
Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os
EUA respondem por algo como 80 intervenções militares em outro tanto de países,
até então soberanos. Tudo em nome de uma farisaica “defesa da democracia”, disfarce
da disputa estratégica com a URSS. O ponto de partida
dessa fase do imperialismo, que guarda rigorosa coerência com sua história,
desde a formação colonial até nossos dias, foi dado pelo que se passou a chamar
de “Doutrina Truman” (1947), porque proclamada pelo presidente que
lançara duas bombas atômicas sobre as populações civis de Hiroshima e
Nagasaki, quando a guerra já estava perdida pelo Japão. Ela estabelecia o
princípio do containment do comunismo, com apoio político, econômico
e militar a países de sua órbita. O Plano Marshall de reconstrução da
Europa Ocidental, do mesmo ano, fornece a base econômica. A doutrina militar se
corporifica na OTAN, criada em 1949. Seu alvo era a defesa coletiva
contra a URSS. São os três pilares sobre os quais se assentará a estratégia
global dos EUA no pós-guerra.
Sua primeira intervenção remonta a 1947, no apoio militar à monarquia grega —
fustigada pela guerrilha republicana de esquerda — e à Turquia, carente de
apoio para conservar sua soberania sobre os estreitos de Bósforo
e Dardanelos, quando a URSS reivindicava o direito de acesso ao mar
Mediterrâneo.
Mas as bases ideológicas da Guerra Fria, dos tempos de confronto com a URSS,
comandada no lado ocidental pelos EUA, já haviam sido formuladas por Winston Churchill
em discurso no Westminster College (1946): “De Stettin, no
Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o
continente.” Era o início de uma política intervencionista global, e a
justificativa para ingerência em outros países.
A Guerra Fria toma a forma de confronto universal à “ameaça comunista” (que
muitos milhões de dólares rendeu à indústria da guerra), implicando a missão de
fazer face a todas as formas de luta social e às guerras de libertação nacional
que iluminavam o mundo subdesenvolvido. O papel dos EUA, isoladamente ou
comandando a OTAN, aliados de sempre ou aliados de ocasião, passa a ser o de
contrarrevolucionário, e, para desempenhá-lo, se tornam a principal guarda do
colonialismo retardatário, contra o qual firmara, lá atrás, em1823, a
defesa continental (a “América para os americanos”), que, nominalmente dizendo não a
novas intervenções europeias nas Américas, terminou reinterpretada como a
doutrina da hegemonia estadunidense, servindo de base ideológica para
intervenções na América Latina, seja no século XX, seja no século XXI.
O fato objetivo é que se tratava (esquecidas, como se verá, quaisquer
preferências entre ditaduras e democracias) de conter a URSS, que se
apresentava ao mundo como potência militar após o sucesso na guerra contra o
Eixo. Apresentar-se ao mundo era ocupar o espaço que entendia como seu.
Finda uma guerra, começam outras.
As intervenções por procuração, as sabotagens, o apoio político e a ajuda
militar e econômica às insurgências de direita não mais cessariam, e logo se
espalham por todos os continentes, de par com a intervenção militar direta. Os
EUA se fazem atores globais do confronto. A nova grande guerra é uma
constelação de conflitos de toda ordem, políticos, econômicos, diplomáticos e
militares, à sombra do guarda-chuva nuclear das duas superpotências, que ao
menos tiveram o bom senso de evitar o suicídio coletivo.
De princípio, o método corretivo foram as intervenções pontuais, que acima
nomeamos como operadas “por procuração”, levadas a cabo por governos títeres ou
pela OTAN. Sem que esse artifício seja descartado, logo
se impõe a ação direta, espécie que chega aos nossos dias na Venezuela, em Gaza
e no Irã, nos dois últimos casos com a participação direta do sionismo. Agora
mesmo, Washington reclama de seus aliados europeus a ausência no campo de
batalha de uma guerra que Trump e seus cúmplices ainda não
souberam explicar.
A folha corrida de crimes de guerra é extensa, percorre o mundo, conhece o
Panamá, a Guerra do Golfo, a guerra contra o Iraque, as guerras do
Kosovo, do Afeganistão, da Síria e da Líbia. Todas, guerras norte-americanas.
