Editoriais
Bolsa
Família sofreu retrocesso ao se tornar Auxílio Brasil
O Globo
O
Bolsa Família é citado dentro e fora do Brasil como exemplo de política social
bem-sucedida. De forma direta ou indireta, atingia 40 milhões de brasileiros
carentes, garantindo subsistência a um custo relativamente baixo, em torno de
0,4% do PIB. Para alcançar o objetivo estratégico de quebrar a transmissão da
miséria de geração a geração, mantinha foco e exercia cobrança de
contrapartidas dos beneficiários — visitas periódicas ao posto de saúde,
vacinação em dia e frequência escolar dos filhos. O registro de desvios sempre
foi mínimo.
Por
tudo isso, é extremamente preocupante a deterioração da qualidade dessa
política pública exitosa desde que foi transformada no Auxílio Brasil, o
programa eleitoreiro criado pelo presidente Jair Bolsonaro para chamar de seu e
ostentar nos palanques. Em vez de persistir na trajetória que assegurou
ampliação, evolução e êxito do Bolsa Família ao longo dos governos Fernando
Henrique, Lula e Dilma, Bolsonaro tem promovido uma razia nos princípios que
sempre o regeram.
O desmonte se acentuou a partir da pandemia. Como o auxílio emergencial distribuído em 2020 e 2021 destinava-se a parcela maior da população, o coronavírus serviu de pretexto para a suspensão da cobrança de contrapartidas daqueles que recebiam o Bolsa Família. Ao mesmo tempo, criou-se uma pressão maior no caixa do Tesouro. Para o lançamento do Auxílio Brasil, com valor estipulado em R$ 400 sem nenhum tipo de critério ou embasamento técnico, o custo do programa passou a cerca de 1% do PIB, sem que houvesse ganho correspondente na eficácia. Eis uma das razões para a ruptura do teto de gastos no Orçamento deste ano.
Ainda
mais preocupante que o impacto fiscal — ao menos pode-se argumentar que esse
dinheiro é destinado a sanar um dos maiores flagelos nacionais — foi a perda de
foco do programa. Não há distinção entre os beneficiários, não se sabe se
Bolsonaro restabelecerá a cobrança de contrapartidas e, para piorar, o Cadastro
Único de quem recebe o benefício não vem sendo atualizado como deveria pelas
prefeituras. Um governo sustentado pelo Centrão por certo não fará a cobrança
para que seja.
O
economista Ricardo Henriques, colunista do GLOBO, apresenta números eloquentes
que atestam a deterioração da política social. Em fevereiro de 2020, dos 28,2
milhões de famílias no cadastro, 23,3 milhões tinham dados atualizados, ou 83%.
Em fevereiro passado, dos 33,8 milhões de famílias no Auxílio Brasil, apenas
20,6 milhões tinham informações em dia, ou 61%. A queda é inaceitável tanto em
valores absolutos quanto relativos.
O
relaxamento na administração do Auxílio Brasil resulta em perda de foco na
distribuição dos recursos e o rebaixa à condição de um plano assistencial
meramente populista, contrário aos interesses do contribuinte. Ele deixou de
ser um programa de Estado para se converter apenas em trunfo eleitoreiro.
Henriques
propõe que o próximo presidente da República tenha entre suas prioridades o
reparo das avarias que essa infraestrutura de assistência social vem sofrendo
desde 2019. Até para evitar a corrupção que costuma acontecer na distribuição
de dinheiro público sem controles sólidos. Só é difícil acreditar que um novo
governo Bolsonaro teria a capacidade de melhorar aquilo que ele próprio fez
piorar.
MP
do Fies deseduca ao beneficiar estudantes que não quitaram dívida
O Globo
A
Câmara conseguiu piorar o que já era ruim. Na última terça-feira, os deputados
aprovaram a Medida Provisória que permite a renegociação de dívidas do Fundo de
Financiamento Estudantil (Fies). É uma decisão discutível não só por incentivar
o calote, mas também pela motivação evidentemente eleitoral. Não bastasse isso,
ampliou-se o equívoco quando o relator da proposta, deputado Hugo Motta
(Republicanos-PB), incluiu no texto três “jabutis” que nada têm a ver com o
propósito da MP, entre eles o parcelamento de dívidas das Santas Casas e
hospitais filantrópicos.
