domingo, 29 de março de 2026

Lula está tonto, por Elio Gaspari

O Globo

Lula resolveu culpar os endividados pelo endividamento da população. Nas suas palavras:

“Tudo a gente vai comprando. É R$ 50 ali, R$ 30, R$ 40. Parece que não é nada. Mas quando chega no final do mês, a somatória dessa quantidade de pouquinhos vira grande. E a gente começa a ficar zangado. ‘Trabalhei o mês inteiro, recebi meu salário e não sobrou nada’. Aí quem vocês xingam? O governo.”

Culpar a população por um problema é a marca dos governantes tontos. E Lula não está tonto porque o endividamento das famílias aumentou. O que o leva a culpar o povo são as pesquisas. Segundo a Atlas/Bloomberg, a desaprovação do governo chegou a 54% e além disso, uma simulação do segundo turno da eleição mostrou-o tecnicamente empatado com Flávio Bolsonaro. O presidente tem 46,6% das intenções de voto e Bolsonaro II ficou com 47,6%. Diferindo de seu pai, que aproveitava qualquer oportunidade para fazer campanha, seu filho está jogando parado. Não apresentou plano de governo e mal opina sobre as questões relevantes da vida nacional. De certa maneira, alimenta-se do mau humor dos eleitores com o desempenho do governo.

Lula 3.0 completou três anos de governo sem que tenha fixado uma marca. A fila do INSS arrisca bater a marca dos 3 milhões de vítimas antes de outubro. Apesar do programa Pé de Meia, as matrículas de jovens no ensino médio encolheram 6,3%.

Pode ser que o mau humor tenha a ver com o cansaço, com os escândalos que não partiram do governo, com má marquetagem ou também com salto alto.

Um exemplo dos perigos do salto alto veio do ministro da Previdência, Wolney Queiroz, e do presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior. Apesar das promessas do governo, a fila de vítimas aumentando, Queiroz sustentou que os segurados deverão ser atendidos “no menor tempo possível”. O doutor perdeu uma oportunidade de explicar porque três anos de promessas atolaram.

Os estrategistas do Planalto surpreenderam-se com a erosão da popularidade de Lula no andar de baixo. Não poderia ser de outra forma, os aposentados foram roubados e os segurados não conseguem atendimento. Waller Junior ofereceu um número que pode explicar a ruína: em 2022 (governo Bolsonaro) o INSS tinha 36 mil funcionários e em 2025 (governo Lula), esse número caiu para 18 mil. O presidente do INSS comporta-se como um analista que nada tem a ver com a gestão do governo.

O ministro pediu que se faça uma “boa propaganda” da Previdência. Ganha um fim de semana em Teerã quem souber como isso pode ser feito.

O cérebro de Trump

Algum parafuso está solto no cérebro do presidente dos Estados Unidos. No dia 6 de março, Donald Trump, disse que atacará o Irã até que ele ofereça sua “rendição incondicional”.

Três semanas depois, colocou na mesa de negociação um plano de 15 pontos, rejeitado pelos aiatolás.

Em maio de1945, os Aliados exigiam a rendição incondicional da Alemanha. O almirante Doenitz, que assumiu o governo depois do suicídio de Hitler, mandou emissários ao general Eisenhower para negociar uma paz na frente Oeste.

Nenhum deles foi sequer recebido.

Blefe

Com a decisão do Supremo Tribunal Federal de limitar parcialmente os penduricalhos da magistratura, ressurgiu a ameaça de provocar pedidos de aposentadoria.

É blefe. Noves fora os penduricalhos os doutores têm gabinetes, secretárias e carros com motorista.

Fora da folha de pagamento da Viúva, essa infraestrutura custa em torno de R$ 50 mil.

Aposentados, para manter o padrão de vida, os doutores ficarão com essa conta.

Lulinha

Abril vem aí e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, defende-se com o silêncio. É tudo que a oposição precisa.

Há um mês ele entrou na frigideira da CPI do INSS e já está entendido que viajou com o Careca a Portugal para prospectar um negócio. Agora sabe-se que ele prestou serviços de consultoria à Fictor, jogada na frigideira do bando Master y otras cositas más.

Enquanto o negócio do Careca do INSS em Portugal era essencialmente privado, na Fictor Lulinha era ligado ao empresário Luiz Rubini, um ex-sócio da empresa, que passou a integrar o Conselho do Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o Conselhão. Este plenário tem nome comprido e atribuições nulas. Apenas enfeita os currículos dos seus integrantes.

O Planalto ainda tem tempo para desativar essa bomba relógio, armada para explodir na campanha eleitoral.

Lula tem dezenas de parentes e, desde que o marechal Deodoro encrencou-se pela parentela, ele foi um dos presidentes que menos misturaram a família com negócios do Estado.

A surpresa de Francisco

Está na rede um bom livro, infelizmente em inglês. É The Election of Pope Leo XIV: The Last Surprise of Pope Francis (A Eleição do Papa Leão XIV: A Última Surpresa do Papa Francisco, dos jornalistas Gerard O'Connel e Elisabetta Piqué. Ele mostra como Francisco armou o quadro que levou à eleição do americano/peruano Robert Prevost.

O argentino Jorge Bergoglio agiu em duas direções. Numa, mudou o eleitorado, reduzindo a participação de cardeais europeus e, sobretudo, italianos. Quando morreu, tinha nomeado 80% do Colégio de Cardeais. Noutra, alavancou religiosos, principalmente o americano Robert Prevost, bispo de uma diocese peruana e quem entregou o Dicastério dos Bispos.

Pela sabedoria convencional, a sucessão de Francisco ficaria entre o secretário de Estado, o italiano Pietro Parolin e o conservador hungaro Péter Erdö (o mais votado no primeiro escrutínio). Prevost foi o segundo mais votado e Parolin o terceiro.

Prevost e Bergoglio conheceram-se em Buenos Aires, mas o encontro foi desastroso para o americano. Prevost achou que nunca chegaria a ser bispo. Feito Papa, Francisco deu-lhe uma diocese e estimulou sua carreira de pastor no Peru. Anos depois entregou-lhe o poderoso Dicastério dos Bispos, em Roma (responsável pela nomeação dos sacerdotes.)

A escolha de Leão XIV preserva o legado de Francisco mas costura uma pacificação com os cardeais conservadores. Francisco nunca deu pistas da sua preferência, mas O'Connel e Elisabetta Piqué, amigos pessoais de Bergoglio, decifraram a armação.

Urucubaca fluminense

Em outubro os eleitores do Rio de Janeiro irão às urnas. Esse eleitorado reelegeu Sérgio Cabral e Cláudio Castro com mais de 60% dos votos.

Sete governadores do Rio deram-se mal. Moreira Franco, Sérgio Cabral, Anthony Garotinho e sua mulher Rosinha, bem como Luiz Fernando Pezão foram presos. Wilson Witzel foi impedido e seu vice, Cláudio Castro, renunciou para não ser cassado.

Neste século, todos os cidadãos eleitos para governar o Estado do Rio foram presos e/ou impedidos.

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