No parlamentarismo europeu, as ideias valem mais do que o carisma dos candidatos. O presidencialismo cria espaço para a predominância de lideranças com forte apelo popular em detrimento das diretrizes programáticas. Não é à toa que, na América presidencialista, emergem políticos que são muito maiores que seus respectivos partidos como Lula, Bolsonaro, Trump e Milei.
A última vez, nestas terras tropicais, que
uma ideia venceu eleição foi nos idos de 1994 e 1998, quando o Plano Real levou
FHC ao Planalto, e não o contrário. Claro que os líderes carismáticos traduzem
ideias e valores. Lula representa a ideia de justiça para os mais pobres.
Bolsonaro, o antipetismo. Mas o projeto de futuro é eclipsado pelas paixões e
rejeições despertadas. Se lembrarmos bem, a discussão programática foi marginal
nas eleições de 2018 e 2022. Os programas de governo assumem papel periférico e
caráter quase ornamental. Alguns bordões, extraídos das pesquisas de opinião,
traduzem algumas poucas ideias capazes de captar apoios e votos.
E o pior, nem sempre as palavras ditas são
coerentes com a prática anterior. Algo como confessou o poeta em seu belo “Fado
Tropical”: “Se trago as mãos distantes do peito, é que há distância entre
intenção e gesto”. Os candidatos procuram mascarar esse vazio entre discurso e objetivos
futuros, e que não obrigatoriamente são avalizadas pelas atitudes passadas.
O PT fez um Congresso e soltou um manifesto
que traduz a essência da candidatura Lula. Falou em reforma política e
eleitoral, mas não foi uma prioridade em seus 18 anos no poder. Mencionou
vagamente uma mudança autocorretiva no Poder Judiciário, sem falar como fazer.
Imagina mudar as emendas parlamentares, mas o tema foi acomodado nos últimos
quatro anos. Desistiu de sua saga contra a autonomia do Banco Central. Acenou
para o centro político, propondo uma” concertação social”, mas as últimas
escolhas e gestos não apontaram na direção da amplitude ideológica. Defendem o
fortalecimento do investimento público como fator indutor do desenvolvimento,
entretanto expandiram o gasto corrente obrigatório, sufocando o investimento.
Falam em reforma administrativa, mas não estimularam o debate do projeto sobre
o tema, do deputado Pedro Paulo (PSD/RJ). É inevitável perceber certo
descompasso entre intenção e gesto.
Já Flávio Bolsonaro, está jogando parado e
evitando temas polêmicos, que lhe tirem votos. Abortou o anunciado lançamento
do programa de governo. Uma forma de fugir da explicação sobre tesouraço no
gasto público, desvinculações e desindexações orçamentárias, redução do Estado,
aumento de sua eficiência e redução de tributos. E, principalmente, adiar o
encontro com dois temas cruciais e inevitáveis, já que herança política
genética: a gestão da pandemia e a tentativa de ruptura da ordem democrática.
Os dois lideram as pesquisas. Estão chegando no debate Caiado, Zema, Aldo Rebelo e Renan Santos. Tomara que o confronto de ideias e programas predomine.

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