A
renegociação de dívidas do Fies é mais um item que entra na cesta de bondades
distribuídas pelo governo federal às vésperas das eleições. Em três anos de
gestão, Bolsonaro não havia se preocupado com a inadimplência dos estudantes
que recorrem ao programa para pagar as mensalidades em universidades
particulares. Mudou de ideia no fim do ano passado, depois que o pré-candidato
do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, defendeu a renegociação e até
uma anistia dos débitos. Lula e Bolsonaro fazem populismo à custa dos
contribuintes.
Pelo
projeto aprovado na Câmara, que ainda seguirá para o Senado, os estudantes com
mais de um ano de atraso que estejam inscritos nos programas sociais do governo
por meio do Cadastro Único, ou que receberam Auxílio Emergencial, terão direito
a um desconto de 99% na dívida com o Fies. Para os demais, o alívio será de
77%. A quitação do débito poderá ser feita em 15 parcelas.
A
inadimplência sempre foi um problema crônico do programa, criado em 1999 com o
objetivo de ampliar o acesso ao ensino superior. A ideia, bem-intencionada, era
que estudantes sem condições de pagar as mensalidades pudessem cursar
universidades particulares e quitar suas dívidas depois de formados, quando
estivessem empregados. A fórmula nunca se mostrou muito eficaz. Prova disso é
que o Fies passou por várias reformulações e continua capenga.
A
taxa de inadimplência (considerando os contratos com mais de 90 dias de atraso)
chega a 49%. As prestações não pagas somam R$ 7,3 bilhões. Ao contrário do que
faz o governo, o perdão não parece ser o melhor caminho para recuperar a
credibilidade do Fies. Em 2019, o Conselho de Monitoramento e Avaliação de
Políticas Públicas apontou a flexibilização das regras e a expansão do programa
como um dos vilões responsáveis pelo risco fiscal. Técnicos constataram que
parte significativa dos inadimplentes poderia arcar com o pagamento das
prestações.
Compreende-se
que a pandemia tenha agravado o problema do desemprego e que a sucessão de
crises de todo tipo no país funciona como obstáculo a projetos de longo prazo,
como o Fies. Mas, ao perdoar a dívida dos inadimplentes, o governo deseduca. A
MP suscita uma pergunta óbvia: o que pensam os que deram duro para não cair na
inadimplência? Ficará mais difícil convencer os estudantes de que é bom negócio
pagar as parcelas em dia.
Pista vazia
Folha de S. Paulo
Fragilidade da terceira via contribui para
o empobrecimento do debate eleitoral
Os partidos políticos em busca de uma
candidatura que empolgue os eleitores insatisfeitos com os dois líderes da
corrida presidencial parecem longe de superar as dificuldades que têm
encontrado.
Na quarta (18), os presidentes das siglas
na mesa de negociações apontaram
a senadora Simone Tebet (MDB-MS) como sua melhor opção e resolveram
submetê-la a discussões mais amplas com dirigentes na próxima semana.
A cúpula do PSDB trabalha contra
as pretensões do ex-governador João Doria, que saiu vencedor das prévias
internas realizadas pela legenda no fim do ano passado, mas enfrenta a rejeição
de segmentos expressivos do eleitorado.
Pouco conhecida nacionalmente, Tebet não
tem o mesmo problema, mas tampouco se sobressai quando seu potencial é testado
pelas pesquisas de intenção de voto. As sondagens mais recentes lhe conferem só
1% das preferências.
Não há consenso nas duas legendas nem mesmo
a respeito da conveniência de lançar candidatura própria. Em ambos há facções
que torcem pela reeleição de Jair Bolsonaro (PL) e grupos simpáticos a Luiz
Inácio Lula da Silva (PT), o líder das pesquisas.
