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Quando percebeu que transformavam a sua
teoria em dogma, ele disse: “Não sou keynesiano”
Em um seminário realizado sobre o
livro A Teoria Geral, do Juro, do Emprego e da Renda na Universidade de
Campinas, um dos escribas deste artigo teve contato com a grande economista
inglesa Joan Robinson, de Cambridge.
Conseguiu através dela o contato de Keynes,
que topou fazer uma entrevista por e-mail. Neste artigo, vamos destacar alguns
pontos dessa entrevista histórica, sobre um dos capítulos fundamentais da
Teoria Geral, o capítulo XII – O Estado da Expectativa a Longo Prazo.
Neste capítulo, Keynes nos brinda com a
psicologia, incerteza, estado de confiança, limitação da matemática e
importância da liquidez e o mercado financeiro.
Lorde Keynes, ao sair em 1944, da reunião de Bretton Woods, foi visionário ao declarar: I am not a Keynesian (“Eu não sou um keynesiano”), quando percebeu que os ditos keynesianos estavam transformando sua teoria em dogma, ficando marcado como o economista do estímulo de déficit. Essa banalidade não considera que John Maynard rompeu com as simplificações da ortodoxia.
Nós: Prezado Lorde, hoje vemos o predomínio
da escola de expectativas racionais, onde as expectativas são formalizadas
estatística e matematicamente. O senhor, que é um grande matemático e
estatístico, como vê essa crença de reproduzir dados do passado para prever o
futuro?
Keynes: É, portanto, razoável que nos
deixemos guiar, em grande parte, pelos fatos que merecem a nossa confiança,
mesmo se sua relevância para os resultados esperados for menos decisiva do que
a de outros fatos a respeito dos quais o nosso conhecimento é vago e limitado.
Por essa razão, os fatos atuais desempenham um papel que, em certo sentido,
podemos julgar desproporcional na formação de nossas expectativas a longo
prazo, sendo que o nosso método habitual consiste em considerar a situação atual
e depois projetá-la no futuro, modificando-a apenas na medida em que tenhamos
razões mais ou menos definidas para esperarmos uma mudança.
Keynes: Posso me alongar nessa questão?
Nós: Com certeza!
Keynes: O estado da expectativa a longo
prazo, que serve de base para as nossas decisões, não depende, portanto,
exclusivamente do prognóstico mais provável que possamos formular. Depende,
também, da confiança com a qual fazemos esse prognóstico – na medida em que
ponderamos a probabilidade de o nosso melhor prognóstico revelar-se
inteiramente falso.
A precariedade da base do conhecimento sobre
o qual se calculam as rendas esperadas é extrema
Nós: O que deve ser observado com
profundidade?
Keynes: Nossas conclusões devem
fundamentar-se, principalmente, na observação prática dos mercados e da
psicologia dos negócios.
Nós: Por quê? Mesmo com computadores, banco
de dados?
Keynes: O fato de maior importância é a
extrema precariedade da base do conhecimento sobre o qual temos de fazer os
nossos cálculos das rendas esperadas. O nosso conhecimento dos fatores que
regularão a renda de um investimento alguns anos mais tarde é, em geral, muito
limitado e, com frequência, desprezível. Se falarmos com franqueza, temos de
admitir que as bases do nosso conhecimento para calcular a renda provável
dentro de dez anos de uma estrada de ferro, uma mina de cobre, uma fábrica de
tecidos, a aceitação de um produto farmacêutico, um navio transatlântico ou um
imóvel no centro comercial de Londres pouco significam e, às vezes, a nada
levam.
Nós: Sentimos uma tentativa contemporânea de
parte dos economistas de quererem reinventar a roda. A moda é caracterizar tudo
como financeirização, e na formação binária da corrente majoritária nos cursos
de economia, essa coisa de lado real versus lado monetário. E um total
desconhecimento da importância do mercado financeiro como elemento constituinte
do sistema. Estamos corretos?
Keynes: Mas a Bolsa de Valores reavalia,
todos os dias, os investimentos e essas reavaliações proporcionam a
oportunidade frequente a cada indivíduo (embora isto não ocorra para a
comunidade como um todo) de rever suas aplicações. É como se um agricultor,
tendo examinado seu barômetro após o café da manhã, pudesse decidir retirar seu
capital da atividade agrícola entre as 10 e as 11 da manhã, para reconsiderar
se deveria investi-lo mais tarde, durante a semana.
Nós: Lorde, no seu entendimento, avaliações
diárias a respeito da liquidez podem interferir e mudar as expectativas de
investimento?
Keynes: Todavia, as reavaliações diárias da
Bolsa de Valores, embora se destinem, principalmente, a facilitar a
transferência de investimentos já realizados entre indivíduos, exercem,
inevitavelmente, uma influência decisiva sobre o montante do investimento
corrente. Isso, porque não há sentido em criar uma empresa nova a um custo
maior quando se pode adquirir uma empresa similar existente por um preço menor,
ao passo que há indução a aplicar recursos em um novo projeto que possa parecer
exigir uma soma exorbitante, desde que esse empreendimento possa ser liquidado
na Bolsa de Valores com lucro imediato.
Nós: Lorde, ao longo do capítulo XII, nos
indica que devemos ter humildade para fazer previsão do futuro e que a
incerteza não é exata, como creem muitos economistas?
Keynes: Os resultados reais de um
investimento, no decorrer de vários anos, raras vezes coincidem com as
previsões originais. Também não podemos racionalizar a nossa atitude
argumentando que, para um homem em estado de ignorância, os erros em qualquer
sentido são igualmente prováveis e que, portanto, subsiste uma esperança
estatística baseada em probabilidades iguais. Isso, porque podemos facilmente
demonstrar que a hipótese de probabilidades aritmeticamente iguais, baseada em
um estado de ignorância, conduz a absurdos… O mercado estará sujeito a ondas de
sentimentos otimistas ou pessimistas, que são pouco razoáveis e ainda assim
legítimos na ausência de uma base sólida para cálculos satisfatórios. •
Publicado na edição n° 1402 de CartaCapital, em 04 de março de 2026.

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