sábado, 30 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Classificar PCC e CV como terroristas tem efeito incerto

Por O  Globo

Apesar da medida arbitrária, Brasil terá de lidar com consequências. Será melhor se aprofundar a cooperação

O Departamento de Estado americano anunciou que, a partir de 5 de junho, as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) passarão a ser consideradas organizações terroristas, como os cartéis do narcotráfico e grupos como Al-Qaeda, Estado Islâmico, Hamas ou Hezbollah. Não foi exatamente uma surpresa, o movimento já vinha sendo gestado. No anúncio, porém, os Estados Unidos não apresentaram nenhuma evidência contundente de atuação terrorista dessas facções, cuja atividade criminosa e violenta tem motivação sobretudo financeira, não política, ideológica ou religiosa. Ao contrário dos cartéis mexicanos, os grupos brasileiros nem sequer têm o mercado americano como alvo principal. Apesar da arbitrariedade da medida, o Brasil será obrigado a lidar com as consequências.

Na esfera diplomática, ela expôs os limites da aproximação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. Pelos relatos oficiais, o assunto nem foi tratado na recente visita de Lula a Washington. Na esfera política, o tema será na certa explorado na campanha eleitoral. O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL, esteve com Trump e com o secretário de Estado, Marco Rubio, às vésperas do anúncio e afirmou ter pedido a ambos a classificação de PCC e CV como terroristas. O Planalto reagiu em nota, rejeitando qualquer “interferência” externa e afirmando que “a soberania nacional é inegociável”. “A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores”, diz o texto. “É deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço.”

Para além da exploração política de ambos os lados, a classificação terá consequências práticas. Especulações sobre intervenção militar americana, nos moldes da captura de Nicolás Maduro na Venezuela, não passam de alarmismo. Mais razoável é a preocupação com a cooperação entre autoridades brasileiras e americanas no combate ao crime organizado. Hoje a troca se dá com representantes do FBI, a polícia federal americana, e da DEA, a agência antidrogas. Com a entrada em cena das Forças Armadas e da CIA, existe o receio de que perca agilidade. “Precisamos entender qual será a extensão, na prática, da aplicação da classificação”, diz o promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo.

É pouco provável que os americanos engessem o fluxo de informações, pois passarão a prestar mais atenção ao Brasil. Empresas, em especial as financeiras, terão de aumentar o escrutínio de suas operações para evitar conexões, mesmo indiretas, com PCC e CV. “O custo do compliance aumenta, principalmente para bancos”, diz o cientista político Leandro Piquet Carneiro, da USP. “Isso pode ter um efeito sistêmico positivo.” O risco para quem for pego não se resumirá a sanções financeiras. Existe a possibilidade de condenação por crime federal nos Estados Unidos, e isso aumenta o poder de dissuasão. Mas os temores de abuso não são infundados. Basta lembrar que Trump tem sido pródigo no uso do Estado para perseguir adversários. Para o governo brasileiro, a melhor estratégia a adotar é aproveitar a medida para reforçar a cooperação com autoridades americanas no enfrentamento do crime organizado. A pior é brandir slogans num embate eleitoral estéril.

Aportes contínuos do Rioprevidência no Master expõem falha de fiscalização

Por O Globo

Não faltaram avisos para os riscos. Ainda assim, 18 fundos de servidores aplicaram nos engodos de Vorcaro

Há ao menos 17 casos semelhantes ao do fundo de aposentadoria dos funcionários do estado do Rio de Janeiro, o Rioprevidência, que enterrou bilhões em papéis duvidosos do Banco Master, depois transformados em pó. Mais que um escândalo de corrupção, o episódio expõe a gestão financeira temerária dos administradores desses fundos, resultado de deficiência na vigilância do sistema de Previdência dos servidores públicos.

A última estimativa é que apenas o Rioprevidência aplicou R$ 3,69 bilhões em títulos ou fundos do Master, numa cronologia cujo passo, como revelou reportagem do GLOBO, era sincronizado com os encontros entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ex-governador Cláudio Castro. Entre os fundos que investiram no Master, destacam-se também R$ 400 milhões dos servidores do Amapá, R$ 50 milhões dos funcionários do Amazonas, além de vários fundos municipais — da prefeitura de Maceió (AL), com R$ 97 milhões, à de Campo Grande (MS), com R$ 1,2 milhão. Dos 2.130 Regimes Próprios de Previdência (RPPS) do funcionalismo público, 18 foram atraídos pelo engodo do Master. Os demais agiram de acordo com a informação corrente no mercado financeiro: a situação do banco inspirava cautela.

