Os programas de governo assumem papel periférico e caráter quase ornamental. Alguns bordões, extraídos das pesquisas de opinião, traduzem algumas poucas ideias capazes de captar apoios e votos.    

E o pior, nem sempre as palavras ditas são coerentes com a prática anterior. Algo como confessou o poeta em seu belo “Fado Tropical”: “Se trago as mãos distantes do peito, é que há distância entre intenção e gesto”. Os candidatos procuram mascarar esse vazio entre discurso e objetivos futuros, e que não obrigatoriamente são avalizadas pelas atitudes passadas.

O PT fez um Congresso e soltou um manifesto que traduz a essência da candidatura Lula. Falou em reforma política e eleitoral, mas não foi uma prioridade em seus 18 anos no poder. Mencionou vagamente uma mudança autocorretiva no Poder Judiciário, sem falar como fazer. Imagina mudar as emendas parlamentares, mas o tema foi acomodado nos últimos quatro anos. Desistiu de sua saga contra a autonomia do Banco Central. Acenou para o centro político, propondo uma” concertação social”, mas as últimas escolhas e gestos não apontaram na direção da amplitude ideológica. Defendem o fortalecimento do investimento público como fator indutor do desenvolvimento, entretanto expandiram o gasto corrente obrigatório, sufocando o investimento. Falam em reforma administrativa, mas não estimularam o debate do projeto sobre o tema, do deputado Pedro Paulo (PSD/RJ). É inevitável perceber certo descompasso entre intenção e gesto.

Já Flávio Bolsonaro, está jogando parado e evitando temas polêmicos, que lhe tirem votos. Abortou o anunciado lançamento do programa de governo. Uma forma de fugir da explicação sobre tesouraço no gasto público, desvinculações e desindexações orçamentárias, redução do Estado, aumento de sua eficiência e redução de tributos. E, principalmente, adiar o encontro com dois temas cruciais e inevitáveis, já que herança política genética: a gestão da pandemia e a tentativa de ruptura da ordem democrática.

Os dois lideram as pesquisas. Estão chegando no debate Caiado, Zema, Aldo Rebelo e Renan Santos. Tomara que o confronto de ideias e programas predomine.

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