A confusão na chamada terceira via é tão
grande que há motivos até para duvidar que estejam realmente dispostos a entrar
nesse jogo.
Para muitos dirigentes do MDB e do PSDB, a
chave para sua sobrevivência nos próximos anos está no fortalecimento das
bancadas no Congresso, essencial para que continuem se apropriando de fatias
gordas dos recursos públicos que hoje enchem seus cofres.
Nesse contexto, soa mais sensato usar o
dinheiro para investir nas campanhas estaduais do que apostar em candidaturas
que não se mostram competitivas na disputa nacional, o que deixaria as siglas
de mãos amarradas na busca de alianças locais.
Se o Datafolha indica que 31% dos eleitores
não se mostram inclinados a votar como primeira opção nos dois líderes da
corrida, é evidente também que nenhum dos nomes lançados até agora logrou
aglutinar os anseios dos que buscam alternativa a Lula e Bolsonaro.
Em terceiro lugar nas pesquisas, Ciro Gomes
(PDT) continua distante dos dois e sofre pressões para abandonar a competição
em favor de Lula, que herdaria boa parte dos seus eleitores e assim teria
chances de vencer no primeiro turno.
É de lamentar que tais articulações passem
ao largo de qualquer consideração programática. Discutem-se as conveniências de
cada partido no jogo eleitoral, sem que se pronuncie palavra sobre a
recuperação da economia, amparo social e outras aflições da população. A falta
de opções contribuirá para empobrecer ainda mais o debate.
Mala sem alça
Folha de S. Paulo
Congresso insiste em restabelecer a
gratuidade ilusória das bagagens em voos
A ilusão da gratuidade é das mais
proverbiais na economia e das mais populares na política. A todo momento se
veem iniciativas para livrar consumidores de preços de passagens de ônibus,
estacionamentos de shopping centers, eventos esportivos e culturais —como se
fosse possível fazê-lo sem transferir a conta para terceiros.
A quimera está perto de ganhar corpo e
alcance nacional no caso do despacho de bagagens em voos comerciais. O
Senado aprovou na terça-feira (17) um texto que restabelece a
proibição de cobrança pelo transporte de malas, sacolas e outros pertences de
até 23 kg nas viagens aéreas nacionais e 30 kg nas internacionais.
Como de costume, os parlamentares
enxertaram a norma em uma proposta de objetivos diferentes —no caso, uma medida
provisória que busca estimular o setor aéreo. Modificado pelo Senado, o diploma
voltará à Câmara dos Deputados, que já votara antes pela gratuidade das
bagagens. Depois só restará a sanção presidencial.
A atual permissão para que as companhias
cobrem pelas malas despachadas foi dada em 2016 pela Agência Nacional de
Aviação Civil (Anac). A
lógica da providência já era clara na ocasião.
Quanto mais peso carregado no avião,
maiores são o consumo de combustível e os custos do voo. Sem a cobrança
individual, tais encargos serão incluídos no preço do bilhete e divididos entre
todos os passageiros, inclusive aqueles que levam apenas pertences de mão; pode
haver ainda estímulo a bagagem acima do necessário.
O fim da gratuidade obrigatória
favoreceria, assim, o barateamento das passagens, inclusive por meio da atração
de companhias especializadas em viagens mais populares.
Tal resultado, porém, é difícil de observar
sem uma análise especializada e de longo prazo, pois há inúmeros outros fatores
a influenciar as tarifas —custos operacionais, inflação doméstica e cotação do
dólar, por exemplo. No período recente, ademais, a pandemia teve enorme impacto
no setor aéreo.
Por fim, a disparada recente dos preços dos
combustíveis e, por conseguinte, das passagens criou a oportunidade para que o
Congresso voltasse a explorar a ilusão da gratuidade, como já havia feito em
2019. Na época, Jair Bolsonaro (PL) vetou
corretamente a falsa bondade, depois de dizer que seu coração mandava
sancioná-la.