Não faltaram sinais de que as aplicações do Rioprevidência e dos demais fundos não obedeciam a padrões mínimos de gestão de riscos. O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) alertou sobre a elevada concentração de investimentos do fundo no Master e pediu que não houvesse novas aplicações. Não adiantou. O sistema de controles e vigilância não agiu com o rigor necessário para evitar prejuízos — que, pela legislação, acabarão cobertos com dinheiro do contribuinte. Por que ninguém agiu a tempo? Era preciso mais que um aviso.

O sistema de controle é hoje formado por um departamento do Ministério da Previdência, conselhos e comitês deliberativo, fiscal e de investimentos dos fundos. Mediante alertas como o do TCE-RJ, eles deveriam ter o poder de impedir operações, acionar auditorias e investigações para a instauração, se cabível, até de processo penal. A experiência mostra que a gestão de recursos nas proximidades do mundo político requer salvaguardas especiais.

Não é a primeira vez que fundos previdenciários do setor público envolvem dinheiro de seus cotistas em negócios temerários. A Operação Lava-Jato desvendou como agentes políticos mobilizaram fundos de pensão de várias estatais para investir em projetos de retorno incerto, por mero interesse político de favorecer grupos empresariais aliados. O enredo era o mesmo do encenado agora por Vorcaro.

Para evitar que casos assim se repitam, é fundamental apertar a regulação desses fundos e sua governança. Investigações e punições precisam ocorrer em velocidade compatível com os negócios do sistema financeiro. Quando está em jogo a poupança de aposentados e pensionistas, seja do setor público, seja do privado, a vigilância precisa ser maior, as sanções precisam ser rigorosas — e funcionar.

Combate a facções não deveria ter ideologia

Por Folha de S. Paulo

Direita e esquerda repercutem com viés eleitoral decisão de Trump de considerar PCC e CV terroristas

Americano precisa saber que lida com uma democracia, não uma ditadura como a da Venezuela; Operação Carbono Oculto foi passo importante

Nos dois polos do espectro político veem-se reações inflamadas à decisão do governo de Donald Trump de classificar como terroristas as principais facções do crime organizado no Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). O jogo eleitoral explica grande parte dos discursos hiperbólicos.

Para a direita adepta dessa e de outras bandeiras belicosas e populistas na segurança pública, trata-se do início de uma guerra implacável contra o narcotráfico —e, não menos importante, de uma medida associada ao encontro entre Trump e Flávio Bolsonaro (PL) na antevéspera.

Para a esquerda liderada pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), trata-se de ameaça à soberania e traição aos interesses pátrios maquinada pela família Bolsonaro —que, também nessa versão, acaba levando os créditos pela ofensiva trumpista.

Ela não vem de hoje, muito menos se limita ao Brasil. Do ano passado para cá, a Casa Branca já classificou como terroristas organizações criminosas do México e da Venezuela, entre outras com atuação nas Américas Central e do Sul. O intento de estender tal designação ao PCC e ao CV era conhecido havia meses e fazia parte das preocupações diplomáticas do governo Lula.

A estratégia americana se ampara em um erro conceitual. Pelos critérios mais aceitos do regramento internacional, o terrorismo se caracteriza, principalmente, por objetivos políticos e ideológicos —e, por mais que o PCC e o CV imponham seu jugo cruel sobre comunidades e se infiltrem na economia e no Estado, seu objetivo é assegurar os lucros do crime, não derrubar governos.

As consequências vão além da teoria, ao abrir caminho para intervenções armadas fora do território dos Estados Unidos, facilitar deportações e criar riscos de sanções contra pessoas, empresas e bancos pelos quais passe dinheiro das facções.

Idealmente, uma colaboração bem-vinda deveria se dar na forma de recursos, treinamento e inteligência, dado que o crime organizado é, sim, um fenômeno transnacional. No plano doméstico, demos passos importantes com a Operação Carbono Oculto, em agosto do ano passado, e sua nova fase, a Fluxo Oculto, deflagrada nesta semana.