Por razões óbvias, é indisponível a estatística das sabotagens, dos
assassinatos e dos golpes de Estado intentados e levados a cabo, quase sempre
com sucesso, pelos serviços secretos dos EUA em todo o mundo nesse mesmo
período. Contra a vida do líder cubano Fidel Castro, estima-se que a CIA tenha
atentado ao menos 638 vezes.
As análises disponíveis estimam um mínimo de 80 intervenções conhecidas,
percorrendo todos os continentes. As mais relevantes são o golpe de
Estado no Irã, com a derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh,
abrindo caminho para o absolutismo da dinastia Reza Pahlavi
(pró-Ocidente), posta ao chão em 1979 pela revolução republicana liderada pelos
aiatolás. Com o golpe, abre-se a interminável tragédia presente da antiga
Pérsia, uma civilização de mais de 4 mil anos, que o atual inquilino da Casa
Branca diz pertencer à “pedra lascada”, para cuja idade promete devolvê-la em
duas semanas, “sob fogo terrível”.
Os EUA, por todos os meios, se fazem atores na Guerra da Coreia
(1950–1953) e, em seguida, na guerra do Vietnã (1955–1975), de onde
sairiam batidos, para, em seguida, fazerem a guerra do Afeganistão. Em 1965,
promovem a queda de Sukarno, dirigente da Indonésia (maior país do Sudeste
Asiático), e fazem ascender ao poder o general Suharto, alinhado com a política
de “contenção” da Guerra Fria, que leva a extremos, mediante massacres em
massa (1965–1966), com centenas de milhares de mortos, incontáveis – como incontáveis
são as vítimas do genocídio promovido por Israel (com apoio de algo como
70/75% de sua população) dos povos de Gaza, da Cisjordânia e da Palestina. Como
são incontáveis as vítimas civis das agressões ao Líbano.
No rastro de suas intervenções (é impossível nomeá-las neste espaço),
frutificou a barbárie.
Na América do Sul, sofremos os crimes covardes (e em nosso caso,
impunes), das ditaduras, no Brasil, na Argentina e no Chile, com seu rol de
torturados e assassinados. São, nos tempos recentes, ditaduras legadas pelo
imperialismo.
Mas elas, não obstante o que de hediondo apresentaram contra nossos países
e nossa gente, são ainda uns poucos itens numa longa listagem que parece não
ter fim, e não terá, se a esquerda brasileira e as forças progressistas não
tiverem clareza sobre as ameaças que rondam a democracia brasileira,
conquistada a tão duras penas e a tão duras penas trazida até aqui. Os idos de
janeiro de 2022 ainda estão presentes, e as forças que os animaram permanecem
em seus postos, fortalecidas pelo apoio do grande capital e pela ameaçadora
ascensão da direita nos EUA, que, para a consolidação de sua preeminência na
América do Sul, precisa de um Brasil dócil. A tragédia é esta: nossa
importância estratégica. O México sabe o que é isto (custou-lhe 55% do
território), a Venezuela conhece, e não de agora, o preço a pagar ao Império
por conter em suas entranhas a maior reserva de petróleo do mundo. Somos o
maior e mais rico país do continente. Somos um espaço estratégico que pode se
transformar em alvo de disputas geopolíticas ausentes de nossos interesses e de
nossa afirmação como povo, nação e país que aspira à condição de potência
regional.
A saga latino-americana revela os percalços dos países renitentes ao torniquete
de Washington. Para não mais lembrar a rapina de que foi vítima o
México, vejamos alguns casos, tentando identificar os mais expressivos,
como a deposição, em 1954, do presidente Jacobo Árbenz, da
Guatemala, responsável por uma reforma agrária que afetou os interesses da
americana United Fruit, motivação que voltaria à cena quando Cuba, em 1960, nacionaliza
empresas americanas (açúcar, petróleo, bancos). Seguem-se, numa escalada, as
intervenções na República Dominicana para depor o presidente Juan Bosch, em
1965; em 1983, a invasão de Granada; e, em 1989, a agressão ao
Panamá para o sequestro do presidente Manuel Noriega, ex-agente da CIA.
