Folha de S. Paulo
Não há regulação,
fiscalização ou campanhas educativas
Depois de tragédia no
Rio, quase nada mudou nas ruas
"Ciclovias, ruas
e calçadas são espaços anárquicos, onde motos, bicicletas e autopropelidos
—patinetes e motinhas elétricas de rodas pequenas, muitas das quais usadas por
adolescentes e marmanjões descuidados— disputam centímetros com outros veículos
e com pedestres de olhos arregalados de atenção e medo."
É um trecho de coluna publicada neste espaço no início de março. No fim daquele mês, a geógrafa Emanoelle de Farias e seu filho de 9 anos morreram atropelados numa bicicleta elétrica por um ônibus. O acidente ocorreu no Rio, mas grandes cidades brasileiras vivem no limite da tragédia.
Dados do Ministério
da Saúde mostram que, até julho de 2025, o SUS registrou mais de 127 mil
internações por acidentes de trânsito envolvendo 98 mil motociclistas, 19 mil
pedestres e mais de 10 mil ciclistas. Juntos, eles representam 77,4% dos casos
graves. Entre janeiro e setembro de 2025, foram 1.992 mortes de motociclistas,
916 de pedestres e 258 de ciclistas. Em paralelo às estatísticas macabras surge
a expansão dos modais elétricos, saudável alternativa ao transporte público
deficiente, mas que se dá sem regulação nacional, sem fiscalização e sem
campanhas educativas.
A bagunça corre solta
e será difícil de arrumar. Sob o impacto das mortes de mãe e filho, a Prefeitura do
Rio de Janeiro publicou um decreto
endurecendo as regras: o uso de capacete é obrigatório para
ciclomotores, bicicletas elétricas e autopropelidos (como patinetes), que estão
proibidos de circular em vias com velocidade máxima superior a 60 km/h;
exige-se emplacamento e carteira de habilitação a ciclomotores. O prefeito
Eduardo Cavaliere, que substitui Eduardo Paes, anunciou a implantação de novas
ciclovias na cidade, promessa de mais 50 quilômetros até 2028.
Nos dias seguintes à
publicação do decreto, quase nada havia mudado nas ruas. Dei uma volta na orla
e flagrei as bandalhas de sempre: pessoas sem capacete trafegando na contramão,
homens levando crianças ou mulheres na garupa, motinhas acelerando ao máximo
nas ciclovias.
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