domingo, 29 de março de 2026

Guerra do Irã, crise do petróleo, o Brasil e a velha “Carreira das Índias”, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Índia e Coreia do Sul ampliaram as compras de petróleo da Petrobras, que renovou e ampliou contratos de venda para as principais estatais indianas

O Brasil está de olho nas oportunidades para exportação de petróleo bruto e etanol para a Ásia, com as mudanças geopolíticas provocadas pela guerra do Irã. O fechamento do Estreito de Ormuz, a imprevisibilidade do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e os conflitos no Oriente Médio, que atingiram uma escala inimaginável, reposicionam as potências da Ásia. Essas mudanças ficaram evidentes no encontro dos chanceles do G7, grupo de países mais industrializados do mundo: Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido.

Realizado em Vaux-de-Cernay, na França, que preside o encontro, a reunião de sexta-feira foi uma etapa preparatória para a Cúpula de Líderes, prevista para junho, da qual o Brasil, a Índia e a Coreia do Sul também participarão como convidados. A guerra no Irã e assuntos bilaterais foram tratados pelo ministro de Relações Exteriores, Mauro Vieira, e os chanceleres do G7, mas as conversas mais produtivas do chanceler brasileiro foram com o indiano Subrahmanyam Jaishankar e o coreano Cho Hyu. Os dois países asiáticos estão empenhados em reduzir a dependência em relação ao petróleo e gás do Oriente Médico. É aí que a velha “Carreira das Índias” ainda tem seu valor.

A criação da “Carreira das Índias” coincidiu com a chegada dos portugueses ao Brasil, em 22 de abril de 1500. Organizada pela Coroa Portuguesa com o objetivo de consolidar o comércio com as Índias Orientais, a esquadra de Pedro Álvares Cabral tinha 13 navios e 1,2 mil homens, entre marinheiros, soldados, religiosos e comerciantes. Partiu de Lisboa em 9 de março daquele ano, com destino oficial à cidade de Calicute, na Índia. Após deixar o Brasil, em setembro de 1500, Cabral chegou a Calicute. Houve conflitos com muçulmanos locais, Cabral bombardeou a cidade, mas conseguiu fazer acordos comerciais em Cochim e Cananor, estabelecendo as bases portuguesas na região.

O comércio regular com as Índias consolidou o império ultramarino português, que também foi o primeiro país europeu a estabelecer contato direto e duradouro com a China Imperial. Em 1513, o navegador português Jorge Álvares desembarcou em Tamão (perto de Hong Kong). Em 1557, os portugueses obtiveram autorização do governo Ming para se estabelecerem na China. Macau serviu de elo entre Japão, China e Europa. Portugal manteve a administração da ilha até 1999, quando foi devolvida à China.

A velha rota do “Caminho das Índias” ainda é a mais utilizada para as exportações brasileiras, principalmente pelos navios de grande porte, devido aos custos. O trajeto Porto de Santos, Canal do Panamá, Oceano Pacífico, Mar da China Meridional, Porto de Xangai ou Guangzhou, com 19 mil km, leva de 30 a 35 dias, dependendo do tipo de navio, clima e escalas. Essa rota é mais curta e vantajosa para o Norte e o Nordeste, porém, mais cara, devido aos custos da passagem pelo canal, filas de espera e limites de tonelagem dos navios.

Já a Rota do Cabo da Boa Esperança, com trajeto Santos, Atlântico Sul, Cabo da Boa Esperança, Oceano Índico, Malaca e Mar da China, tem de 22 mil a 24 mil km, leva de 35 a 45 dias, porém, é mais barata, porque não tem pedágio e permite navios gigantes. Recentemente, o Brasil e a China conectaram o Porto de Gaolan, na cidade de Zhuhai, aos portos brasileiros de Santana (AP) e Salvador. Essa rota atravessa o Estreito de Malaca e o Cabo da Boa Esperança, reduzindo o tempo de transporte em até 15 dias e os custos logísticos em mais de 30%, em comparação com as rotas tradicionais.

Petrobras

O problema logístico da relação com a Ásia é desafogar os portos existentes e diversificar as rotas, para exportar soja, açúcar, café, carnes, minério de ferro; produtos petroquímicos e combustíveis; mármore, granito, aço e celulose; e castanha de caju, cera de carnaúba, frutas, carnes, calçados e têxteis. A exportação de petróleo bruto, porém, leva a vantagem de que a maior parte da produção está no mar e já conta com terminais para escoar a produção. A produção de etanol também está próxima ao litoral.

Segundo a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, os países asiáticos têm ampliado a demanda pelos produtos da estatal. Destacam-se, além da China, justamente a Índia e a Coreia do Sul. Uma das dificuldades comerciais até recentemente era o preço do barril, que estava em torno de US$ 70; agora, com a guerra, já está em US$ 110. Com o fim da guerra, pode baixar, mas não deve voltar ao patamar anterior.

A Ásia responde por 72% das vendas no terceiro trimestre de 2025, ante 55% e 47% no mesmo período de 2024 e 2023, respectivamente. A China é o principal comprador, com participação de 53%, contra 41% e 40% no mesmo anterior. Recentemente, a Índia e Coreia do Sul ampliaram as compras de petróleo da Petrobras, que renovou e ampliou contratos de venda para as principais estatais indianas.

Os contratos com a Indian Oil Corporation Limited (IOC), a Bharat Petroleum Corporation Limited (BPCL) e a Hindustan Petroleum Corporation Limited (HPCL) em vigor até março de 2027 e já representam um potencial de venda de até 60 milhões de barris, com valor estimado em US$ 3,1 bilhões. A preços de hoje, esse montante chegaria a valer US$ 6,3 bilhões. Ou seja, o Brasil pode mitigar o jogo de soma zero da guerra do Irã.

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