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Sob Donald Trump, os EUA experimentam um
rápido declínio de sua liderança global
“Tivemos um bom período – cerca de oito décadas –, mas agora está claro que os Estados Unidos deixaram de ser os líderes do mundo livre.” A avaliação foi publicada em 24 de março pelo colunista do The New York Times Carlos Lozada, autor do livro The Washington Book: How to Read Politics and Politicians. Um de seus argumentos é de que parte do que diferentes governos norte-americanos tentaram realizar, ao longo de décadas, foi preservar um recurso essencial, a legitimidade internacional. Lozada conclui o artigo com um alerta: “Podemos estar entrando em um mundo pós-norte-americano, um mundo no qual o significado da América, os princípios e valores que o país sempre representou – às vezes na realidade, às vezes em aspiração – estão desaparecendo”. Mais: “A perda dessa América pode provar-se tão prejudicial, e muito mais duradoura, do que qualquer dano que as incursões de Donald Trump possam causar”.
Não se trata de uma avaliação isolada.
Levantamentos revelam que, de fato, Trump se transformou num passivo para os
EUA no mundo. Uma pesquisa realizada pela Gallup em 130 países constatou que o
mundo não confia mais na Casa Branca para liderar absolutamente nada. De
acordo com a enquete, a imagem dos Estados Unidos como atores centrais vive
hoje um dos momentos de mais baixa popularidade no mundo inteiro.
Em 2009, um pouco menos da metade dos
entrevistados (49%), em mais de cem países, dizia confiar no governo
norte-americano, naquele momento comandado por Barack Obama. Em 2016, a taxa
era de 46%. Um primeiro abalo ocorre em 2017, com a chegada de Trump ao poder.
A vitória de Joe Biden, quatro anos depois, recupera em parte a credibilidade
internacional dos EUA, mas em patamares mais baixos, e, ao longo dos anos,
envereda por uma pequena, mas contínua queda.
Agora, com o comportamento errático de Trump,
ofensas contra outros chefes de Estado, ruptura de alianças, os ataques a
culturas diferentes, a difusão incansável de mentiras e o constante belicismo,
a popularidade norte-americana mundo afora voltou a desabar. Hoje, apenas
31% dos entrevistados dizem confiar em Washington, ante uma taxa de 36%
favorável aos chineses. Em 2024, a taxa de popularidade da liderança
norte-americana era de 39%. Se Trump prometeu que, com ele, os EUA
voltariam a ser “respeitados em todo o mundo”, sua ingerência em assuntos
domésticos, sequestros e mortes de adversários enterraram sua credibilidade.
A pesquisa também revela que nunca a
liderança norte-americana atingiu um grau tão elevado de desaprovação
internacional: 48%.
A aprovação caiu 10 pontos porcentuais ou
mais em 44 países, entre 2024 e 2025. Não por acaso, as quedas mais bruscas
concentraram-se entre os aliados dos EUA, incluindo muitos parceiros da Otan A
Alemanha liderou o mundo em sua desaprovação. A queda foi de 39 pontos
porcentuais, seguida de perto por Portugal, com redução de 38 pontos porcentuais.
Vários outros parceiros de longa data dos EUA, entre eles Canadá, Reino Unido e
Itália, igualmente apresentaram um processo substancial de abandono da
confiança. A única exceção entre os aliados dos EUA foi registrada em Israel,
onde a popularidade da liderança norte-americana subiu mais de 10 pontos
porcentuais. Hoje, 76% dos israelenses dizem apoiar Trump.
Para os autores do levantamento, a mudança na
percepção da liderança dos EUA nas últimas duas décadas reflete “um mundo que
caminha para uma ordem mais multipolar”. “Muitos países, especialmente aliados
dos EUA, podem estar mais abertos a equilibrar as relações entre as grandes
potências do que a se alinhar claramente com uma só”, destacaram. “Para os
formuladores de políticas em alguns países aliados, isso pode tornar o
alinhamento com os EUA mais delicado politicamente, mesmo que o engajamento com
a China pareça um pouco mais aceitável. Para empresas e investidores, sinaliza
um ambiente menos previsível, em que o sentimento público pode moldar o acesso
ao mercado, à regulamentação e às parcerias.”
Por qualquer critério concreto de poder, não
há ninguém que ainda possa superar os EUA no cenário internacional. Com mais de
700 bases pelo mundo e um orçamento militar recorde para 2027 de 1,5 trilhão de
dólares, o país continua a deter um poderio bélico incomparável. Sua economia
ainda é a maior do mundo. Mas, durante décadas, a verdadeira vantagem
estratégica dos EUA também residia em uma espécie de autoridade
moral. Hoje, ela sofre abalos inéditos a cada postagem nas redes sociais,
a cada ofensa e mentiras proclamadas por Trump, a cada míssil disparado e a
cada sinalização de que, em decadência, a Casa Branca deixou de ser um ator
confiável.
Publicado na edição n° 1408 de CartaCapital, em 15 de abril de 2026.

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