domingo, 29 de março de 2026

Próximos passos do caso Master, por Míriam Leitão

O Globo

PF e MPF juntos vão impedir delação seletiva. BRB pode ter redução do rombo, mas vive dias decisivos. Caso Master entra em nova fase

Há duas dúvidas cruciais neste momento sobre o caso Master. Na política, a pergunta é se a delação de Daniel Vorcaro será enviesada e seletiva. Na economia, é o que vai acontecer com o BRB. Quem acompanha a investigação acha que existem seguros contra o risco de uma delação parcial. Um deles é o fato de a Polícia Federal e o Ministério Público atuarem em conjunto, outro é a abundância de fatos já revelados. Sobre o BRB, momentos decisivos acontecerão nos próximos dias. O governador Ibaneis Rocha tem atrapalhado a busca de soluções. O prazo para a divulgação do balanço se esgota depois de amanhã.

Ontem completou um ano que o BRB anunciou que iria comprar o Master, hoje ele luta pela vida. A história mostrou, neste um ano, que se a operação tivesse sido permitida pelo Banco Central seria a consumação do crime perfeito de Vorcaro. Ele encobriria seus roubos e levaria todas as fraudes para dentro de um banco público.

O Banco de Brasília continua exposto a riscos, por ter feito negócios com um fraudador. O governador Ibaneis Rocha tem ouvido mais seus advogados do que os gestores que tentam manter o banco vivo. Uma das saídas, se sabe, é um empréstimo do Fundo Garantidor de Créditos. Mas, para isso, o acionista controlador, no caso o governo do Distrito Federal, teria que escrever uma carta admitindo que a instituição está numa situação patrimonial grave e precisa de socorro. Orientado por seus advogados, Ibaneis reluta em colocar isso no papel. Enviou ao FGC apenas um “aviso de pedido”, um pontapé. Isso é pouco e tarde.

Para o país, o maior risco seria ter uma delação seletiva que mire uns alvos e poupe outros por razões políticas. O fato de haver muita gente na sala reduz esse risco, avaliam pessoas envolvidas nas apurações. Os criminosos estarão sendo ouvidos por integrantes da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. “Se um lado tentar manipular, o outro levantará da mesa e o país saberá que algo estranho acontece”, diz uma das fontes que eu ouvi. Ademais, muito já foi divulgado nesta investigação que está bem avançada, o que tira margem de manobra dos delatores, caso queiram fazer escolha seletiva de alvos.

Até agora, o Banco Central fez um trabalho autônomo e sem pirotecnia. Resistiu aos ataques e olhou também para os seus próprios erros. Foi o BC que evitou o desastre da compra do Master pelo BRB, identificou indícios de crime e os denunciou ao Ministério Público. A Polícia Federal tem avançado na investigação e resistiu quando houve tentativa de interferência de ministro do STF. A imprensa trouxe para a luz do sol informações preciosas.

A ideia de que Brasília inteira pode ser atingida pelas revelações é enganosa. Há quem tenha recebido Vorcaro, conversado com ele, sem favorecê-lo em coisa alguma. Há os que tiveram vantagem direta e há os que, tendo recebido vantagens, fizeram favores ilícitos a Vorcaro. E aí é que está o crime. Joio e trigo terão que ser separados.

O problema mais agudo e imediato é o destino do BRB. Se ele não divulgar o balanço no dia 31 de março receberá uma multa do Banco Central, mas é pequena. Há punições na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Mas o mais preocupante é o que pensará o cliente a respeito de uma instituição que está há nove meses sem publicar balanço e sobre o qual se estima um rombo de R$ 8 bilhões a R$ 10 bilhões. Existem os depositantes privados, mas existem também os clientes institucionais, os tribunais de Justiça, os fundos de pensão. O BRB tem muito depósito judicial, além da folha salarial da região administrativa com maior renda per capita. Se houver uma crise de confiança que leve a uma corrida, será fatal para o banco.

O pior cenário pode ser evitado. Primeiro, um detalhe contábil: quando um banco tem prejuízo, 40% do negativo viram crédito fiscal que vai para o ativo. Portanto, o rombo diminui. Segundo, quando há credores com “dívida subordinada”, a regra estabelece que se o banco ficar com patrimônio negativo, essa dívida é convertida em capital. Ou seja, o credor vira sócio. E, de novo, o rombo diminui. Dependendo do volume de dívida subordinada que haja no balanço, 70% do total do rombo não precisarão ser capitalizados em dinheiro.

O BRB tem R$ 67 bilhões em ativos e passivos. Não provoca uma crise sistêmica mas, se quebrar, atingirá fortemente o setor público.

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