Correio Braziliense
Entre 2023 e 2025, também
foram identificados cerca de R$ 65 milhões repassados pelo banqueiro Daniel
Vorcaro a escritórios e empresas ligados a políticos importantes do país
As novas revelações envolvendo o Banco Master
e seu controlador, Daniel Vorcaro, complicaram ainda mais a posição
institucional do ministro Alexandre de Moraes no julgamento de um dos maiores
escândalos financeiros recentes do país. Objetivos, volumosos e politicamente
sensíveis, os fatos são teimosos e transcendem a esfera pessoal. O que está em
jogo é a credibilidade do Supremo Tribunal Federal (STF).
Documentos fiscais enviados à CPI do Crime Organizado revelam que o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, recebeu R$ 80.223.653,84 do Banco Master entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025. Trata-se de uma média mensal de aproximadamente R$ 3,6 milhões, em 22 pagamentos praticamente idênticos, formalmente declarados à Receita Federal pelo próprio banco.
Como são recursos contabilizados, não houve
informalidade, ou seja, caixa dois, mas isso não resolve o problema
político-institucional. A prestação de serviços advocatícios é atividade
lícita, mas o contrato do escritório Barci de Moraes constrange o ministro do
STF. As investigações sobre as fraudes do Banco Master, devido aos
desdobramentos diretos sobre o Supremo, já provocaram o afastamento do ministro
Dias Toffoli (declarou-se impedido) da relatoria do caso, no qual foi
substituído pelo ministro André Mendonça.
Outros fatos também geram constrangimentos e
reforçam a percepção de proximidade entre o núcleo decisório do banco e o
entorno do ministro. Documentos indicam que Moraes supostamente utilizou, ao
menos em oito ocasiões, aeronaves vinculadas a empresa ligada a Vorcaro entre
maio e outubro de 2025. Por nota, o gabinete do ministro afirmou que ele
“jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia e de
Fabiano Zettel, a quem nem conhece”. O texto, contudo, não fez comentários
sobre voos em aeronaves que pertencem à empresa que era de Vorcaro. O gabinete
do ministro não se manifestou sobre o voo no dia anterior a uma reunião com o
dono do Master.
Desde que Moraes passou a integrar a mais
alta instância do Poder Judiciário, em março de 2017, o ministro e a mulher
tiveram aumento de 266% do patrimônio imobiliário, segundo o jornal O Estado de
S. Paulo. Hoje, o casal possui 17 imóveis, avaliados em R$ 31,5 milhões. Nos
últimos cinco anos, o casal teria investido R$ 23,4 milhões na compra de imóveis
em Brasília e em São Paulo, todos eles à vista. As informações foram reveladas
pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI do Crime Organizado.
Saia justa
O caso Master não desgasta apenas o Supremo,
a rede de contatos estabelecida pelo banco junto a figuras centrais da política
e da economia alimenta muitas especulações sobre a delação premiada que o
banqueiro Daniel Vorcaro negocia com o ministro André Mendonça. Entre 2023 e
2025, foram identificados cerca de R$ 65 milhões repassados a escritórios e
empresas ligados a nomes como Michel Temer (R$ 10 milhões), Henrique Meirelles
(R$ 18,5 milhões), Guido Mantega (R$ 14 milhões), além de pagamentos a ACM
Neto, Antonio Rueda e Fabio Wajngarten.
Todos os contratos têm regularidade
contratual, o que descarta a hipótese penal, porém, permanece a questão da
ética pública e das aparências institucionais. O Banco Master não operava
apenas como instituição financeira, mas como um hub de conexões com o sistema
político e jurídico. Nesse contexto, o envolvimento de ministros e seus
familiares com o banqueiro cria grande embaraço para o Supremo.
É inevitável a comparação com os julgamentos
relacionados aos atos de 8 de janeiro, no qual Moraes teve grande protagonismo
e consolidou a tese do “conjunto da obra”, na qual indícios, vínculos indiretos
e contextos ampliados foram utilizados para fundamentar condenações severas.
Não é o que ocorre no caso Master, no qual a exigência de provas estritamente
objetivas de ilegalidade para qualquer avanço investigativo alimenta críticas e
fragiliza a narrativa de imparcialidade, embora esse posicionamento
“garantista” esteja lastreado no “devido processo legal”.
Moraes está numa saia justa: sua participação
em julgamentos relacionados ao caso pode ser juridicamente defensável, mas tem
alto custo político para a Corte e para ele próprio. Não por acaso, o próprio
presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria aconselhado o ministro a preservar
sua biografia e se declarar impedido de julgar o caso. É que o problema já
extrapolou os limites do debate técnico e compromete a legitimidade
institucional, no contexto do grande mal-estar entre acadêmicos e juristas com
o interminável inquérito das fake news.
Devido ao risco de o caso Master virar uma
grande crise institucional, há grande convergência entre a Procuradoria-Geral
da República, a maioria do STF e lideranças do Congresso vom objetivo de
circunscrever e conter o avanço de apurações. Essa blindagem institucional visa
proteger o establishment político do país, num ano eleitoral no qual a disputa
pela Presidência está aberta, embora o presidente Lula seja candidato à
reeleição. Em síntese, a distância entre legalidade e legitimidade só aumenta.

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