O Estado de S. Paulo
Risco à democracia não está só em presidentes fortes, mas em poderes que atuam sem limites
Durante muito tempo, o principal problema das
democracias latino-americanas parecia claro: presidentes fracos, incapazes de
governar, reféns de sistemas partidários fragmentados e de Legislativos
indisciplinados. A consequência recorrente eram crises, paralisia decisória e,
em casos extremos, rupturas institucionais.
A resposta a esse diagnóstico foi fortalecer o Executivo. Ao longo das últimas décadas, diversos países ampliaram os poderes presidenciais, conferindo aos chefes de governo mais instrumentos para aprovar políticas, coordenar coalizões e superar bloqueios. A aposta era simples: presidentes mais fortes significariam governos mais eficazes – e, portanto, democracias mais estáveis.
Mas essa solução trouxe um novo risco.
Presidentes fortes também podem se tornar dominantes. Com mais poder
institucional à disposição, cresce a tentação de contornar ou enfraquecer
mecanismos de controle, como tribunais e parlamentos. A mesma força que garante
governabilidade pode, se mal calibrada, abrir caminho para o abuso.
Há, porém, um segundo risco. Instituições de
controle também podem sair do controle. Quando tribunais, Supremas Cortes ou
seus membros passam a agir de forma discricionária, politizada ou desviante,
deixam de atuar como freios e passam a se tornar atores com agendas próprias,
cor
Risco à democracia não está só em presidentes
fortes, mas em poderes que atuam sem limites
roendo a previsibilidade e a legitimidade do
sistema.
O problema, portanto, não é apenas conter o
Executivo, mas garantir que os próprios mecanismos de controle também sejam
controlados. Democracias podem se fragilizar tanto pelo excesso de poder
concentrado quanto pelo exercício arbitrário de poder por parte de quem deveria
limitá-lo.
O debate recente tem enfatizado o perigo do
Executivo forte. No entanto, isso deixa uma pergunta central em aberto: se esse
risco é tão evidente, por que tantas democracias conseguem resistir?
A resposta está menos no tamanho do poder
presidencial e mais na qualidade das instituições que o cercam. Democracias
resilientes não são aquelas com presidentes fracos, mas aquelas capazes de
impor limites críveis – ao Executivo e também aos próprios órgãos de controle.
Executivos precisam ser suficientemente
poderosos para governar, mas não a ponto de subjugar os mecanismos de controle.
Cortes precisam ser independentes, mas não a ponto de legitimar comportamentos
desviantes de seus membros.
A estabilidade democrática depende, assim, de
um equilíbrio delicado: força com limites. Mais do que temer presidentes
fortes, o verdadeiro desafio é disciplinar o poder – em todas as suas formas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário