Folha de S. Paulo
Livro que transita entre comentário e
biografia consegue tornar claras ideias do filósofo
Embora seja um autor do século 18, Kant segue
sendo referência em temas como ética e direitos humanos
É difícil dizer se "Kant: a Revolution
in Thinking", de Marcus Willaschek, deve ser classificado como um
comentário da obra do filósofo ou como uma biografia. Qualquer que seja
o veredicto, Willaschek faz as duas coisas muito bem.
É impressionante como o livro consegue tornar claras as ideias de Kant, uma tarefa em que muitas vezes o próprio filósofo prussiano fracassava. E não porque Willaschek fuja dos pontos mais desafiadores. "Kant..." cobre praticamente toda a obra, sem nos poupar das passagens mais abstratas e difíceis da "Crítica da Razão Pura". É claro que especialistas poderão apontar lacunas, mas o livro resolve bem os problemas de leitores comuns, movidos só pelo "sapere aude!" (ouse saber) e sem pretensão de escrever uma monografia sobre o filósofo de Königsberg.
Mais do que apenas explicar, Willaschek
também procura mostrar em que medida o pensamento de Kant, um autor do século
18, mudou a filosofia europeia e por que, em certos temas, como ética, direitos humanos e relações internacionais,
conserva relevância até hoje.
Se o item mais valioso em "Kant..."
são as explicações, a parte mais divertida está nos apontamentos biográficos. A
passagem dos séculos legou a Kant a imagem de um filósofo impenetrável, sisudo
e metódico, que morreu virgem. Metódico ele era. Willaschek conta como surgiu a
lenda segundo a qual a população de Königsberg acertava seus relógios pela hora
em que Kant saia para seu passeio. Mas ele também era, contra as expectativas,
uma figura sociável, que chegou a ser perseguido pelas mulheres. Também era um
bom contador de piadas. O livro reproduz algumas, mas já alerto que o humor do
século 18 não envelheceu muito bem.
Willaschek resiste à tentação de endeusar seu
objeto de estudo. Ele não se furta a levantar pontos fracos de Kant, que
aparecem em declarações antissemitas, racistas e misóginas. Não cai nos anacronismos típicos de nossa época, mas observa que são
um problema para quem defendia uma noção radical de igualdade.
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