O Globo
Jovem não reconhece autoridade herdada, reage
mal à pedagogia tradicional e mostra pouca paciência
Os números chamam a atenção, mas o erro
começa quando se supõe que se explicam sozinhos. Entre jovens de 16 a 24 anos,
o presidente Lula tem 72% de desaprovação, segundo pesquisa
AtlasIntel-Bloomberg — e há quem trate o assunto como mera oscilação ou humor
das redes, embora seja pouco provável que se explique apenas por isso.
Quando uma geração se afasta do principal rosto de um campo político, a questão deixa de ser só eleitoral e passa a ser simbólica. No limite, trata-se de entender quem ocupa o lugar do futuro, onde se organiza a energia política de quem está começando a vida.
Essa geração cresceu num ambiente de
desconfiança permanente, não só sobre a política, mas sobre as instituições.
Chega à vida adulta num tempo em que a política é tratada como suspeita,
associada a escândalo, conflito e desgaste, enquanto a atividade empresarial
passa a ser vista com desconfiança generalizada, muitas vezes reduzida à ideia
de má-fé ou ilegalidade. A agenda pública ora é capturada pela polarização
algorítmica, ora anexada aos interesses do gestor de plantão, aprofundando o
distanciamento e desorganizando referências básicas de confiança.
O jovem não reconhece autoridade herdada,
reage mal à pedagogia tradicional e mostra pouca paciência para discursos que
não dialogam com a vida concreta. Passa a testar, filtrar e desconfiar de tudo,
enquanto vive uma realidade de renda instável, trabalho precário e sensação de
futuro travado.
Parte da análise pública escorrega ao
explicar o afastamento como simples virada ideológica. A ideia de migração
automática para a direita pode confortar alguns diagnósticos, mas não dá conta
da complexidade do fenômeno, em que o mais evidente não é adesão plena a outro
campo, e sim um deslocamento de confiança em relação ao que já está posto.
Essa mudança exige outro tipo de resposta,
que não se resolve com troca de slogan, ajuste estético ou tentativas
artificiais de falar a língua do jovem. O problema é mais profundo e envolve
presença, experiência e pertencimento — dimensões que só se consolidam quando a
política deixa de ser discurso e passa a ser vivida no cotidiano.
Em diversos espaços, surgem experiências que
ajudam a entender o momento por operarem na vida real, e não só na narrativa.
São iniciativas simples na forma, mas com impacto concreto, construídas com
presença, acompanhamento cotidiano e participação efetiva de quem vive o
território, sem escuta protocolar ou participação decorativa.
A comunicação então deixa de ser peça e passa
a ser voz; a representatividade deixa de ser simbólica e se transforma em poder
concreto; e a política deixa de ser anúncio para se tornar experiência. Isso
altera a percepção: em vez de perguntar se é de direita ou de esquerda,
passa-se a avaliar se funciona e melhora a vida.
Ao mesmo tempo, consolida-se uma crise
geracional de identificação com referências políticas tradicionais, somada à
dificuldade crescente dos veículos de comunicação em produzir leitura crítica
com profundidade. Muitas vezes, eles reproduzem o enredo dominante, com pouca
abertura a reflexões e contradições. Isso reforça a sensação de repetição e
gera desconfiança entre essa geração.
O que está em disputa hoje, portanto, não é
só o voto, mas o significado e a capacidade de ocupar, de forma concreta, o
imaginário do futuro — um espaço que já não está garantido para ninguém.

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