terça-feira, 14 de abril de 2026

Bagunça de modais elétricos corre solta nas metrópoles, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Não há regulação, fiscalização ou campanhas educativas

Depois de tragédia no Rio, quase nada mudou nas ruas

"Ciclovias, ruas e calçadas são espaços anárquicos, onde motos, bicicletas e autopropelidos —patinetes e motinhas elétricas de rodas pequenas, muitas das quais usadas por adolescentes e marmanjões descuidados— disputam centímetros com outros veículos e com pedestres de olhos arregalados de atenção e medo."

É um trecho de coluna publicada neste espaço no início de março. No fim daquele mês, a geógrafa Emanoelle de Farias e seu filho de 9 anos morreram atropelados numa bicicleta elétrica por um ônibus. O acidente ocorreu no Rio, mas grandes cidades brasileiras vivem no limite da tragédia.

Dados do Ministério da Saúde mostram que, até julho de 2025, o SUS registrou mais de 127 mil internações por acidentes de trânsito envolvendo 98 mil motociclistas, 19 mil pedestres e mais de 10 mil ciclistas. Juntos, eles representam 77,4% dos casos graves. Entre janeiro e setembro de 2025, foram 1.992 mortes de motociclistas, 916 de pedestres e 258 de ciclistas. Em paralelo às estatísticas macabras surge a expansão dos modais elétricos, saudável alternativa ao transporte público deficiente, mas que se dá sem regulação nacional, sem fiscalização e sem campanhas educativas.

A bagunça corre solta e será difícil de arrumar. Sob o impacto das mortes de mãe e filho, a Prefeitura do Rio de Janeiro publicou um decreto endurecendo as regras: o uso de capacete é obrigatório para ciclomotores, bicicletas elétricas e autopropelidos (como patinetes), que estão proibidos de circular em vias com velocidade máxima superior a 60 km/h; exige-se emplacamento e carteira de habilitação a ciclomotores. O prefeito Eduardo Cavaliere, que substitui Eduardo Paes, anunciou a implantação de novas ciclovias na cidade, promessa de mais 50 quilômetros até 2028.

Nos dias seguintes à publicação do decreto, quase nada havia mudado nas ruas. Dei uma volta na orla e flagrei as bandalhas de sempre: pessoas sem capacete trafegando na contramão, homens levando crianças ou mulheres na garupa, motinhas acelerando ao máximo nas ciclovias.

 

 

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