Por Sofia Aguiar e Caetano Tonet / Valor Econômico
Estratégia é diferente da adotada pelo PL,
que tem anunciado acordos nos Estados
Enquanto o senador e pré-candidato à
Presidência da República, Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), anuncia os palanques na disputa
eleitoral deste ano, a estratégia adotada pelo PT e pelo governo do presidente
Luiz Inácio Lula da
Silva é esperar para divulgar os nomes para os quais fará campanha depois de
fechado o maior número de alianças nos Estados.
A avaliação de fontes da legenda é de que Lula busca negociar o apoio ou a neutralidade dos grandes partidos “no atacado”, e não “no varejo”. Para isso, a estratégia é colocar o presidente do PT, Edinho Silva, para percorrer o país dialogando com as legendas, mas com as decisões ficando sempre na caneta do atual chefe do Executivo.
A avaliação interna é que Lula precisa ter
segurança quanto às indicações e à consolidação dos palanques antes de qualquer
anúncio. Por isso, o processo não deve ser acelerado, mesmo com Flávio tornando
públicos seus apoios. A expectativa é que o desenho geral com a chancela
petista seja fechado entre o fim de abril e o começo de maio.
Segundo fontes, a definição do presidente
precisa ser amplamente alinhada, de modo a evitar brechas para críticas de
aliados ou episódios de fogo-amigo. A estratégia é blindar a montagem das
chapas para preservar inclusive a imagem de Lula, que tentará reeleição.
Aliados do chefe do Executivo minimizam o
documento divulgado na semana passada com os cotados por Flávio no cenário de
aliança nos Estados. As fontes avaliam que alguns dos nomes que estão nos
papéis do senador não estarão no palanque de Lula, como a governadora de
Pernambuco, Raquel
Lyra (PSD). Ela deve concorrer contra o prefeito de Recife, João Campos (PSB).
Outro motivo para Lula não ter pressa é a
federação formada por União Brasil e Progressistas. Os partidos têm como
objetivo aumentar suas bancadas no Congresso e, para isso, não podem ficar
fechados contra Lula, principalmente no Nordeste. Dessa maneira, o PT articula
individualmente cada Estado, o que acaba adiando a conclusão o processo de
construção das chapas.
“Lula está tentando trabalhar com presidentes
de partidos, no âmbito nacional, alianças e neutralidades numa tentativa de obter
um efeito cascata para chegar aos Estados”, afirmou uma fonte do PT.
Apesar da cautela adotada, interlocutores da
sigla reconhecem que o impasse em Estados estratégicos está travando o
processo. Um dos exemplos é o maior colégio eleitoral do país, São Paulo. Nos
últimos meses, Lula negocia para que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, saia como
candidato ao Palácio dos Bandeirantes. No cenário, tido como “ideal” pelos
petistas, as ministras Marina
Silva (Rede) e Simone
Tebet (MDB) seriam as candidatas ao Senado. Marina negocia voltar ao PT para concorrer e Simone poderá se
filiar ao PSB.
O presidente também acompanha de perto,
segundo aliados, a tentativa do PL de emplacar André do Prado, presidente da
Assembleia Legislativa de São Paulo, como vice do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP),
que tentará a reeleição. A aposta é que, se confirmado o movimento, a saída do
atual vice-governador, Felício
Ramuth (PSD), abra as portas para a legenda comandada
por Gilberto Kassab não
entrar de cabeça na campanha de reeleição do governador paulista e,
consequentemente, não trabalhar para Flávio no Estado.
Em Minas Gerais, apesar de as negociações com
o senador Rodrigo
Pacheco (PSD-MG) estarem avançadas para que ele saia como
nome ao governo apoiado por Lula, petistas dizem que ainda falta uma
confirmação pública do parlamentar para caminhar com as indicações para os
demais postos. Isso porque, segundo interlocutores, bater o martelo em torno do
candidato à gestão mineira é peça fundamental para destravar tanto a escolha do
vice quanto do Senado.
Coordenador da campanha de Flávio, o senador Rogério Marinho (PL),
líder da oposição no Senado, afirmou ao Valor que a ideia é acelerar o processo de
escolha dos palanques estaduais. “Onde não for possível, vamos aguardar.
Existem várias ações que precisam ser implementadas e que naturalmente vão
ficar muito mais fáceis se a gente for definindo os palanques estaduais”,
disse.
Para ele, eventuais dificuldades de
composição, como no caso de Santa Catarina, onde a chapa para reeleição do
governador Jorginho Mello (PL)
terá Carol de Toni e
Carlos Bolsonaro ao Senado, todos do PL, excluindo o senador Esperidião Amin (PP), se
justificam pelo crescimento da legenda. “Se nós fôssemos um partido como o PT,
que só tem a cabeça e não tem corpo, não teríamos essa dificuldade. Teríamos a
possibilidade de fazer uma negociação bem mais confortável em cada Estado da
federação”, comentou.
Marinho vê com naturalidade que partidos,
como o União Brasil e o PP, acomodem seus apoios nos Estados ao lado tanto de
Flávio quanto de Lula, a depender da circunstância local.
“Isso cai para os dois lados e é
absolutamente normal. Na hora em que as definições acontecerem, você só precisa
fazer uma conta de somar e acertar mais do que errar. O Flávio tem sido muito
aberto nesse processo de composição”, declarou.
Sobre a questão da disputa pela vice de
Tarcísio poder afastar eventualmente o PSD de Flávio, Marinho argumenta que a
legenda de Kassab tem candidatura à Presidência e, por isso, eventuais costuras
ficam para o segundo turno. “A circunstância da campanha é quem vai dizer como
os partidos vão se comportar”, disse.

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