Valor Econômico
Há um movimento de diversificação de recursos dos EUA para países como o Brasil, o petróleo caro melhora os termos de troca e os juros continuam nas alturas
O real tem se fortalecido em relação ao dólar neste ano, como se vê no câmbio na casa de R$ 5. O cenário externo, embora conturbado, tem favorecido a moeda brasileira. Há um movimento de diversificação de recursos dos EUA para países como o Brasil, o petróleo caro melhora os termos de troca (relação entre preços de exportação e de importação) do país e os juros por aqui continuam nas alturas, estimulando operações para aproveitar a diferença entre as taxas externas e internas. Para completar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem perdido força nas pesquisas, o que boa parte do mercado vê como um sinal de que pode haver uma mudança na política econômica a partir de 2027, com mais ênfase no ajuste das contas públicas.
Na sexta-feira, a moeda americana fechou em
R$ 5,01, em queda de 8,5% no acumulado do ano. Num momento de piora
considerável das projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo
(IPCA), por causa da alta dos preços de combustíveis e de alimentos, essa
valorização do câmbio é bem vinda, aliviando parte das pressões inflacionárias,
ainda que a maior parte dos analistas não veja a moeda na casa de R$ 5 ao longo
do ano - no segundo semestre, a proximidade do pleito presidencial e o eventual
aumento das incertezas sobre as contas públicas podem pressionar o real.
Por enquanto, porém, o real tem se apreciado,
testando um nível que a maior parte dos analistas não imaginava ser possível
num ano marcado por um ambiente internacional volátil e por eleições. O câmbio
mais valorizado ajuda a mitigar a alta dos preços de bens industriais e de
parte dos alimentos. Com a disparada das cotações do petróleo, os preços do
diesel e da gasolina subiram com força em março, contribuindo para a alta de
0,88% do IPCA no mês. O aumento dos combustíveis também pressiona os alimentos,
por encarecer o custo do frete. Nesse novo ambiente, as estimativas para o IPCA
de 2026 subiram para perto de 5%, acima do teto da banda de tolerância da meta,
de 4,5%. Além disso, um indicador mais alto neste ano contamina as expectativas
para o IPCA do ano que vem, devido à maior inércia, o fenômeno pelo qual a
inflação passada alimenta a futura.
O quadro poderia ser ainda pior se o câmbio
não tivesse se valorizado. O real apreciado segura aumentos mais fortes das
projeções para o IPCA. De qualquer modo, o novo cenário para a inflação levou a
uma revisão considerável do ciclo de queda da Selic, hoje em 14,75% ao ano. Se
antes havia a expectativa de que os juros poderiam cair para 12% a 12,5% no fim
do ano, a aposta hoje é de que a taxa recuará menos, para a casa de 13,5%.
O espaço para a queda da Selic pode
eventualmente aumentar, caso o dólar se mantenha em torno de R$ 5 ao longo do
ano. Esse, contudo, não é o cenário base da maior parte dos analistas. A XP,
por exemplo, cortou a previsão do dólar neste ano, mas de R$ 5,60 para R$ 5,30,
acima dos cerca de R$ 5 do fechamento da sexta-feira. “Ainda acreditamos que o
período de incertezas eleitorais levará a aumento do prêmio de risco sobre a
taxa de câmbio no segundo semestre”, escreve a economista Luíza Pinese, da XP.
“Prevemos a taxa de câmbio em R$ 5,40 no final de 2027, em linha com a premissa
de medidas fiscais insuficientes para promover um ajuste estrutural nas contas
públicas”, diz ela. No curto prazo, porém, há motivos para um dólar mais barato
- na média de 2026, deve ficar em R$ 5,20, segundo a XP.
Ao tratar dos fatores que levaram à revisão
do câmbio no fim deste ano de R$ 5,60 para R$ 5,30, a economista da XP nota que
“o ambiente global tem se mostrado favorável aos ativos financeiros
brasileiros”, mesmo com o acirramento das tensões no Oriente Médio. As
incertezas causadas pelas políticas do presidente dos EUA, Donald Trump, têm
levado os investidores a realocar parte de seus recursos para outros mercados,
como o Brasil, onde a bolsa têm avançado com força.
“O Brasil é percebido como um ‘vencedor
líquido’ em cenários de alta nos preços do petróleo bruto, o que, somado à
rotação de fluxos globais para mercados emergentes, deve sustentar a moeda em
patamares apreciados”, escreve ela, que revisou a projeção para o saldo
comercial neste ano de US$ 68,4 bilhões para US$ 85 bilhões. “Incorporamos em
nosso cenário uma cotação média de petróleo mais elevada neste ano, de US$ 60
para US$ 90 por barril do tipo Brent. Como a balança comercial de petróleo
representa cerca de 45% do saldo total, os novos patamares de preços impactam
de forma relevante nossas previsões”, diz Luíza Pinese.
Há também os juros elevados, na casa de 10%
quando se desconta a inflação projetada para os próximos 12 meses. Isso também
ajuda a explicar a valorização do real, porque parte dos investidores aplica os
seus recursos em reais, aproveitando a elevada diferença entre as taxas
externas e internas.
Por fim, o resultado de pesquisas eleitorais
recentes, mostrando perspectivas mais complicadas para Lula, também tem alguma
influência no comportamento do câmbio. Na visão de parte dos investidores, isso
eleva as chances de mudanças no rumo da política fiscal a partir de 2027,
embora alterações na condução das contas públicas também dependam do Congresso
e do Judiciário.
Essa combinação de fatores, em resumo, tem
levado ao fortalecimento do real. Hoje, a provável abertura tensa dos mercados
globais, após o fracasso das negociações entre EUA e Irã, pode colocar alguma
pressão sobre as moedas emergentes como o real. No entanto, a realocação de
recursos de parte dos investidores globais para mercados como o Brasil, a alta
dos preços do petróleo e o nível da Selic tendem a manter o real valorizado no
curto prazo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário