No plano global, vemos um Trump déspota oferecer
ao mundo tempos obscuros e de instabilidade permanente. Às vezes, se
assemelhando à uma criança jogando WAR, ameaçando invadir a Groelândia e Cuba,
anexar o Canadá, ridicularizando os parceiros europeus que compartilham a OTAN,
sequestrando o ditador venezuelano em seu território nacional, atropelando o
Congresso americano e a Suprema Corte, entupindo suas redes sociais com falas e
bravatas intolerantes e violentas. Nesta semana, os limites foram rompidos com
a supostamente devastadora ameaça, com hora marcada, de exterminar a secular
civilização persa e a população iraniana, caso o Estreito de Ormuz não fosse
imediatamente liberado. Mais uma vez, teve que recuar
“O Horizonte” nos transporta para um outro
universo. Dois estadistas, ex-presidentes do Uruguai, um liberal, outro
socialista, dialogando de forma profunda, respeitosa, democrática, densa, lúcida
sobre os mais diversos temas da vida. Conversam sobre tudo: política, economia,
filosofia, história, destinos do Uruguai, futuro do mundo, família,
administração pública, desafios contemporâneos, entre outros assuntos. O
experiente e extremamente preparado Julio María Sanguinetti foi presidente do
Uruguai em dois mandatos (1985-1990, 1995-2000) pelo Partido Colorado,
organização de centro-direita. Foi ele que anistiou José Mujica por sua
militância nos Tupamaros, organização guerrilheira de resistência à ditadura.
Pepe Mujica presidiu o país de 2010 a 2015, tendo se candidatado pela Frente
Ampla, movimento progressista de esquerda. Tornou-se uma referência internacional
por seu carisma, simplicidade e profundidade de suas reflexões.
Impossível reproduzir aqui a riqueza do
diálogo entre os dois estadistas uruguaios, de correntes ideológicas
diferentes, nos seis encontros promovidos pelos jornalistas organizadores.
Neles, apesar das eventuais divergências políticas, dão sucessivas mostras de
carinho pessoal e respeito.
Deixo
apenas duas passagens que encarnam a sabedoria dos dois e o conteúdo do livro.
A certa altura, disse Sanguinetti: “O erro é acreditar que a democracia é um
sistema perfeito e, em segundo lugar, achar que a democracia garante um bom
governo, porque isso depende dos cidadãos. O que a democracia garante é a
liberdade de nos livrarmos de um governo de que não gostamos por meio de um
método pacífico”. Em outro trecho, Pepe Mujica revela sua visão de vida: “Para
mim, a frugalidade é uma maneira de viver (...). Porque se eu deixar que as
necessidades se multipliquem ao infinito, tenho que viver para cobrir essas necessidades
e não me sobra tempo para fazer as coisas que me motivam (...). Pobre é quem
precisa de muito”.
Para quem gosta da boa política, vale muito a leitura.

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