Ambas se basearam na cooperação institucional entre órgãos federais e paulistas contra o aparato financeiro utilizado pelo PCC. Sem ações espetaculosas nem disputas políticas, é possível e imperativo fechar brechas por onde o crime se infiltra na economia legal e perpetua seus ganhos.

Não há, até aqui, mais do que especulação em torno dos impactos da medida de Trump, inclusive os meramente eleitorais. Mesmo o imprevisível e destrutivo presidente americano há de saber, de todo modo, que perante a comunidade internacional estará lidando com uma das maiores democracias do mundo, não com uma ditadura falida como a que atacou na Venezuela.

Males crônicos não cairão tão cedo

Por Folha de S. Paulo

Estudo projeta que o Brasil não atingirá algumas metas relativas a fatores de risco dessas doenças

As enfermidades crônicas impactam continuamente os gastos de um sistema público de saúde pressionado pelo envelhecimento populacional

Doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), como diabetes, hipertensão, obesidade e câncer, são responsáveis por mais de 50% dos óbitos por ano no país, sendo que, destes, 40% são considerados prematuros (na faixa etária entre 30 e 69 anos).

Além de causar mortes e perda da qualidade de vida, essas enfermidades exigem assistência e tratamentos contínuos, impactando os gastos do SUS, que está cada vez mais pressionado pelo envelhecimento populacional.

Mas a incidência das DCNT vem crescendo, não só no Brasil. Segundo o relatório Global Burden of Disease 2023, publicado em 2025, o número de anos de vida saudável perdidos em todo o mundo devido a incapacitação ou morte por causa dessas doenças passou de 1,4 bilhão para 1,8 bilhão, entre 2010 e 2023.

Aqui, a taxa de obesidade em adultos subiu 118% entre 2006, início da série do Ministério da Saúde, e 2024, chegando a 25,7%. Quanto à hipertensão, os atendimentos relacionados à doença no sistema público quase triplicaram entre 2022 e 2025, passando de 916,7 mil para 2,6 milhões.

Em 2021, o governo federal lançou um plano para enfrentar as DCNT, com metas alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU que devem ser alcançadas até 2030.

Uma pesquisa da Unifesp, contudo, projeta que algumas das metas relativas aos fatores de risco das enfermidades provavelmente não serão alcançadas.

Para a obesidade, que é tanto uma doença quanto fator de risco para hipertensão, diabetes e câncer, o objetivo era manter a taxa de 2019 (20,3%), mas estima-se que ela chegará a 28,3% em 2030.

A queda na prevalência do consumo excessivo de álcool, de quase 20% em 2019 para 16,9%, não deverá ocorrer, com projeção de 21,3% em 2030. O estudo também projeta que as metas de aumento do consumo de frutas e verduras e da prática de atividades físicas não serão alcançadas.

Apenas tabagismo e consumo de bebidas açucaradas têm estimativas de queda a níveis até menores do que os almejados.

Políticas públicas nas três esferas de governo precisam focar em campanhas educativas e no fortalecimento da atenção básica em saúde, com buscas ativas para realizar diagnósticos e monitoramento contínuo. Protocolos que auxiliem a manutenção do uso de medicamentos, já que muitos pacientes abandonam o tratamento, também são cruciais.

Além de salvar vidas, os gastos gerados por tais políticas são capazes de reduzir despesas futuras ainda maiores no SUS.

Cabe ao Brasil combater seus criminosos

Por O Estado de S. Paulo

EUA têm o direito de classificar PCC e CV como terroristas, mas isso não muda o fato de que o combate a essas organizações mafiosas em território nacional é tarefa dos brasileiros

A decisão do governo dos EUA de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas foi imediatamente capturada pela disputa política doméstica, como era previsível às vésperas da campanha eleitoral. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que defendeu a medida em recente visita à Casa Branca, celebrou o anúncio feito pelo Departamento de Estado americano. “Grande dia”, escreveu o parlamentar numa mídia social. Em nota, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu chamando de “deplorável” a articulação bolsonarista e afirmando que “a soberania nacional é inegociável”.

