quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Marielle ainda nos ensina, por Míriam Leitão

O Globo

O assassinato de Marielle desnudou o Brasil do racismo, do machismo, da misoginia, da homofobia e dos feudos sob domínio do crime

Quem chorou há oito anos pela morte de Marielle Franco e Anderson Gomes chorou ontem de novo. Nada aplaca a dor, mas o Brasil fez justiça unânime e pesada contra os mandantes do crime. No dia anterior ao julgamento, Luyara disse que sabia da importância da mãe, mas que nos últimos anos foi tendo a consciência da sua enorme dimensão. Sempre ficará contudo o vazio do que não foi, do que não pôde ter sido, e nunca poderá. O assassinato matou uma mulher negra que alçava voo e ela iria muito alto, por merecimento e determinação. É esse vazio impreenchível que está nos corações dos que a amaram e a entenderam.

Este crime desnuda o Brasil. E o que se vê é terrível. O machismo, a misoginia, o racismo e a homofobia estão no ódio dos que encomendaram a morte, armaram os assassinos, dispararam ou obstruíram a Justiça, tentando impedir que se soubesse a verdade. Como disse o ministro relator Alexandre de Moraes: “Marielle Franco se tornou um obstáculo, uma pedra no caminho”. Queriam calar a voz da vereadora e ainda mandar um recado, como se ela fosse uma morte menor. Como lembrou a ministra Cármen Lúcia “matar uma de nós é mais fácil”.

No seu emocionado e preciso voto, a ministra cunhou a expressão “feudalismo criminoso”. Isso explica o Rio e se espalha perigosamente pelo Brasil. Feudos entregues a criminosos que ameaçam, como disse a ministra, a soberania nacional. É o Estado brasileiro que está sob ataque quando se convive com essa anomalia do controle territorial por bandidos. No seu voto também técnico e exato, o ministro Flávio Dino lembrou que não há diferença entre traficantes e milicianos. É a “narcomilícia”. Há rivalidades entre os grupos de bandidos, mas eles são da mesma perversa natureza. Quem os condecorou, quem os empregou deve saber de que lado está. Está distante do Estado Democrático de Direito que não aceita que exista um tal “crime do bem”.

No seu minucioso voto, o relator concluiu: “A ampla produção probatória não deixa margem à dúvida”. Seu voto foi seguido. O julgamento, encerrado ontem, condenou a mais de 70 anos os dois mandantes, o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) Domingos Brazão e o ex-deputado-federal Chiquinho Brazão, e fixou pena em 18 anos ao ex-chefe de Polícia Civil Rivaldo Barbosa, por tentar impedir a investigação. Como disse o ministro Dino, “o crime foi pessimamente investigado no começo, e de forma dolosa”. Os três representam outra chaga que o crime revela: o uso do espaço de poder para praticar, facilitar e ocultar crimes. Foram responsabilizados também o ex-chefe da milícia na Muzema e ex-policial militar Ronald Paulo Alves, a 56 anos de prisão, e o ex-assessor de Domingos Brazão, Robson Calixto Fonseca, a nove anos.

O que os cinco exibem é um quadro de conspiração e cumplicidade que corrói o Brasil. Tudo neste caso é emblemático. Quantos “Brazões” ainda existem atuando na política e nos tribunais de contas? Quantos Rivaldos na segurança pública? Quantos Major Ronald existem na polícia? Quantos assessores participam das redes criminosas dos seus chefes, como Robson, o “Peixe”.

É o Brasil que esteve diante de nós nesse julgamento, e que vemos há oito anos nesse crime bárbaro. O Brasil quase praticou de novo a impunidade. Ela chega, a Justiça, tardia, mas forte. Tantos brasileiros repetiram durante dias, meses, anos, “quem matou Marielle? Quem mandou matar?”. Hoje se sabe, mas não é o bastante, porque muitos crimes permanecem impunes. “Quantas Marielles mais?”, perguntou a ministra Cármen Lúcia ecoando a própria Marielle, que um dia antes de ser morta perguntou com sua voz corajosa: “Quantos mais vão precisar morrer para que esta guerra acabe?”.

É o Brasil que está diante de nós também quando vemos dona Marinete, se sentindo mal, mas voltando para o julgamento. A “mater dolorosa”. É o Brasil que vemos em Agatha falando com extrema lucidez e pedindo justiça em nome do filho Arthur, ou em Luyara, hoje uma mulher, dirigindo o Instituto Marielle Franco. É o Brasil em Anielle, a irmã que se agigantou na dor. É o Brasil em Mônica, a viúva. Em Antônio, o pai. Os atingidos por este assassinato deram ao país uma demonstração de força, coragem e memória. O luto de cada um dos integrantes das famílias e dos amigos feridos nos ensinou muito. Sim, há o crime que nos aflige, mas há a resistência que dá esperança.

 

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