Folha de S. Paulo
Escândalo do Master levanta a suspeita de que
um outro Brasil tenha nascido e se alojado nas vísceras federais
Movimentos suscitam interrogações relevantes
sobre as relações do poder com a sociedade
Há algo de salutar no escândalo do Banco Master, pois toda grande crise (do grego "krinein", descriminar, ver nas fissuras) revela aspectos despercebidos da realidade. No caso do Master, mais do que revelar, trata-se de expor: quando não se conhecem detalhes, ao menos se sente o peso do poder paralelo de entidades corruptivas na dinâmica nacional. Na exposição, incrementada nas redes por mobilização neural, o argumento dá lugar à cenografia, como num conto moral. As massas veem o que sentem de coração.
Desse modo, a visibilidade do fato privilegia
palavras e imagens projetivas: festa de noivado na Sicília orçada em R$ 21
milhões, R$ 363 milhões em celebração em Taormina, também na
Itália, passeio de R$ 10 milhões em iate, jato transatlântico, champanhe e caviar
inesgotáveis, beldades eslavas.
Por trás, o azeitamento corruptivo da máquina
do poder em Brasília, efeito da falência da política positiva (homóloga à
historicidade da ordem e do progresso), ultrapassada por organizações
econômicas (bancos, grupos de finanças, agronegócio), direita e centrão.
Nessa crise, fenômenos e movimentos suscitam
interrogações relevantes sobre as relações do poder com a sociedade, mas também
com a mutação do sentimento de existência nas classes dirigentes.
São diversos os modos de realização da democracia liberal quando os caminhos sociais se
decidem por elites abrigadas em protocolos entre formais e obscuros, à sombra
do Estado. É o caso dos estamentos burocráticos que ganham autonomia decisória
na debilitação político-institucional. Por exemplo, Judiciário e Legislativo
vulneráveis a círculos financeiros e empresariais.
Um sentimento de existência permeável à sua
própria exposição pública leva um capo fraudulento como Vorcaro à enunciação de
verdades escandalosas: "Esse negócio de banco é uma máfia", "eu
sou a anarquia do sistema". E como a mafialização é também evangélica,
alega-se parceria com o "Senhor dos Exércitos" em desavenças
pessoais. Algo correlato ao vaticínio bíblico sobre os que desprezam a palavra
do Santo de Israel: " Por isso, o furor do Senhor se inflama contra seu
povo, apodera-se dele e o castiga; os montes tremem, seus cadáveres, como
carniça, jazem nas ruas" (Isaías, 5-25). Pequena lagoa de ódio que
respalda a milícia particular destinada a agredir a imprensa e ameaçar de morte
os dissidentes.
A exposição do escândalo levanta a suspeita
de que um outro Brasil tenha nascido e se alojado nas vísceras federais como um
chupa-cabra de energias do trabalho produtivo. Dinheiro é o sangue vital, corrupção o
modo operatório. Nesse balcão de compra e venda, o que se quer da República é
uma fachada conveniente, um "brilho de aluguel" (João Bosco/Aldir
Blanc).
Não é fenômeno exclusivo, mas aqui a
desigualdade social e o desprezo das elites no poder pelo território dão à
fraude estatuto de cataclisma moral e cívico. Por isso, ao sentimento público
de justiça pouco satisfazem, expostos, uniforme, chinelão e a cela exígua do
mestre corruptor, por mais que bata nas paredes a cabeça tosada. Uma delação
verdadeira, essa, sim, mostraria o conteúdo da caixa de Pandora chamada
Brasília. Aí então, seria um verdadeiro salve-se quem puder

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