Em meio aos ruídos típicos das lides políticas, convém serenar os ânimos e lançar luz sobre a realidade objetiva. Designar o PCC e o CV como organizações terroristas, lamentamos dizer, não será a bala de prata que mudará a vida dos milhões de brasileiros que dormem e acordam diariamente sob o jugo dos facínoras. Por outro lado, não se pode ignorar que as facções, além das milícias, representam uma afronta ao Estado detentor do monopólio da violência e que, portanto, devem ser enfrentadas com tudo o que estiver ao alcance das autoridades, dentro da lei. Até aqui, o crime organizado tem ganhado a guerra e expandido seu domínio, enquanto valentes agentes da lei tentam combatê-lo sem ter os instrumentos adequados para isso. Não é à toa que a sociedade se sente desamparada – e pronta a aceitar qualquer medida de força contra essas máfias.

O crime organizado avançou sobre territórios, extrapolou fronteiras e se imiscuiu em instituições e mercados legais com uma desenvoltura que expôs a fragilidade do Estado de forma constrangedora. Há décadas, o PCC e o CV deixaram de ser bandos locais voltados ao tráfico de drogas para se tornarem estruturas criminosas altamente complexas. Seu poder para impor medo à população de cidades como Rio, São Paulo e muitas capitais do Norte e do Nordeste do País é real. Tudo o que for feito para fortalecer o Estado no combate a essas verdadeiras máfias terá o apoio deste jornal.

Dito isso, os EUA têm o direito soberano de classificar como “terroristas” os grupos que bem entenderem, de acordo com suas leis e seus interesses estratégicos. Isso não significa, contudo, que o Brasil deva fazer o mesmo. A despeito de suas lacunas, a Lei Antiterrorismo fixa parâmetros claros para a caracterização do terrorismo, nos quais não se enquadram nem o PCC nem o CV. Essas facções criminosas, entre outras, até podem praticar atos de violência indiscriminada e dominar territórios, mas seus objetivos são primordialmente econômicos.

Mas a confusão conceitual não diminui a gravidade da ameaça que as facções representam. E é justamente por isso que a resposta institucional à decisão dos EUA impõe prudência. O País não está prestes a ver fuzileiros navais americanos desembarcando na Baía de Guanabara, tampouco ver-se-á livre das organizações criminosas por meio de uma canetada do presidente americano Donald Trump. Se estiver genuinamente preocupado em resguardar os interesses nacionais, Lula deve ter a serenidade de combinar a defesa da soberania brasileira com o estreitamento das relações com Trump de modo a construir um ambiente de cooperação entre Brasil e EUA que, de fato, fortaleça o enfrentamento ao crime organizado, um mal comum.

Cabe apenas ao Brasil combater seus criminosos, mas sem bravatas, e sim com inteligência policial, integração entre as forças de segurança, controle de fronteiras, asfixia financeira das facções e cooperação internacional permanente.

Nenhuma decisão tomada desde Washington substituirá a responsabilidade do Estado brasileiro de enfrentar os criminosos que aqui nasceram, cresceram e consolidaram seu poder marginal. Nenhuma intervenção estrangeira devolverá a tranquilidade às famílias que vivem sob a ameaça cotidiana às suas liberdades mais comezinhas. E, finalmente, nenhum bate-boca eleitoreiro sobre soberania nacional e leniência com o crime tirará o sono dos chefões mafiosos que ameaçam o Brasil.

As lições do caos boliviano

Por O Estado de S. Paulo

La Paz simboliza uma AL presa entre as ilusões do populismo e a dor de superá-las, expondo o dilema da direita: corrigir economias exauridas sem incendiar democracias fatigadas

La Paz está sitiada. Há estradas bloqueadas, caminhões parados, combustível escasso e dinamite nas manifestações. Um jovem morreu. O presidente Rodrigo Paz, eleito há sete meses prometendo estabilizar a economia após duas décadas de hegemonia do Movimento ao Socialismo (MAS), remonta seu gabinete para evitar o colapso de seu governo. Evo Morales, escondido nos trópicos cocaleiros e acuado por acusações criminais, reaparece nas sombras da crise, mobilizando a militância de rua que ajudou o MAS a conquistar o poder.