Agora, em ano eleitoral, obedecer à razão
pode ser mais difícil.
Candidato não é mercadoria
O Estado de S. Paulo
Pesquisa não pode ser decisiva na definição de candidaturas. Importa a capacidade de estimular a esperança com propostas sólidas para os problemas do presente e as ambições do futuro
É desanimadora a notícia de que o candidato
da chamada “terceira via”, aquele cuja incumbência é atrair os muitos eleitores
que desprezam os populistas que lideram as pesquisas, pode ser escolhido por
meio de pesquisas para avaliar sua viabilidade eleitoral.
Há uma clara inversão de valores aqui. O
que dá solidez a uma candidatura, sobretudo uma candidatura que se propõe a
enfrentar a demagogia de Lula da Silva e Jair Bolsonaro, é a capacidade do
postulante e de seu partido de se apresentarem ao eleitorado como veículos de
um projeto concreto de país. É isso que tem potencial de atrair votos. Ao
definir uma candidatura não por sua substância programática, ora inexistente,
mas apenas pelo grau de rejeição dos nomes apresentados, a “terceira via”
parece estar disputando não a chefia do governo, mas o lugar de maior destaque
na prateleira de um supermercado.
É óbvio que política envolve carisma, isto
é, a qualidade extraordinária de transpirar poder. Logo, nem a mais sofisticada
das plataformas eleitorais é suficiente para vencer uma eleição se o candidato
que a propõe não inspirar essa força nos eleitores. No entanto, um candidato
escolhido somente por ser supostamente mais bem aceito que outros em enquetes,
e não por suas ideias ou propostas, tende a ser apenas mais um enlatado na
gôndola. Pode até ganhar a eleição, mas empobrece a política e, por tabela, a
democracia.
Hoje, infelizmente, os partidos são apenas
veículos das ambições pessoais de seus donos ou caciques. Votar neste ou
naquele partido faz pouca ou nenhuma diferença para os eleitores, que são
convidados não a pensar nos grandes problemas nacionais, mas somente no
atendimento imediato – e invariavelmente precário – de suas necessidades. É por
isso que os dois líderes das pesquisas de intenção de voto para presidente
sejam rematados irresponsáveis, a prometer unguentos mágicos para solucionar
problemas que demandam remédios bem mais amargos.
É fundamental que haja entre os postulantes
à Presidência uma candidata ou um candidato que represente genuinamente os
valores da democracia liberal, especialmente nesta quadra histórica, marcada
pelo que o sociólogo Larry Diamond, da Universidade Stanford, chamou de
“recessão democrática”, a ascensão de líderes autoritários em diversos países
mundo afora. Ou bem se constrói uma candidatura com esse propósito claro,
disposta a disputar votos sem abrir mão de convicções liberais nem fazer
concessões a demandas estranhas à livre-iniciativa e às liberdades, ou não
restará aos brasileiros alternativa senão ter que escolher o “mal menor” entre
candidaturas retrógradas. Não é assim que se faz um país.
Não se pode criticar o cidadão
verdadeiramente democrata que olhe para o quadro político-eleitoral de momento
e não seja tomado por um misto de frustração e desalento. Até aqui, em instante
algum se viu os partidos do centro democrático discutindo propostas concretas
para tirar o País do atoleiro político, econômico, social e moral em que se
encontra há muito tempo. Fala-se muito em impedir que o futuro do Brasil
continue condicionado aos desvarios de um presidente demagogo, seja de que
partido for. De fato, seria um desastre de consequências funestas.
Mas o que oferecer ao eleitor no lugar da
gritaria iliberal bolsonarista ou do retrocesso estatólatra do lulopetismo? As
possíveis candidaturas alternativas até agora postas não deram uma resposta
sólida a essa questão. Pelo contrário: perdem tempo e energia digladiando-se em
público, pensando unicamente em meios de ganhar a eleição, e não em articular e
defender projetos, com confiança e honestidade. É legítimo que todo partido
almeje o poder, mas, antes disso, deve ter claro e dizer a todos o que pretende
fazer com esse poder. Só então o eleitor fará sua escolha.
