O trecho de Balzac também se poderia relacionar com a expressão "ópio do povo", empregada na Crítica da filosofia do direito de Hegel, em 1844 (verificar a data), cujo autor foi um grande admirador de Balzac: "Tinha uma tal admiração por Balzac que se propunha escrever um ensaio crítico sobre a Comédia Humana", escreve Lafargue em suas recordações de K.M. publicadas na conhecida coletânea de Riazanov (p. 114 da edição francesa). Nestes últimos tempos (talvez em 1931) foi publicada uma carta inédita de Engels em que se fala difusamente de Balzac e da importância cultural que lhe deve ser atribuída.
É provável que a passagem da expressão "ópio da miséria", usada por Balzac acerca da loteria, à expressão "Ópio do povo" acerca da religião tenha sido ajudada pela reflexão sobre o pari de Pascal, que aproxima a religião do jogo de azar, das apostas. Deve-se recordar que justamente em 1843 Victor Cousin identificou o manuscrito autêntico de Os Pensamentos de Pascal, editados pela primeira vez em 1670 por seus amigos de Port-Royal, com muitas incorreções, e reeditados em 1844 pelo editor Faugère a partir do manuscrito identificado por Cousin. Os Pensamentos, em que Pascal desenvolve o argumento do pari, são os fragmentos de uma Apologia da religião cristã que Pascal não levou a cabo. Eis a linha do pensamento de Pascal (segundo G. Lanson, História da literatura francesa, 194 ed., p. 464): "Os homens nutrem desprezo pela religião, têm ódio e medo de que ela seja verdadeira. Para remediar isso, é preciso começar por mostrar que a religião não é de modo algum contrária à razão; em seguida, que ela é venerável, que merece respeito; torná-la, depois, amável, fazer com que os bons desejem que ela seja verdadeira, e por fim mostrar que ela é verdadeira."
Depois do discurso contra a indiferença dos ateus, que serve como introdução geral da obra, Pascal expõe sua tese da impotência da razão, incapaz de saber tudo e de saber alguma coisa com certeza, reduzida a julgar segundo as aparências dadas pelo ambiente das coisas. A fé é um meio superior de conhecimento: ela se aplica além dos limites a que pode chegar a razão. Mas, mesmo que não fosse assim, mesmo que nenhum meio houvesse para chegar a Deus, através da razão ou através de um outro caminho qualquer, na absoluta impossibilidade de saber, seria preciso operar corno se soubéssemos. Isto porque, segundo o cálculo das probabilidades, é vantajoso apostar que a é verdadeira e regular a própria vida como se ela fosse verdadeira. Vivendo de modo cristão, arrisca-se infinitamente pouco, alguns anos de prazeres conturbados (plaisir mêlé), para ganhar o infinito, a felicidade eterna. Deve-se refletir que Pascal foi muito sutil ao dar forma literária, justificação lógica e prestígio moral a este argumento da aposta, que na realidade é um modo de pensar difuso em relação à religião, mas um modo de pensar que "se envergonha de si mesmo", porque, ao mesmo tempo que satisfaz, parece indigno e baixo. Pascal enfrentou a "vergonha" (se é que se pode dizer assim, porque talvez o argumento da "aposta", hoje popular, em formas populares, derive do livro de Pascal e não se conhecesse antes) e buscou dar dignidade e justificação ao modo de pensar popular (quantas vezes se ouve dizer: "O que é que se perde indo na igreja, acreditando em Deus? Se não existir, paciência; mas, se existir, terá sido muito útil acreditar!", etc.). Este modo de pensar, mesmo na forma pascaliana do pari, tem algo de voltairianismo e lembra uma expressão de Heine: "Quem é que sabe se o Padre Eterno não nos prepara alguma bela surpresa depois da morte?", ou algo do gênero. (Ver como os estudiosos de Pascal explicam e justificam moralmente o argumento do pari. Deve haver um estudo de E E Trompeo no volume Rilegature gianseniste, em que se fala do argumento do pari em relação a Manzoni. Deve-se ver também Ruffini por causa de seu estudo sobre o Manzoni religioso (5)
De um artigo de Arturo Marescalchi, "Durare! Anche nella bachicoltura", no Corriere della Sera de 24 de abril de 1932: "Para cada meia onça de ovos investida na criação do bicho-da-seda se concorre a prêmios que vão de cifras modestas (há quatrocentos de mil liras) até vários de 10 a20 mil liras e cinco entre 25 e 250 mil liras. No povo italiano está sempre vivo o sentido de tentar a sorte; no campo, ainda hoje, não existe quem se abstenha das 'rifas' e das tômbolas. Aqui se terá grátis o bilhete que permite tentar a fortuna."
De resto, há uma estreita conexão entre a loteria e a religião, as premiações mostram que alguém foi "eleito", que alguém obteve uma graça particular de um Santo ou de Nossa Senhora. Seria possível uma comparação entre a concepção ativista da graça nos protestantes, que deu forma moral ao espírito de empreendimento capitalista, e a concepção passiva e indolente da graça própria da gente comum católica.
Observar a função que tem a
Irlanda no sentido de revigorar as loterias nos países anglo-saxões e OS protestos
dos jornais que representam o espírito da Reforma, como o Manchester Guardian.
Além disto, deve-se ver se Baudelaire, no título de seu livro Os paraísos artificiais (e mesmo no tratamento do tema), não terá se inspirado na expressão "ópio do povo": a fórmula pode ter chegado a ele indiretamente a partir da literatura política ou jornalística. Não me parece provável (mas não se pode excluir) que existisse já antes do livro de Balzac alguma expressão na qual o ópio e outros estupefacientes e narcóticos fossem apresentados como meios para gozar um paraíso artificial. (E preciso lembrar, de resto, que Baudelaire participou, até 1848, de uma certa atividade prática, foi diretor de semanários políticos e teve papel ativo nos acontecimentos parisienses de 1848.)
*Antonio Gramsci (1891-1937), Caderno 16 (1933-1934) – temas de cultura – Cadernos do Cárcere, v.4, p.15. 2ª Edição, Editora Civilização Brasileira, 2007.

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