A cena boliviana expõe em carne viva um dilema que atravessa a América Latina. Governos de direita vêm chegando ao poder embalados pelo desgaste da esquerda populista, pela estagnação econômica, pela insegurança e pelo cansaço com Estados caros e ineficientes. Mas a vitória eleitoral não dissolve automaticamente o modelo que os eleitores punem nas urnas. Ele sobrevive em sindicatos, corporações, expectativas sociais e, sobretudo, na baixa tolerância à dor do ajuste.

A Bolívia é um exemplo dramático porque o colapso da economia socialista já não podia ser disfarçado. Depois de anos de déficits elevados, reservas dilapidadas e subsídios improdutivos, o país entrou em escassez de dólares, inflação e desabastecimento. Os eleitores disseram “No MAS!”. Paz venceu prometendo liberalizar a economia sem desmontar a proteção social. Parecia uma fórmula prudente. Descobriu logo que prudência fiscal e prudência política nem sempre caminham juntas.

A eliminação dos subsídios aos combustíveis detonou uma reação em cadeia. A reforma agrária anunciada pelo governo enfureceu movimentos indígenas e sindicatos camponeses. Paz acabou revogando a medida, trocou ministros e anunciou pacotes emergenciais, como cortes de salários do Executivo. Ainda assim, a agitação continua.

Há ecos por toda a região. Javier Milei reduziu drasticamente a inflação argentina e reequilibrou as contas públicas, mas a política cobra o intervalo doloroso entre estabilização macroeconômica e melhora da vida cotidiana. No Chile, José Antonio Kast cresceu sobre a fadiga produzida pelos anos Boric, pela insegurança e pelo fracasso do maximalismo constitucional progressista. No Peru, presidentes caem em série num sistema político incapaz de produzir legitimidade duradoura. No Brasil, o retorno do lulopetismo reflete, entre outras coisas, a dificuldade de sustentar disciplina fiscal em sociedades acostumadas à expansão contínua do Estado – e seu desgaste, a impossibilidade de sustentar essa expansão.

Apesar da onda à direita, o eleitor latino-americano parece menos movido por fidelidade doutrinária do que por frustração acumulada. Derruba governos porque crescimento, segurança e serviços públicos continuam decepcionando. Depois se frustra novamente com quem prometeu consertar o que recebeu. Os ciclos políticos encurtaram. A impaciência aumentou. As ruas frequentemente cobram resultados em velocidade incompatível com reformas estruturais.

A nova direita chegou ao poder com propostas diversas: Milei é libertário na economia e populista no estilo; Kast é conservador e mais institucional; Bukele é securitário e iliberal; Bolsonaro é moralista, personalista e pouco liberal na economia. Em comum, todos cresceram em sociedades cansadas de inflação, criminalidade, corrupção e paralisia estatal.

A crise boliviana mostra como esse cansaço pode conviver com dependências políticas profundas. Décadas de subsídios, benefícios corporativos e expansão estatal calcificaram relações difíceis de desmontar democraticamente. A conta chega sob a forma de inflação, escassez ou dívida, mas isso não torna automaticamente aceitável o custo social do tratamento. Ajustes rápidos demais podem incendiar países já frágeis. Ajustes tímidos demais prolongam a agonia.

La Paz convulsionada simboliza uma região presa entre dois impulsos igualmente desgastados: a política da anestesia permanente e a política do choque sem lastro social. Em algum ponto entre esses extremos, as democracias latino-americanas precisarão encontrar condições para sustentar reformas duras e duradouras sem destruir a legitimidade necessária para realizá-las.

Novo retrocesso ambiental

Por O Estado de S. Paulo

Câmara avança com projetos que podem custar caro ao pujante agronegócio brasileiro

A Câmara aprovou projetos que relaxam a proteção ambiental no País, o que, em vez de beneficiar o agronegócio, pode, se formalizado pelo Senado, prejudicar o setor, cujas práticas são cada vez mais monitoradas com rigor por nações que importam do Brasil.

Além de alterações que na prática esvaziam a autoridade de órgãos ambientais, como a que exige que a declaração de espécies sob risco de extinção receba aval dos Ministérios da Pesca ou da Agricultura, os deputados também aprovaram projeto que proíbe a aplicação de multas em áreas desmatadas caso a devastação seja registrada “apenas” por satélite, porque isso reduziria o direito de defesa dos proprietários.

