Folha de S. Paulo
Em um país onde a dependência financeira
aprisiona tantas brasileiras à violência, modelo é instrumento de autonomia e
segurança
Ouvi de beneficiários no Quênia que há mais paz entre os casais e maior participação das mulheres nas decisões do lar
A Renda Básica de Cidadania é o meio mais eficiente para garantir dignidade às mulheres. Além de importante instrumento de combate à pobreza, assegura autonomia com liberdade financeira. Em um país marcado pelo aumento assustador do feminicídio, a discussão deixou de ser apenas social e passou a ser também uma questão de proteção à vida. A renda básica permitirá a milhares de mulheres saírem de situações de violência.
Em 2025, foram registrados no Brasil o
assassinato de 1.568 mulheres, quatro por dia. Desde 2024, cerca de 51,7% dos
lares brasileiros são chefiados por mulheres. O feminicídio é, quase sempre, o
desfecho extremo de um ciclo de violências que se constrói aos poucos, no medo,
na humilhação, no controle, na dependência e no isolamento.
Desde a infância, a falta de acesso à uma
infraestrutura de higiene agrava a situação de vulnerabilidade social do sexo
feminino. A pobreza
menstrual, a falta de absorventes para uso durante a menstruação, atinge
milhões de meninas desde os 10 anos de idade, impactando diretamente sua saúde
e dignidade, gerando estigma e exclusão social, provocando evasão escolar. O
problema está parcialmente resolvido apenas para as mulheres inscritas no
CadÚnico no programa "Dignidade Menstrual".
O Mapa
Nacional da Violência de Gênero de 2025 mostrou que 34% das mulheres
vítimas de violência declararam não conseguir se sustentar com o próprio
dinheiro, e 66% delas têm renda familiar de até dois salários mínimos. Para 61%
das mulheres, a dependência financeira impede a denúncia de agressões. A mais
importante vantagem da renda básica está justamente em elevar o grau de liberdade
real das pessoas.
Em 2019, visitei experiência de renda básica
no Quênia com
resultados altamente positivos para as mulheres. A partir de 2017, todas as
pessoas com mais de 18 anos, de vilas rurais extremamente pobres, passaram a
receber US$ 22 mensais. Uma quantia modesta, mas relevante num dos países mais
pobres do mundo. Pesquisa da Universidade de Princeton (EUA) registrou queda de
51% na violência
doméstica e de 66% na violência sexual em domicílios onde as mulheres
passaram a receber a transferência de renda junto com seus maridos.
Ouvi dos beneficiários que, quando a renda chega de forma regular e assegurada,
diminuem-se a angústia e os conflitos agravados pela fome. Houve o aumento da
paz entre os casais e a maior participação das mulheres nas decisões do lar,
além do crescente empreendedorismo feminino e do ganho de independência.
A renda básica não é apenas uma política de combate à pobreza. Trata-se do
direito de todas as pessoas, não importa sua origem, raça, sexo, idade ou
condição civil e social, de participar da riqueza comum da nação. Oferece algo
que, para milhões de mulheres, é decisivo: uma base segura para poder fazer
escolhas, como sair de uma relação violenta, garantir proteção a seus filhos e
reorganizar suas vidas.
Considero a Renda Básica de Cidadania uma iniciativa fundamental para assegurar
às mulheres aquilo que lhes é devido: autonomia, segurança, dignidade e
liberdade.

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