terça-feira, 14 de abril de 2026

Além da guerra, persiste o ‘fogo amigo’ dos juros, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

De acordo com a CNI, antes da guerra no Irã, a taxa de juros de equilíbrio seria de 11%, 3,75 pontos percentuais abaixo da atual

Um mês atrás, esta coluna saiu com o título “Empresas vão ao ‘matadouro’ sem dar um pio”. Era uma forma de sugerir que os juros altíssimos no país estavam levando grandes e médias empresas, silenciosamente, a uma situação de endividamento insustentável.

Por coincidência, no mesmo dia e no seguinte, dois grupos gigantescos pediram recuperação extrajudicial, com dívidas de R$ 4,5 bilhões e R$ 65 bilhões. A estranheza do colunista era pelo fato de que praticamente não havia críticas de empresários do setor produtivo à política monetária do Banco Central, que mantinha a Selic em 15% ao ano, uma das causas mais importantes desses pedidos de renegociação de dívidas com credores.

Um empresário, Rafael Cervone, contestou essa afirmação, argumentando que tem lutado de forma sistemática contra a política dos juros altos. E ele tinha provas. Uma busca detalhada de suas manifestações em artigos e entrevistas confirma empenho frequente no combate ao “triste consenso” entre analistas de mercado e o Banco Central para manter juros exorbitantes há três décadas no país.

Cervone é presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Como nenhum outro empresário se manifestou, vale alinhar ideias de Cervone. Já em setembro de 2023, ao citar a Selic média de 12,63% verificada em 2022, ele apresentou danos dessa taxa citando dados da Fiesp. Se o Brasil tivesse os juros reais próximos dos de África do Sul, Chile, Indonésia ou México, países emergentes onde as taxas também são altas, mas inferiores à brasileira, o custo de financiamento de capital de giro da indústria brasileira cairia de R$ 71,5 bilhões para R$ 37,6 bilhões em 2022. Só com o ganho nessa rubrica, de R$ 33,9 bilhões, seria possível duplicar os gastos com pesquisa e desenvolvimento, itens cruciais para o avanço industrial.

Atolado em notícias e efeitos das guerras do senhor Trump, o Brasil esqueceu um pouco dos juros, mas o assunto já volta à cena e ganhará espaço até o fim do mês, quando, segundo a previsões, o BC deverá fazer uma nova e insignificante redução da Selic.

A divergência teórica ou ideológica entre BC+mercado e os economistas não ortodoxos espelha mais ou menos o dilema de “o ovo ou a galinha”. Os ortodoxos argumentam que os juros altos são hoje consequência de fatores estruturais, como o elevado endividamento público e o risco fiscal. Os não ortodoxos sustentam que seriam os juros elevados os causadores dos aumentos da dívida pública, das empresas e das famílias, bem como do custo de vida. Isso estaria travando investimentos e o crescimento da produção.

Cervone não se propõe, obviamente, a resolver esse dilema. Reconhece a importância do ajuste fiscal, mas observa que “não se pode usar indefinidamente o desequilíbrio das contas públicas como desculpa para manter a Selic em níveis punitivos para quem produz, consome e trabalha”.

Na última reunião do Copom, o BC cortou a Selic de 15% para 14,75% ao ano. A redução de 0,25 ponto percentual, insignificante, mantém o juro brasileiro em nível historicamente elevado. Apesar de eventos imprevisíveis, como guerras e seu impacto na inflação, há espaço para um corte maior no dia 29. Segundo dados da CNI, a Selic está errada. Antes do conflito no Irã e Oriente Médio, a taxa de juros de equilíbrio, suficiente para manter a inflação estável e a economia no pleno emprego, seria de 11%, 3,75 pontos percentuais abaixo da atual.

Quando o presidente Donald Trump anunciou seu tarifaço histórico de 50%, em abril do ano passado, Cervone sugeriu que o nível da Selic representava um “fogo amigo” adicional contra as exportações brasileiras. O peso dos juros seria uma “tarifa extra” para os produtos nacionais vendidos no exterior. O tarifaço foi atenuado, mas o “fogo amigo” mantém-se até hoje, somando-se ao da guerra.

Não há, felizmente, silêncio total do empresariado do setor produtivo sobre o massacre dos juros no país. Sem muito espaço na mídia, que ouve mais as lideranças do mercado financeiro, algumas vozes constantes alertam para o “sofrimento” da indústria. Cervone é uma delas. Em março, quando o IBGE divulgou os dados do PIB de 2025, ele observou que a indústria teve uma queda de produção de 0,2% no ano passado, o que seria um “agudo sinal de alerta” a merecer atenção das autoridades, tanto dos responsáveis pela política fiscal quando da monetária.

Cervone animou-se quando Gabriel Galípolo assumiu o Banco Central, em janeiro do ano passado, na esperança de que ele encontrasse “um patamar mais equilibrado e civilizado para a taxa de juros”. Deve estar frustrado.

Em meio aos impactos das guerras de Trump, na semana passada, Galípolo exaltou a cautela do BC na condução da política monetária. Cautela é sempre necessária, em qualquer situação, mas não pode ser confundida com omissão. Com ou sem guerras, os juros brasileiros estão fora de lugar e, mesmo elevados até a lua, não podem fazer milagres, como resolver choques de oferta vindos do longínquo estreito de Ormuz

 

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