Valor Econômico
Quem permite que petista ressuscite o apelo à
soberania sem fechar as portas à negociação com o presidente americano é o
senador e pré-candadidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro
Pela segunda vez, em menos de uma semana, o
presidente Luiz Inácio Lula da
Silva reagiu a uma medida americana discriminatória em relação ao Brasil sem
mencionar Donald
Trump. Quem permite que Lula ressuscite o apelo à soberania sem
fechar as portas à negociação com o presidente americano é o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
É a polarização da campanha com um bolsonarismo que não se cansa de se valer de Trump como ativo eleitoral que possibilita a Lula faturar politicamente as sucessivas afrontas à soberania sem comprometer a conquista de eleitores de centro e direita avessos à submissão do país aos EUA.
Ao contrário do que o senador e seu irmão, o
ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP),
fizeram no ano passado, quando conclamaram os “verdadeiros patriotas” a apoiar
o tarifaço, Flávio
Bolsonaro disse que havia pedido a Trump para não taxar as
empresas brasileiras. Ainda divulgou a carta enviada ao secretário de
Estado, Marco Rubio,
pedindo que o Escritório de Representação Comercial dos EUA, USTR na sigla em
inglês, não efetivasse a medida em 15 de julho. Se o
senador tentou se eximir da taxação de 25%, Trump não lhe deu ouvidos, mas
exibiu, com uma semana de atraso, seu encantamento com o pré-candidato do PL.
Em meio às tentativas de Flávio de se
desvencilhar da medida, o presidente americano publicou, nas redes sociais, a
foto em que aparece com os irmãos Bolsonaro e o influenciador Paulo Figueiredo, há uma
semana, com a legenda: “Foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da
Casa Branca - um jovem inteligente que ama muito seu país, Brasil”.
A visita do senador à Casa Branca aconteceu
na véspera do anúncio, pelo Departamento de Estado, da designação do PCC e do CV como organizações
terroristas. Menos de uma semana depois deste anúncio, que Flávio Bolsonaro faturou
para sair das cordas do seu envolvimento com o obscuro financiamento do filme
sobre seu pai, “Dark
Horse”, pelo ex-banqueiro do Master, Daniel Vorcaro, veio o novo
tarifaço sobre o Brasil.
A medida forjou o apelo de Lula aos brios do
eleitor - “não admitimos ser tratados como moleques” - mas o presidente
brasileiro pisou em ovos para não sinalizar repúdio ao endurecimento contra o
crime organizado com a declaração, que surpreendeu seus correligionários, de
que o crime organizado é “terrorista” para as comunidades e não para os EUA.
Desta vez, não precisou fazer concessões.
Empilhou “vendilhão da pátria”, “traidor”, “imbecil” e escorregou na referência
à traição de Joaquim Silvério dos Reis, que disse ter sido enforcado, quando,
na verdade a pena coube ao seu delatado, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, herói da
Inconfidência Mineira.
O governador Tarcísio de Freitas fez
exatamente o contrário. Poupou Flávio
Bolsonaro e criticou os EUA por cobranças sobre
desmatamento quando “não são referência nem exemplo” na matéria. Depois da
revelação sobre o envolvimento do senador com o Master, o governador, bem como
os presidenciáveis Ronaldo
Caiado (PSD) e Romeu
Zema (Novo), voltaram a se aproximar de Flávio Bolsonaro
com a designação de “terrorismo” para o PCC e o CV. A
iminência de mais um tarifaço não provocou nova cisão. Pelo menos até aqui.
A investida escancara
a determinação da Casa Branca em influenciar as eleições no Brasil. Se havia alguma
dúvida, Rubio a
dissipou ao comentar a disseminação, no hemisfério, de aliados americanos.
Citou, como exceções, Cuba, Nicarágua, Venezuela, Colômbia, e “obviamente, o
Brasil, que está em processo eleitoral”. Foi como se dissesse que é uma questão
de tempo para o país se tornar aliado.
Com a ofensiva, Trump corre o risco de
colocar o Brasil no rol de países em que agiu como cabo eleitoral às avessas.
Desde sua posse, em janeiro de 2025, seus aliados Viktor Orbán, Pierre
Poilièvre, Peter Dutton e George Simion, perderam as eleições, respectivamente,
no Canadá, Austrália, Romênia e Hungria. A exceção a este conjunto de países
foi a Polônia, onde o candidato conservador, Karol Nawrocki, recebido por Trump
durante a campanha e incensado durante encontro da conferência da
extrema-direita mundial, a CPAC, na Polônia, ganhou a eleição.
É na América Latina que a carreira de cabo
eleitoral de Trump tem
tido mais sucesso. Aliados seus foram eleitos na Argentina (Javier Milei),
Chile (Jose Antonio Katz), Honduras (Nasry Asfura) e Bolívia (Rodrigo Paz). No
dia 21 de junho, o aliado americano Abelardo de la Espriella enfrentará o
candidato do presidente Gustavo Petro, Iván Cepeda, no segundo turno da eleição
colombiana. O investimento do trumpismo para estender ao Brasil o rol de
governos latino-americanos aliados é proporcional à disposição de Lula em se
valer cavalgar esta aposta para vencer Flávio Bolsonaro.

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