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva observou, com razão, que “justiça é usar a tecnologia”. Segundo ela, o que está sendo proposto equivale a exigir que uma violação de trânsito flagrada por radar só seja reconhecida como tal se “for feita no corpo a corpo entre o policial rodoviário e o infrator”.

O uso da tecnologia é um aliado do País, especialmente em áreas distantes e de difícil acesso, como a Amazônia. Aos proprietários rurais já é assegurado recorrer dos chamados embargos remotos, por meio de defesa prévia ou recurso administrativo.

Prescindir do uso da tecnologia, ou referendá-la somente se vier em conjunto com fiscalizações in loco, não somente aumenta os custos como reduz a eficiência fiscalizatória.

Graças à competência do agronegócio brasileiro, a produção nacional conquistou mercados globais, ganhando cada vez mais relevância no Produto Interno Bruto (PIB) do País. Ao mesmo tempo, compradores externos, como o mercado europeu, fiscalizam cada vez mais tudo o que importam do Brasil com lupa.

Em um cenário cada vez mais competitivo internacionalmente, a flexibilização de regras ambientais que, de modo geral, são aliadas dos exportadores do País pode ser facilmente instrumentalizada por nações que sofrem pressões de produtores menos eficientes que os brasileiros para não importar do Brasil.

Não custa lembrar que a aprovação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia levou mais de 20 anos para se materializar em parte porque produtores europeus, que não conseguem competir com os daqui, acusam países como Brasil de degradar o ambiente para produzir.

É verdade que o acordo entrou em vigor, mas de forma provisória. Imersos em seus inúmeros problemas internos, e inundados por produtos chineses, os europeus não desperdiçarão oportunidades de torpedear o acordo com o Mercosul, o que dificulta a possibilidade de que o que hoje é provisório converta-se em permanente.

Há poucos dias, o Brasil recebeu a ótima notícia de que o desmatamento na Mata Atlântica, bioma mais devastado do País, caiu ao menor patamar histórico, o que só comprova que preservação e pujança agrícola são compatíveis, e não excludentes. O resultado positivo na Mata Atlântica é reflexo da incorporação de diversas ferramentas tecnológicas de monitoramento ao longo dos anos.

O Brasil pode e já sabe como fazer melhor. Transformar a tecnologia em inimiga, como fizeram os deputados, não traz benefício algum ao País.

Maturidade institucional no caso BRB

Por Correio Braziliense

A solução para o BRB partiu de um concerto institucional em torno da crise que há meses vinha sangrando o banco. Chegou-se a uma solução, preservando a União de possíveis embaraços no processo de recuperação do banco

Envolvido no maior escândalo financeiro ocorrido no país, o Banco de Brasília, enfim, começa a ver uma luz no túnel. O acordo firmado na última quinta-feira entre o Governo do Distrito Federal (GDF) e a União permitiu à instituição brasiliense adquirir um empréstimo de R$ 6,5 bilhões do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Nas palavras dos envolvidos na negociação, o socorro ao BRB foi estabelecido a partir de uma engenharia financeira relevante, que silenciou boa parte dos profetas do apocalipse que previam a derrocada do banco.

Com o acordo, a nova gestão do BRB prossegue com o trabalho de adotar medidas de governança a fim de solidificar a credibilidade do banco junto aos seus clientes e ao mercado financeiro. Não interessa aos brasilienses, nem aos órgãos reguladores nem ao mercado ver uma instituição que há décadas atua em favor do Distrito Federal e, infelizmente, foi sequestrada pela ação deliberada de criminosos. 

A solução para o BRB partiu de um concerto institucional em torno da crise que há meses vinha sangrando o banco. Foi fundamental a postura colaborativa adotada pelo governo federal. Na perspectiva do Palácio do Planalto e da equipe econômica, havia riscos e impedimentos concretos para a União ser avalista de uma operação de socorro ao BRB. Não haveria sentido comprometer recursos provenientes dos contribuintes para reparar malfeitos produzidos por uma organização criminosa. Apesar dessa restrição, ministros do governo Lula contribuíram na busca de uma solução. E chegou-se a uma solução, preservando a União de possíveis embaraços no processo de recuperação do BRB. 

