sábado, 4 de abril de 2026

A globalização não morreu, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

A guerra comercial não quebrou o sistema – apenas o obrigou a encontrar novos caminhos

Trump parece ter transformado a política econômica em uma versão moderna do menino que gritava “lobo” (Esopo). Depois de tantos alarmes falsos, o problema não é mais o que se anuncia, mas é a credibilidade de quem anuncia. O interessante na situação atual é ver que, um ano depois de idas e vindas, a liderança perde a credibilidade, mas o sistema não colapsa.

A trilha desse filme segue com as empresas ignorando o discurso e reorganizando as cadeias produtivas e distributivas, os países ignorando as ameaças e firmando novos acordos, mas os mercados reagindo e aumentando os prêmios de risco.

A globalização se mostra resiliente. A despeito de a guerra econômica ter custos crescentes, o sistema se adapta e segue. Há uma convergência para a ideia de que o tarifaço não desmontou o comércio global; ele redesenhou rotas, aumentou custos e produziu efeitos políticos adversos para Trump.

Segundo a Reuters, em fevereiro, as importações dos EUA voltaram a subir, e o déficit comercial americano aumentou para US$ 57,3 bilhões, apesar de exportações recordes – um retrato de fluxos que continuam intensos mesmo sob forte intervenção tarifária.

Enquanto isso, na pesquisa AP-NORC, de março, Trump amarga um índice de reprovação de 60% no geral. Já uma pesquisa da ABC News/ Washington Post/ Ipsos apontou 64% de desaprovação ao modo como ele lida especificamente com tarifas. A guerra com o Irã piorou a percepção sobre sua condução econômica ao pressionar energia e combustíveis. Nos EUA o aumento do preço da gasolina provoca desgaste no bolso especialmente sobre famílias de menor renda. Outra pesquisa, da Reuters/Ipsos, mostrou que 60% dos entrevistados desaprovam a guerra e 66% querem que os EUA encerrem seu envolvimento. Mais da metade acredita que o conflito terá impacto negativo sobre sua situação financeira, e dois em cada três esperam piora nos preços dos combustíveis.

Até aqueles que apoiavam a guerra no início têm mudado de posição. O discurso de 1.º de abril não ajudou nada e mostrou mais uma vez que Trump fica gritando que o lobo apareceu. Trump até conseguiu reduzir a rota direta entre América e China. O que não conseguiu foi controlar o mapa inteiro. O comércio desviou, se recompôs e seguiu. Já o custo político ficou em casa: preços mais altos, gasolina mais cara, guerra sem plano claro e um eleitorado cada vez menos disposto a pagar essa conta.

A guerra comercial não quebrou o sistema – apenas o obrigou a encontrar novos caminhos. Na fábula, o menino aprende tarde demais; na vida real, todos pagam o preço.

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