quinta-feira, 9 de abril de 2026

Trégua não elimina crise econômica, por Míriam Leitão

O Globo

Mesmo com a trégua anunciada por Trump, a persistência do conflito indica que o desfecho no Oriente Médio continua incerto

A economia mundial continuará atravessando um tempo de extrema incerteza, apesar da trégua anunciada por Donald Trump e da esperança trazida pelas negociações. As hostilidades continuaram ontem, o dano estrutural à infraestrutura reduz a capacidade de produção e oferta de petróleo, a operação para restabelecer a normalidade no Estreito de Ormuz será lenta. A ofensiva impôs ao Irã a morte da maioria dos seus principais líderes, mas mostrou que o país tem o controle da arma que sempre ameaçou usar contra os seus inimigos: o fechamento do Estreito de Ormuz. O Irã bloqueou a logística do petróleo e agora saiu da teoria para a prática, criando um prejuízo considerável para a economia internacional.

Mesmo que se consiga reabrir de forma duradoura o Estreito de Ormuz, não será possível resolver todos os problemas econômicos causados pelo choque de petróleo imposto pelo conflito dos Estados Unidos e Israel contra o Irã. Primeiro, porque recompor o fluxo será uma operação complexa, há muito represamento de navios na área e o temor de grandes companhias de transporte de passar pela região antes que tudo esteja realmente resolvido. Segundo, porque, mesmo que todos esses obstáculos sejam ultrapassados, haverá outro entrave a superar: os danos causados pelos bombardeios de lado a lado sobre a infraestrutura de produção, refino e escoamento dos produtos do Oriente Médio.

De acordo com o jornal The New York Times “dezenas de refinarias, sistemas de estocagem, campos de petróleo e gás em ao menos nove países, do Irã aos Emirados Árabes Unidos, foram alvos de ataques”. O jornal informa que 10% ou mais do suprimento global de petróleo foram bloqueados. Restabelecer a normalidade da produção e escoamento pode levar tempo. E tudo o que se sabe até agora é que a guerra foi apenas suspensa por duas semanas. Os sinais, porém, são ainda contraditórios como mostraram as primeiras horas do cessar-fogo, com bombardeios contra o Kuwait e o Irã.

A ofensiva militar foi até agora um desastre para os Estados Unidos que demonstraram não serem um aliado confiável nem para os países da Europa — isso Trump já havia dito de forma explícita em outras ocasiões — nem para os países do Golfo. Todo o poderio americano não foi capaz de protegê-los contra os ataques iranianos. O Irã surpreendeu por sua reação, resistência e capacidade de afetar a economia do mundo. Todos os países, inclusive o Brasil, estão sentindo os efeitos colaterais em suas economias. Donald Trump internamente está colhendo o resultado de um confronto impopular, uma quebra da promessa de campanha de que não faria novas guerras, como preço dos combustíveis subindo na cara do consumidor. Os eleitores devem cobrar isso nas eleições de meio de mandato.

Fica provado, mais uma vez, que o petróleo, além de ser o grande emissor de gases de efeito estufa, tem outros problemas insolúveis como fonte de energia. A dependência em relação ao produto do Oriente Médio caiu muito nos últimos anos, com o aumento da produção em inúmeros países como os próprios Estados Unidos. O Brasil virou um grande produtor também. Mesmo assim, o atual choque do petróleo decorrente da guerra e do fechamento de Ormuz produziu uma disparada na cotação internacional e escassez de inúmeras matérias-primas derivadas do petróleo.

O mapa do caminho para o fim do uso dos combustíveis fósseis, o sonho frustrado da COP30 de Belém, tornou-se ainda mais necessário e urgente. Nunca haverá um momento em que os produtores de petróleo do Oriente Médio serão fornecedores confiáveis. Mas o mais relevante é que as emissões provenientes do petróleo são a principal ameaça à vida humana no planeta. O mundo precisa ainda mais das fontes alternativas de energia para garantir a estabilidade econômica do tempo presente e a sustentabilidade da vida futura.

A guerra expôs também a profunda crise de valores que o mundo vive. Quando Donald Trump fez a ameaça de extermínio do Irã — “toda uma civilização vai morrer esta noite e não voltará jamais” — deixou de ser um terrível conflito regional para ser algo muito mais repulsivo. A ameaça explícita de extermínio contra um povo, uma nação, é o que nós vimos nos piores momentos da história da humanidade. É, como disse o papa Leão XIV, “inaceitável”.

 

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