sábado, 11 de abril de 2026

Uma lenda viva, uma lenda Maya, por Ivan Alves Filho*

Estados Unidos, 1928. Aos três anos de idade, ela foi colocada em um trem de St. Louis para Arkansas, juntamente com o irmão, um ano mais velho, e enviada para a casa dos avós. Aos oito anos, foi estuprada pelo namorado de sua mãe. No seu depoimento, ela mentiu, dizendo que o fato terrível ocorreu apenas uma vez, quando na verdade aconteceu várias vezes. O homem foi condenado a somente um ano de cadeia, mas permaneceu um dia na prisão. Solto, seria assassinado pouco tempo depois. 

Como ela havia pronunciado o nome do seu estuprador diante das autoridades policiais, passou cinco anos sem falar, completamente muda, pois achava que a palavra poderia matar uma pessoa: “pensei que a minha voz o havia matado”, observou mais tarde. 

Retomou o gosto pela palavra por intermédio das leituras, ao retornar à casa da avó. Aos 17 anos de idade, ela engravidou. Para sobreviver, se prostituiu. Mais adiante, trabalhou como cozinheira. Casou-se com um grego, sendo muito raro em seu país, àquela época, o matrimônio entre um branco e uma negra. Tendo se separado, tornou-se bailarina e excursionou pela Europa, integrando o elenco de "Porgy & Bess", a primeira ópera negra. 

Na volta, estabelece-se em Nova Iorque, ligando-se a um sindicato de escritores negros. Conheceu o romancista e ensaísta James Baldwin e o pastor Martin Luther King, este último em 1960. Em seguida, optou por visitar a África, apoiando os movimentos de libertação nacional que se formavam naquele continente. Viajando pelo Egito e fixando residência em Gana, faz amizade com Malcom X. O ativista a convida para trabalhar com ele nos Estados Unidos, auxiliando-o na luta pelos direitos dos negros norte-americanos. Assim, em 1965, ela volta ao seu país, mas, neste mesmo ano, Malcom X é assassinado. 

Integrada ao movimento cívico organizado por Luther King, tem um grande choque, quando este, por seu turno, é assassinado, em 1968, exatamente no dia em que ela completaria 40 anos de idade. 

Convencida por James Baldwin de que sua vida daria um livro, passou dois anos escrevendo uma espécie de autobiografia precoce. Refugia-se em um hotel, um hábito que contraiu ao longo de toda sua vida, dando início a uma série de seis livros em torno de sua existência. Publicaria mais tarde vários volumes de poesia e escreveu peças de teatro, livros infantis, atuando paralelamente como cantora, compositora e atriz. Na política, apoiou Hillary Clinton e foi condecorada por Barack Obama. 

Maya Angelou, a autora de Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, morreu logo após completar 86 anos de idade, em 2014. Era uma força da natureza – e uma lenda viva.   

*Ivan Alves Filho, historiador

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