O Estado de S. Paulo
O emprego de militares americanos em
território iraniano se tornou bastante provável. O anúncio da mobilização dos
fuzileiros navais, paraquedistas e tropas terrestres aponta para dois objetivos
possíveis: pressionar o Irã a aceitar as condições americanas ou intervir para
pôr fim ao bloqueio do Estreito de Ormuz.
Por definição, uma tática dissuasória só tem
o efeito de modelar o comportamento do adversário se prenunciar um cenário que
ele considera mais prejudicial do que a concessão exigida. Esse não parece ser
o caso do Irã.
O regime não tem motivos para abrir mão do controle sobre o Estreito de Ormuz e de suas exigências, como a manutenção de seu arsenal de mísseis e de um programa nuclear para fins pacíficos, bem como o compromisso de não voltar a ser atacado, em troca de evitar o desembarque do inimigo.
Ao contrário. O cenário de guerra de
guerrilha na costa montanhosa e nas ilhas do Golfo pode parecer atraente. Não
porque os iranianos subestimem a capacidade dos soldados americanos. Mas pelas
dificuldades inerentes à invasão.
A Guarda Revolucionária Islâmica se preparou
desde o seu surgimento, em 1979, para esse confronto: na luta contra liberais e
esquerdistas em seguida à revolução daquele ano; na guerra Irã-Iraque de
198088; na cooperação com o Hezbollah, os houthis e milícias xiitas no Iraque e
na Síria.
Os exemplos do Vietnã, do Afeganistão e do
Iraque provam que a superioridade tecnológica perde importância no corpo a
corpo contra combatentes que conhecem o terreno e se protegem em túneis,
trincheiras, prédios e montanhas. E não havia drones então.
A 82.ª Divisão Aerotransportada é uma força
de resposta rápida treinada para descer atrás das linhas do inimigo e tomar
instalações estratégicas. Os marines são uma força expedicionária capaz de
proteger rotas marítimas e infraestrutura crítica.
Tropas terrestres, infantaria e veículos
blindados comporiam uma terceira camada, para garantir a conquista dessas
posições avançadas por mais tempo.
ESCOLHAS. Esse plano indica a compreensão política por parte do presidente Donald Trump de que o desfecho dessa campanha não pode ser o controle do Estreito de Ormuz pelo regime iraniano – algo que nunca ocorreu –, porque levaria à conclusão de derrota.
Num cenário de guerra e controle do estreito
até junho, por exemplo, as projeções indicam um barril de petróleo a US$ 200 e
o galão de gasolina a US$ 8 – ante US$ 70 e US$ 2,90 antes da crise.
Por outro lado, essa guerra já é impopular
sem o emprego de tropas terrestres e as prováveis baixas que ele implica. Trump
tem de escolher entre duas fontes de insatisfação dos americanos.

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