É importante salientar, ainda, a participação do Judiciário no entendimento institucional construído. Ao conduzir com sucesso duas audiências de conciliação, o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), deu legitimidade ao diálogo federativo. Ao coordenar o processo, tranquilizou os atores envolvidos nas negociações, bem como os clientes que depositaram suas economias no BRB, ou os brasilienses que têm uma genuína preocupação com o futuro do Distrito Federal. 

Por fim, deve-se dar um crédito à governadora do Distrito Federal, Celina Leão, pelo novo momento do BRB. Independentemente do posicionamento político da atual titular do Palácio do Buriti, a gestora se dispôs a enfrentar as mais variadas críticas. Procurou agir com transparência, anunciando todos os passos que seriam tomados para sanar a crise financeira do banco. É provável que essas atitudes sejam insuficientes para evitar novas críticas na campanha eleitoral. Mas é do jogo político. 

O ponto central é o passo que foi dado para a recuperação de uma instituição brasiliense que acumulou ao longo de décadas uma reputação na capital federal. Ideologias são importantes e têm lugar na sociedade, mas o interesse público deve prevalecer. Não é justo punir os trabalhadores do BRB e os clientes do banco por malfeitos de seus antigos gestores. Esses, em algum momento, prestarão contas à Justiça.

Um ataque à soberania brasileira

Por O Povo (CE)

A prática dos Estados Unidos de intervir na política interna de outros países, impondo uma legislação extraterritorial, não é novidade, atingindo diversos países da América Latina. O alvo agora, depois da Lei Magnitsky, é novamente o Brasil, com os EUA classificando como "grupos terroristas" as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC).

Tampouco é algo novo o apoio da família Bolsonaro a medidas implementadas pelos Estados Unidos, mesmo aquelas extremamente prejudiciais ao Brasil, como no caso do "tarifaço". Os bolsonaristas comemoraram a medida, demonstrando uma subserviência inaudita aos americanos, defendendo uma decisão que contrariou frontalmente os interesses do País, inclusive prejudicando empresas e o agronegócio brasileiros.

A decisão de classificar as facções como organizações terroristas aconteceu logo após a visita do pré-candidato a presidente da República, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a Washington, quando foi recebido pelo presidente Donald Trump e, em seguida, pelo vice-presidente JD Vance e pelo secretário de Estado, Marco Rubio. O contexto, portanto, indica que a decisão foi tomada sob a influência direta do senador.

Para nomear organizações de "terroristas", o Brasil segue a classificação da Organização das Nações Unidas (ONU), que não enquadra o PCC e o CV nessa categoria. Além do mais, o crime organizado no Brasil não tem filiação ideológica, sendo o lucro seu único objetivo, diferentemente dos grupos terroristas que se movem por interesses políticos.

Aceitar que os Estados Unidos deem essa classificação às facções criminosas é abrir a porta para que a Casa Branca intervenha diretamente no Brasil. Isso pode resultar em punições comerciais e financeiras, medidas que vão desde o congelamento de ativos até operações militares em solo brasileiro, o que pode soar improvável, porém não impossível. Além disso, declarar as facções como organizações terroristas não resolve o problema da violência, como se observa com a experiência de outros países onde isso aconteceu.

O que se pode dizer é que a decisão americana soa como apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro, oferecendo-lhe a "narrativa" de um postulante disposto a enfrentar a criminalidade, que assusta a população. No entanto, fora da bolha bolsonarista, a atitude dos EUA recebe críticas de analistas das mais diversas tendências. Portanto, o que parece positivo, pode tornar-se negativo para o pré-candidato.

De qualquer modo, criou-se uma situação grave, que pode afetar a relação entre o Brasil e os Estados Unidos. Uma dura nota foi emitida pelo Palácio do Planalto, destacando a soberania brasileira. O presidente Lula fez um inflamado discurso no mesmo sentido.

Nessa circunstância é hora de a diplomacia brasileira entrar em campo, com sua reconhecida competência, buscando preservar, com respeito mútuo, a relação amistosa com os Estados Unidos, que já dura mais de 200 anos.

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