Invasões e golpes de Estado que são apenas a outra face do mesmo processo
coercitivo que tem sido o apoio sistemático a todas as ditaduras na América do
Sul e Caribe, como os regimes de Somoza (Nicarágua) e Stroessner (Paraguai), o
apoio aos “Contras” na Nicarágua pós-revolucionária e as intervenções diretas e
indiretas em El Salvador, que se repetem sob Trump, com o apoio da
velhacaria nativa. Por sem dúvida, o Brasil não poderia ficar à deriva: com o
substancioso empenho do grande capital e a ação das forças armadas, os EUA
desestabilizaram o governo Vargas (1954) e, apenas dez anos passados,
conduziram o golpe de Estado de 1º de abril, a que devemos 21 anos de uma
ditadura luciferina, de cujas piores consequências ainda não nos livramos, como
conta a emergência do neofascismo caboclo, reacionário como suas matrizes
alemãs e italianas, mas, ao contrário delas, exasperadamente antinacionalista
(entreguista), como se observa nos pronunciamentos dos ícones do bolsonarismo.
O outro lado desta guerra sem quartel pela hegemonia mundial se dá fora dos
teatros clássicos das batalhas, operado por todos os demais meios conhecidos,
econômicos, políticos e culturais-ideológicos, que chegam aos nossos dias
classificados pela ciência política como “guerra híbrida”, vencida largamente
pelos EUA, objeto de análise anterior neste espaço. Está em toda parte, faz a
consciência da classe dominante.
A História, mais uma vez, se repete, e desta vez não foi como farsa: o Irã foi
invadido e está sendo agredido pelos EUA (com a ajuda do sionismo), não porque
tenha armas nucleares, mas exatamente por não possui-las. Foi assim com a
Líbia de Muammar Kadhafi, foi assim com o Iraque. E continuará assim, até
que se altere a correlação de poder militar que governa a ordem internacional,
de um mundo que mais e mais se aproxima do caos, graças à irresponsabilidade
dos EUA.
A lógica desta guerra ensina ao mundo porque o Irã, que não ameaça e jamais
ameaçou os EUA, está sendo bombardeado pela maior potência militar
jamais conhecida pela humanidade, enquanto, por exemplo,
a pequena e resistente Coreia do Norte, aparentemente isolada do mundo,
não é atacada, e que jamais o seja, embora lance rotineiramente mísseis
balísticos ao mar do Japão, capazes de atingir a Coreia do Sul e até
territórios dos EUA.
Os EUA dizem aos países que ainda aspiram à sua integridade física e política,
decididos a preservar a soberania nacional herdada, muitas vezes ao preço de
incontáveis e dolorosos sacrifícios humanos, que a única dissuasão possível
contra agressores poderosos é a defesa nuclear.
E isto é muito perigoso.
***
O horror da Ocupação e o lobby sionista — Na
última semana, com o genocídio palestino ainda em curso, Israel, que já
assassinou mais de mil pessoas em suas incursões no Líbano, anunciou que irá
demolir todas as casas nos vilarejos libaneses próximos à sua fronteira; na
sequência, o Knesset houve por bem aprofundar o racismo do regime vigente no
enclave, e aprovou uma pena de morte que se aplica exclusivamente a árabes e
palestinos – feito celebrado a golpes de champanhe pelos legisladores supremacistas.
Nesse contexto, o apoio às políticas da Ocupação despenca em todo o
mundo, inclusive nos EUA, e a propaganda israelense cuida de reagir, com
iniciativas que chegam até nós. No Congresso Nacional, a deputada Tabata Amaral
(PSB-SP), para a surpresa de ninguém, se presta a despachar uma encomenda do
lobby sionista, qual seja, um projeto de lei que cuida de censurar os críticos
de Israel, tachando-os de “antissemitas”. Por sua vez, o Governo
Federal entende por bem reunir, no Itamaraty, lideranças sionistas para
discutir um suposto aumento do antissemitismo, “debate” que promete deixar em
segundo plano, se tanto, a questão central: os crimes perpetrados pelo Estado
de Israel.
*Com a colaboração de Pedro Amaral
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