Em resumo, não se pode privar os eleitores
da chance de sonhar com um futuro melhor, em que prevaleçam a razão, o diálogo
e o respeito à democracia – ainda que, ao fim e ao cabo, a vitória não
venha.
Investimentos muito limitados
O Estado de S. Paulo
O aumento da taxa de investimentos deveu-se apenas a dois segmentos da economia, e o setor público investe cada vez menos; o quadro só mudará com crescimento vigoroso
O salto da taxa de investimentos no Brasil
entre 2015 e 2021, de 15,52% para 19,17% do Produto Interno Bruto (PIB), com
aumento de quase 3,7 pontos porcentuais, traz expectativas animadoras. Aferido
pelo Centro de Estudos de Mercados de Capitais (Cemec) da Fundação Instituto de
Pesquisas Econômicas (Fipe) com base em dados do IBGE e estimativas próprias,
esse avanço pode sugerir que a economia brasileira recuperou sua capacidade de
investir. Desse modo, o Brasil teria conseguido reduzir sua distância em
relação aos países em desenvolvimento que cresceram em ritmo intenso nas
últimas décadas e, assim, readquirido sua própria capacidade de voltar a
crescer com maior velocidade.
Embora auspiciosos, os dados precisam ser
examinados com cuidado, como faz o Cemec, e estão longe de projetar crescimento
rápido e sustentado nos próximos anos. Problemas recentes e históricas restrições
estruturais ao aumento dos investimentos do setor público ainda desafiam o País
e, se não enfrentados, manterão a economia em ritmo exasperantemente lento, com
o que velhos problemas sociais persistirão, se não ficarem mais graves.
Mesmo eliminados os registros de
exportações fictícias de plataformas de petróleo, a evolução da taxa de
investimentos é expressiva. Entre 2019 e 2021, ela passou de 16,2% para 18,2%
do PIB, uma evolução de 2 pontos porcentuais num período marcado pela pandemia
da covid-19.
Mas, em boa medida, o aumento se deveu a
uns poucos segmentos da economia. Ele foi puxado, em primeiro lugar, por
máquinas e equipamentos, mas, desses itens, os que mais cresceram foram os
voltados para o setor agrícola. O segundo fator foi a construção civil. Outros
setores tiveram papel pouco expressivo nos investimentos nos últimos anos.
A eficiência da agropecuária tem sido
demonstrada há décadas. Seus ganhos de produtividade e a expansão notável de
sua produção, bem como seu papel na geração de superávits excepcionais da
balança comercial, o destacam dos demais setores. É o campo que, num período de
estagnação ou baixo crescimento, tem evitado resultados econômicos ainda mais
decepcionantes. É preciso observar, no entanto, que o aumento recente de sua
demanda por bens de capital tem muito a ver com a boa cotação internacional.
Surgem indicações fortes de que o bom momento do mercado mundial para os
produtos agrícolas pode estar passando.
No caso da construção, o grande estímulo
nos últimos tempos foi a oferta abundante de crédito a custos historicamente
baixos. Desde meados do ano passado, porém, os juros básicos vêm sendo elevados
pelo Banco Central para conter a inflação, que já passa de 12% em 12 meses. O
aumento do custo dos empréstimos imobiliários, a maior cautela das instituições
financeiras em razão da evolução da inadimplência e a corrosão da renda real
pela inflação podem reduzir os negócios no setor.
Além dessas mudanças para os dois setores
que mais têm estimulado os investimentos, há o caso do setor público. Os
investimentos públicos estagnaram e os bons resultados observados nos últimos
anos são frutos apenas dos investimentos privados. O desafio é, ao mesmo tempo,
recuperar a capacidade de investimento do setor público e assegurar condições
para atrair mais e mais investimentos privados.
