quarta-feira, 3 de junho de 2026

Lula alveja bolsonarismo e contorna crítica a Trump, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Quem permite que petista ressuscite o apelo à soberania sem fechar as portas à negociação com o presidente americano é o senador e pré-candadidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro

Pela segunda vez, em menos de uma semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu a uma medida americana discriminatória em relação ao Brasil sem mencionar Donald Trump. Quem permite que Lula ressuscite o apelo à soberania sem fechar as portas à negociação com o presidente americano é o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

É a polarização da campanha com um bolsonarismo que não se cansa de se valer de Trump como ativo eleitoral que possibilita a Lula faturar politicamente as sucessivas afrontas à soberania sem comprometer a conquista de eleitores de centro e direita avessos à submissão do país aos EUA.

Ao contrário do que o senador e seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), fizeram no ano passado, quando conclamaram os “verdadeiros patriotas” a apoiar o tarifaço, Flávio Bolsonaro disse que havia pedido a Trump para não taxar as empresas brasileiras. Ainda divulgou a carta enviada ao secretário de Estado, Marco Rubio, pedindo que o Escritório de Representação Comercial dos EUA, USTR na sigla em inglês, não efetivasse a medida em 15 de julho. Se o senador tentou se eximir da taxação de 25%, Trump não lhe deu ouvidos, mas exibiu, com uma semana de atraso, seu encantamento com o pré-candidato do PL.

Em meio às tentativas de Flávio de se desvencilhar da medida, o presidente americano publicou, nas redes sociais, a foto em que aparece com os irmãos Bolsonaro e o influenciador Paulo Figueiredo, há uma semana, com a legenda: “Foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca - um jovem inteligente que ama muito seu país, Brasil”.

A visita do senador à Casa Branca aconteceu na véspera do anúncio, pelo Departamento de Estado, da designação do PCC e do CV como organizações terroristas. Menos de uma semana depois deste anúncio, que Flávio Bolsonaro faturou para sair das cordas do seu envolvimento com o obscuro financiamento do filme sobre seu pai, “Dark Horse”, pelo ex-banqueiro do Master, Daniel Vorcaro, veio o novo tarifaço sobre o Brasil.

A medida forjou o apelo de Lula aos brios do eleitor - “não admitimos ser tratados como moleques” - mas o presidente brasileiro pisou em ovos para não sinalizar repúdio ao endurecimento contra o crime organizado com a declaração, que surpreendeu seus correligionários, de que o crime organizado é “terrorista” para as comunidades e não para os EUA.

Desta vez, não precisou fazer concessões. Empilhou “vendilhão da pátria”, “traidor”, “imbecil” e escorregou na referência à traição de Joaquim Silvério dos Reis, que disse ter sido enforcado, quando, na verdade a pena coube ao seu delatado, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira.

O governador Tarcísio de Freitas fez exatamente o contrário. Poupou Flávio Bolsonaro e criticou os EUA por cobranças sobre desmatamento quando “não são referência nem exemplo” na matéria. Depois da revelação sobre o envolvimento do senador com o Master, o governador, bem como os presidenciáveis Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), voltaram a se aproximar de Flávio Bolsonaro com a designação de “terrorismo” para o PCC e o CV. A iminência de mais um tarifaço não provocou nova cisão. Pelo menos até aqui.

A investida escancara a determinação da Casa Branca em influenciar as eleições no Brasil. Se havia alguma dúvida, Rubio a dissipou ao comentar a disseminação, no hemisfério, de aliados americanos. Citou, como exceções, Cuba, Nicarágua, Venezuela, Colômbia, e “obviamente, o Brasil, que está em processo eleitoral”. Foi como se dissesse que é uma questão de tempo para o país se tornar aliado.

Com a ofensiva, Trump corre o risco de colocar o Brasil no rol de países em que agiu como cabo eleitoral às avessas. Desde sua posse, em janeiro de 2025, seus aliados Viktor Orbán, Pierre Poilièvre, Peter Dutton e George Simion, perderam as eleições, respectivamente, no Canadá, Austrália, Romênia e Hungria. A exceção a este conjunto de países foi a Polônia, onde o candidato conservador, Karol Nawrocki, recebido por Trump durante a campanha e incensado durante encontro da conferência da extrema-direita mundial, a CPAC, na Polônia, ganhou a eleição.

É na América Latina que a carreira de cabo eleitoral de Trump tem tido mais sucesso. Aliados seus foram eleitos na Argentina (Javier Milei), Chile (Jose Antonio Katz), Honduras (Nasry Asfura) e Bolívia (Rodrigo Paz). No dia 21 de junho, o aliado americano Abelardo de la Espriella enfrentará o candidato do presidente Gustavo Petro, Iván Cepeda, no segundo turno da eleição colombiana. O investimento do trumpismo para estender ao Brasil o rol de governos latino-americanos aliados é proporcional à disposição de Lula em se valer cavalgar esta aposta para vencer Flávio Bolsonaro.

 

Nenhum comentário: