Folha de S. Paulo
Na corda bamba sobre o abismo sem fundo da
decadência ocidental, Trump alimenta a velha voracidade capitalista por solos e
subsolos
Frágil é a trégua no Oriente Médio; certo
mesmo é que a Guarda Revolucionária do Irã sai fortalecida, com maior poder
interno
Pequena e anterior às manchetes do recuo dos EUA em seu apocalíptico ultimato, uma notícia nas redes reportava que uma bomba iraniana atingiu por acaso uma rede de esgotos israelense, inundando ruas com enxurradas de fezes. Um tópico adequado à "slopaganda" ("sloppy propaganda") iraniana, que mistura baixaria e porcaria. Provável sinal cabalístico de que o desatino bélico criado por dementes passou de porqueiro a porco. Em termos ainda mais prosaicos, a guerra deu ruim, deu "eme".
Tivesse Trump lido "A Arte da
Guerra" (Sun-Tzu), ponderaria que, "se o inimigo é superior, finja-se
de fraco, à espera da arrogância". Ou seja, à espera de visão curta. Isso
fizeram os aiatolás durante décadas, preparando-se para o conflito com o que
chamam de Grande Satã. "Shit happens", dizem os americanos, a catástrofe
moral é também olfativa. E, esteticamente, grotesca.
Essa categoria aplica-se à indecisão
ontológica entre o humano e o animalesco: o sublime contempla o sentimento
voltado para os céus, enquanto o grotesco conota partes baixas, práticas
excluídas do processo civilizatório, dejetos humanos. Indagado se a destruição
de infraestrutura civil não seria crime de guerra, disse Trump não ser o caso,
porque o povo persa era "comandado por animais". Só que, respondendo
a um jornalista sobre sua saúde mental, pôs-se a grunhir como um porco.
Demência, encenada como grotesco.
Não há maior interesse na clínica da miséria
metabólica e psicológica de Trump, nem dos aiatolás e mulás, dissociados da
milenar civilização persa e dos anseios modernizantes de seu povo. Mas o
filósofo italiano Giorgio Aganbem acha relevante refletir por que a nação tida
como mais poderosa do mundo se deixa conduzir por um indivíduo oscilante entre
narcisismo maligno e demência megalomaníaca.
A sociopatia dos teocratas iranianos
garante-se pela repressão brutal da Guarda Revolucionária. Já o etnocídio de
Netanyahu e seu governo teocrático apoia-se em fantasias derivadas do Deus
vingativo do Velho Testamento, em cordão umbilical com o Estado
norte-americano: Hegseth, secretário da Guerra, comparou o resgate do piloto
abatido sobre o Irã à
ressurreição de Cristo. E Trump postou
a si mesmo vestido de Jesus, curando um doente.
Grotescos loucos de Deus, todos eles.
Frágil é a trégua no Oriente Médio.
Certo mesmo é que a Guarda Revolucionária do Irã sai fortalecida, com maior
poder interno. Trump não ganhou nada. Na corda bamba sobre o abismo sem fundo
da decadência ocidental, alimenta a velha voracidade capitalista por solos e
subsolos: dos espaços buscados pelo neocolonialismo israelense às cobiçadas
terras raras.
Essas são as drogas e talvez a nêmese do império americano, metafísica da hiperpotência reduzida à dejeção. Na farsa fundamentalista de cavaleiro do apocalipse, Trump arroga-se ao papel de "fúria épica" da Morte, conduzida por corcel amarelo. Na realidade, fúria hípica de um grotesco ginete alaranjado a cavalo de si mesmo, arremedo mitológico do sátiro Pan, metade homem, metade bode. Pânico é o máximo que tem conseguido. "Ao vencedor, os despojos", vociferou, ainda que espojado em dejetos físicos e morais.

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