domingo, 29 de março de 2026

Trump tem de fazer uma escolha no Irã, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O emprego de militares americanos em território iraniano se tornou bastante provável. O anúncio da mobilização dos fuzileiros navais, paraquedistas e tropas terrestres aponta para dois objetivos possíveis: pressionar o Irã a aceitar as condições americanas ou intervir para pôr fim ao bloqueio do Estreito de Ormuz.

Por definição, uma tática dissuasória só tem o efeito de modelar o comportamento do adversário se prenunciar um cenário que ele considera mais prejudicial do que a concessão exigida. Esse não parece ser o caso do Irã.

O regime não tem motivos para abrir mão do controle sobre o Estreito de Ormuz e de suas exigências, como a manutenção de seu arsenal de mísseis e de um programa nuclear para fins pacíficos, bem como o compromisso de não voltar a ser atacado, em troca de evitar o desembarque do inimigo.

Ao contrário. O cenário de guerra de guerrilha na costa montanhosa e nas ilhas do Golfo pode parecer atraente. Não porque os iranianos subestimem a capacidade dos soldados americanos. Mas pelas dificuldades inerentes à invasão.

A Guarda Revolucionária Islâmica se preparou desde o seu surgimento, em 1979, para esse confronto: na luta contra liberais e esquerdistas em seguida à revolução daquele ano; na guerra Irã-Iraque de 198088; na cooperação com o Hezbollah, os houthis e milícias xiitas no Iraque e na Síria.

Os exemplos do Vietnã, do Afeganistão e do Iraque provam que a superioridade tecnológica perde importância no corpo a corpo contra combatentes que conhecem o terreno e se protegem em túneis, trincheiras, prédios e montanhas. E não havia drones então.

A 82.ª Divisão Aerotransportada é uma força de resposta rápida treinada para descer atrás das linhas do inimigo e tomar instalações estratégicas. Os marines são uma força expedicionária capaz de proteger rotas marítimas e infraestrutura crítica.

Tropas terrestres, infantaria e veículos blindados comporiam uma terceira camada, para garantir a conquista dessas posições avançadas por mais tempo.

ESCOLHAS. Esse plano indica a compreensão política por parte do presidente Donald Trump de que o desfecho dessa campanha não pode ser o controle do Estreito de Ormuz pelo regime iraniano – algo que nunca ocorreu –, porque levaria à conclusão de derrota.

Num cenário de guerra e controle do estreito até junho, por exemplo, as projeções indicam um barril de petróleo a US$ 200 e o galão de gasolina a US$ 8 – ante US$ 70 e US$ 2,90 antes da crise.

Por outro lado, essa guerra já é impopular sem o emprego de tropas terrestres e as prováveis baixas que ele implica. Trump tem de escolher entre duas fontes de insatisfação dos americanos. 

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