sábado, 4 de abril de 2026

O incêndio na pizzaria, por Murillo de Aragão

Veja

O sistema institucional precisa ser imediatamente depurado

Vivemos em um país onde o Estado é maior que a sociedade e os detentores do poder sempre exerceram contenção de danos em nome da manutenção da institucionalidade e da tutela de nós, a patuleia. Mesmo que custasse atropelar a Constituição, que, nos dias de hoje, nos faz lembrar de como a chamavam no Império: a defunta. Já não há estado de direito nem contenção moral de muitos que dirigem o país. A “Constituição Cidadã” é plena de direitos, parca de obrigações e ineficaz na aplicação de ambos.

Nas atuais circunstâncias, podemos lançar mão de uma imagem própria para a Semana Santa: paz em Brasília aos homens de boa vontade. A frase cairia bem como mensagem religiosa e de concórdia. Mas não é o caso. Todos querem paz e que não sejam atingidos pela chuva de meteoritos. Os homens de boa vontade tentam se ajudar mutuamente buscando fazer funcionar, de forma eficiente e eficaz em seus resultados, a Pizzaria Brasília. Obviamente não me refiro à gloriosa Pizzaria Dom Bosco, ícone da capital federal. No entanto, os fornos estão desligados e a Pizzaria Brasília está em chamas. E os bombeiros estão divididos entre apagar o incêndio e deixar tudo virar cinzas.

No xadrez da contenção, está claro que os movimentos são todos calculados, como em um teatro Kabuki, tradicional expressão cultural do Japão, com uma linguagem estética codificada combinando elementos visuais, musicais e performáticos de forte impacto. A patuleia desvalida se encanta com os efeitos e não com as mensagens. Porém, na confusão da dramaturgia brasiliense, existe um dado: não há um diretor que comanda o espetáculo. São vários diretores e protagonistas e o roteiro pode ser mudado a qualquer momento em razão de vazamentos, delações e descobertas. Não há dia sem novidades.

“Dada a dimensão dos escândalos simultâneos, Brasília virou uma espécie de Epcot Center de malfeitos”

Joga-se um xadrez multidimensional cujo objetivo central é o resultado eleitoral e não, de verdade, a depuração de um sistema institucional que apresenta sinais claros de metástase. Pedidos de investigação resultam em limitações na sua amplitude, sigilos quebrados em bloco devidamente anulados. CPIs se perdem no meio da questão eleitoral e no espetáculo que buscam proporcionar. Mas decepcionam a audiência, que quer ver sangue e detalhes sórdidos. De passagem, vazamentos de conversas eróticas são devidamente condenados, mas deleitam as redes sociais.

No raso, os diálogos eróticos e as festinhas encobrem o escândalo. Ou melhor, os escândalos, que seguem os círculos do Inferno de Dante. Lá no fundo da escala estão aqueles que roubaram o dinheiro dos aposentados. Pouco acima estão aqueles que receberam honorários sem justificativa plausível. Dada a dimensão dos escândalos simultâneos, Brasília virou uma espécie de Epcot Center de malfeitos de todos os tipos.

De fato, nossa garganta institucional é pequena para tantos ingredientes indigestos. Por outro lado, o forno da Pizzaria Brasília pode não ter capacidade para assar tantas pizzas. Ainda mais porque as redes sociais, os vazamentos, as delações, os testemunhos, os maiores cuidados investigativos, a marcação cerrada da imprensa e a indignação pública podem alimentar o fogo e incendiar a própria pizzaria. Aguardemos para assistir ao balanço dos danos na pizzaria e também nos pizzaiolos.

Publicado em VEJA de 3 de abril de 2026, edição nº 2989

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