terça-feira, 14 de abril de 2026

O roteirista está incontrolável, por André Borges

Folha de S. Paulo

No novo episódio que flerta com o surreal, ex-diretor da Abin é preso pelo serviço de imigração dos EUA

Novas peripécias de Daniel Vorcaro e sua turminha do barulho certamente vão agitar a sua sessão da tarde

Ninguém segura o roteirista. Está sem limites. No novo episódio que flerta com o surreal, o ex-diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) Alexandre Ramagem (PL-RJ) é detido pelo ICE, o serviço de imigração dos Estados Unidos. Considerado foragido da Justiça brasileira, o ex-deputado cassado cai na malha trumpista que deporta imigrantes ilegais.

Um olhar desatento pode até sugerir que o escrevinhador perdeu a mão, que exagera no pastelão, mas basta lembrar que, em dezembro, Silvinei Vasques, ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal, foi preso em Assunção, no Paraguai, quando tentava embarcar num voo para El Salvador usando um passaporte falso.

De cara e cabelos novos, dizia se chamar Julio Eduardo Baez Fernandez e que viajava para tratamento de saúde. Levava uma carta em espanhol com prescrição médica, onde afirmava que não falava, nem ouvia, "em razão de uma condição médica grave".

O despautério do roteirista chega a fazer com que se esqueça de seus arroubos mais recentes. Já parece um causo distante o episódio de novembro passado, quando Jair Bolsonaro (PL) atentou contra a sua tornozeleira eletrônica usando um ferro de solda. Flagrado pela Polícia Federal, alegou, num desvario, que fez aquilo por "curiosidade".

Num talento inesgotável para a tragicomédia, o roteirista também mostra que não é escritor de uma obra só. Chega dessa história clichê de fugir para os EUA com joias das Arábias, de montar missão secreta para recuperar diamantes, de se esconder na Embaixada da Hungria ou falsificar cartão de vacina.

Aí estão os episódios diários das "Mil e Uma Noites de Vorcaro" e sua trupe, para provar que "as novas peripécias dessa turminha do barulho vão agitar a sua sessão da tarde". Muitas sessões.

Não é à toa que tem gente que não confia mais nas instituições da República. Alguns já decidiram chamar ETs com o celular para ver se dão um jeito nessa confusão. O roteirista morre de rir. De tédio, ninguém morre.

 

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