Quanto ao setor público, na atual estrutura
fiscal, as despesas correntes crescem mais do que a inflação, o que,
paulatinamente, reduz o espaço para os investimentos. Romper essa evolução que
degenera o gasto público exigirá uma verdadeira reforma do Estado, que permita
o controle efetivo da evolução dos gastos correntes de modo a assegurar o
aumento dos investimentos.
Ao mesmo tempo, a economia terá de crescer
mais rapidamente, com ganhos de produtividade por meio da incorporação das
inovações tecnológicas em ritmo e em volumes compatíveis com os observados no
exterior. A economia terá de se abrir efetivamente ao mercado mundial.
É difícil ver algo parecido com isso entre
as muito poucas ideias e raríssimos projetos que os principais candidatos à
Presidência vêm apresentando.
Risco estratégico no custo da construção
O Estado de S. Paulo
Inflação e juros atingem um setor
especialmente importante para a criação de empregos e o crescimento da economia
Custos em alta pressionam a construção
civil, um setor importante pela criação de empregos e pela ampla demanda de
insumos, como aço, alumínio, cobre, cimento, concreto, vidro, plásticos,
produtos de cerâmica e madeira, além de equipamentos variados. Puxados
principalmente pelos materiais, os custos da construção subiram 1,21% em abril,
a maior taxa desde agosto do ano passado, e aumentaram 15% em 12 meses, de acordo
com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
As pressões tendem a intensificar-se.
Grandes fornecedoras anunciaram elevações de preços entre 10% e 16% para
cimento, concreto e argamassas. Além disso, algumas deixaram de trabalhar com vendas
antecipadas, passando a cobrar preços novos pelos produtos entregues depois de
cada reajuste, segundo noticiou o Estadão na quarta-feira.
O aumento de custos da construção civil é
parte do surto inflacionário iniciado em 2021. Com preços mais altos, ganhos
menores e juros elevados, consumidores perdem acesso ao crédito imobiliário.
Esse tipo de financiamento atingiu R$ 41,2 bilhões no primeiro trimestre deste
ano, com redução de 3,7% em relação ao valor de um ano antes, pelos dados da
Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).
As unidades financiadas passaram de 188,4 mil para 176 mil, com diminuição de
6,6%. Na contramão dos bancos privados, no entanto, a Caixa vem procurando
ampliar seus empréstimos, com redução de juros da linha atrelada à poupança e
maiores facilidades para os tomadores de recursos. No ano passado, a
participação da Caixa nesse mercado recuou de 69,3% para 66,5%. Com o novo
impulso, essa perda talvez seja mais que compensada.
Esse movimento é especialmente importante
quando a maior parte do poder central pouco faz para estimular a economia e
garantir um crescimento maior que as taxas projetadas pelo mercado. Essas
projeções têm raramente superado 1%.
Pelos vínculos com muitas indústrias
fornecedoras de insumos, assim como por seu potencial de criação de empregos, a
construção civil tem considerável importância estratégica. No ano passado,
enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 4,6%, a produção das
construtoras aumentou 9,7%, compensando com folga a perda de 6,3% ocorrida em
2020. No primeiro trimestre deste ano o setor produziu 3,7% mais que nos três
meses finais de 2021. Além disso, cresceu 12,4% nos 12 meses até março, segundo
o Monitor do PIB-FGV,
importante prévia das contas nacionais trimestrais do IBGE.
No balanço do emprego em 2021, o maior crescimento porcentual, 13,8%, ocorreu na construção, com aumento líquido de 845 mil postos de trabalho. No primeiro trimestre deste ano, porém, o setor perdeu 252 mil pessoas, segundo o IBGE, mas ainda manteve aumento de 815 mil em relação a um ano antes. Apesar disso, o quadro geral da ocupação se manteve muito ruim, com 11,9 milhões de desempregados no trimestre inicial de 2022. Os brasileiros estariam mais seguros se o poder central desse alguma importância a esses números.
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