Folha de S. Paulo
A ideia de uma autocratização global
generalizada não se sustenta empiricamente
Um dos críticos é o próprio arquiteto
intelectual do projeto V-Dem
O "Democracy Report 2026" do V-Dem tem gerado grande controvérsia —não apenas externa, mas também interna. Quatro dos cinco investigadores principais —inclusive o idealizador do projeto, Michael Coppedge— afirmam "não endossar parte das análises sobre a extensão do recente declínio global da democracia", consideradas "exageradas, pouco nuançadas" e marcadas por "linguagem inflada".
Aqui na coluna, destaquei
reiteradamente alguns desses problemas. O rebaixamento descabido de
Portugal e Canadá de democracias liberais para eleitorais reaparece agora no
caso do Reino Unido, assim como o uso de índices ponderados pela população.
(Sim, o próprio V-Dem publicou algo próximo a um mea culpa sobre a narrativa de
uma recessão democrática global!). Argumentei que a deterioração dos índices
refletia, em parte, a expansão da democracia para "lugares
difíceis", onde a
probabilidade de reversão é maior —países muito pobres e/ou sem
tradição democrática, nos quais, por construção, é mais provável observar
quedas do que melhorias.
Ainda assim, o tom alarmista persiste, e a
ideia de uma autocratização global generalizada não se sustenta empiricamente.
Como mostram os próprios investigadores citados, os escores de democracia
liberal (LDI) para 175 dos 179 países (98%) oscilaram dentro da margem de erro.
De 2024 a 2025, a média global do Índice de Democracia Eleitoral (EDI) caiu
marginalmente, de 0,485 para 0,483. Além disso, a ponderação por população
distorce a leitura de tendências globais: o estado da democracia no mundo não
se altera substantivamente porque há retrocesso em um país muito populoso, como
a Índia. De 2012 a 2022, a média não ponderada do LDI caiu 0,03 (de 0,53 para
0,50), enquanto a versão ponderada por população despencou 0,13 (de 0,54 para
0,41). Excluída a Índia, essa queda ponderada é de 0,05.
Sim, o caso dos EUA —dada sua importância—
enviesa a percepção pública das tendências globais. De fato, o EDI caiu de 0,84
para 0,74, e o LDI, de 0,75 para 0,57, o maior declínio anual da história do
país. Essa deterioração está associada à redução da liberdade de imprensa, à
menor capacidade de controle do Congresso sobre o Executivo, à erosão da
independência judicial e ao enfraquecimento do Estado de Direito e das
liberdades civis. Ainda assim, indicadores relativos à integridade eleitoral,
liberdade de associação e sufrágio permaneceram estáveis, o que explica por que
a queda no EDI foi menos acentuada do que no LDI. Esse padrão se repete em
outros países, onde a integridade eleitoral se manteve relativamente estável,
com quedas concentradas em liberdade de expressão e organização. O rebaixamento
dos EUA a níveis comparáveis a 1965 é, portanto, exagerado e consistente
com vieses já identificados no V-Dem.
À primeira vista, o principal foco de
preocupação deveria recair sobre golpes de Estado. Contudo, esses episódios
—apenas sete no total— concentram-se nos "lugares difíceis", onde são
recorrentes (Sahel e Sudeste Asiático), e não correspondem a casos típicos de
backsliding associados à erosão gradual promovida por incumbentes, como
observado em outros contextos. Por se tratar de fenômenos analiticamente
distintos, não faz sentido enfatizá-los para sustentar conclusões gerais sobre
a erosão democrática.

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