domingo, 5 de abril de 2026

A vassalagem do 'Bolsonaro 2.0, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Senador sugeriu que eleição presidencial só será ‘livre e justa’ se ele vencer

Flávio Bolsonaro quer convencer o governo americano a interferir na eleição brasileira a seu favor. O filho do capitão fez o pedido no Texas, terra dos caubóis. “Apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente”, conclamou, no fim de semana passado. Para o senador, as instituições funcionam quando se dobram ao autoritarismo do pai.

O Zero Um discursou na CPAC, reunião anual de ultranacionalistas, supremacistas brancos e outros extremistas de direita. À vontade, ele se apresentou como o “Bolsonaro 2.0” e prometeu ser um “parceiro confiável” para Donald Trump. Depois sugeriu entregar riquezas do subsolo em troca do apoio do republicano. “O Brasil é a solução dos Estados Unidos para romper a dependência da China em relação a minerais críticos, especialmente terras-raras”, afirmou, sem corar.

A vassalagem não parou na oferta de recursos naturais. O senador descreveu o próprio país como uma peça a ser anexada ao tabuleiro de Trump. “O Brasil está se tornando o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será disputado”, sustentou. Ele disse que o capitão estaria preso por “defender nossos valores conservadores” e repetiu chavões contra a “elite global” e a “agenda woke”.

Herdeiro do golpismo do pai, o candidato insinuou que a eleição só será “livre e justa” se ele vencer. Acrescentou que o capitão teria lutado contra a “tirania da Covid”. A frase deveria servir de alerta a quem quer acreditar que Flávio é diferente de Jair. No governo do Bolsonaro 1.0, quase 700 mil brasileiros morreram enquanto o presidente atacava a vacina e sabotava as medidas de distanciamento.

Em outros tempos, o pedido de interferência estrangeira poderia ser desprezado como mera bravata. Não é o caso no segundo governo Trump. Desde que voltou ao poder, o republicano tem usado a diplomacia do porrete para impor seus interesses à América Latina. Já ameaçou invadir o Panamá, sequestrou o presidente da Venezuela e se meteu na eleição de Honduras. Agora endurece o bloqueio a Cuba, deixando a ilha sem luz e combustível para tentar derrubar o regime castrista.

Flávio está empenhado. Só neste ano, já foi aos EUA três vezes, embora ainda não tenha conseguido a sonhada foto com Trump. Deve voltar ao país em maio para encontros com lobistas e banqueiros. Seu irmão Eduardo continua a conspirar em solo americano contra as instituições brasileiras. Nesta quarta, ele disse que a Lei Magnitsky pode voltar a ser usada contra ministros do Supremo. “O Brasil corre o risco de não ter uma eleição reconhecida pelos Estados Unidos”, ameaçou o Bananinha.

Rachadinha na Rede

A debandada do grupo de Marina Silva abriu espaço para uma fauna exótica na Rede Sustentabilidade. Um dos últimos a se filiar foi o deputado André Janones. No ano passado, ele teve o mandato suspenso por ofensas homofóbicas e fechou acordo judicial para não ser processado por embolsar parte do salário de assessores.

Nenhum comentário: