O Globo
A expressão "estar de chico", como Neymar se referiu ao árbitro do jogo com o Remo, segundo gramáticos portugueses, significa estar emporcalhado. Não se usa apenas para mulheres menstruadas e sim para pessoas com aspecto de sujidade.
Quando a fala de Neymar, dizendo em tom de piada crítica que o juiz da partida Santos e Remo “estava de chico”, no sentido de irritadiço, nervoso, provocou enorme polêmica, seria bom atentar para certas nuances da língua portuguesa e, sobretudo, à cultura popular, muito impregnada de um machismo estrutural que se resolverá através da educação, não da repressão. De fato, a expressão “chico” vem do norte de Portugal, onde tem vários significados, entre eles como sinônimo de "porco". Daí a palavra “chiqueiro”.
A expressão "estar de chico", segundo
gramáticos portugueses, significa estar emporcalhado. Não se usa apenas para
mulheres menstruadas e sim para pessoas com aspecto de sujidade. Mas a maioria
das pessoas, e, creio, mesmo Neymar, desconhecia, até que o tema entrasse em
debate, que a expressão se refere a sujeira. Claro que a fala popular, embora
esteja em desuso, se refere à menstruação e tem um tom misógino, pois desdenha
das mulheres quando estão “naqueles dias”, outra expressão muito usada. Daí
dizer que falas como a de Neymar levam ao feminicídio é um passo
desproporcional. O caso me parece de falta de educação, não de crime.
O gramático Ricardo Cavaliere, da Academia
Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa se preocupa com “o
crescente encantamento com que a etimologia vem ocupando espaço nas redes
sociais, lugar de informação rápida e rasteira, ou tão rápida quanto rasteira”.
Em recente comunicação no plenário da ABL, Cavaliere tratou de outro tema
delicado, a palavra “mulato”. Segundo ele, o substantivo ingressou no português
nos primeiros tempos da língua, decerto em sua fase galego-portuguesa, pela
mesma forma latina mŭlus que o conduziu a outros idiomas românicos: (it.
mulatto, fr. mulâtre, es. mulato, ca. mulat etc.), desde o século XV. Todos os
autores empregavam mulato para designar o mestiço por analogia com a natureza
híbrida do mulo, “ou seja, não há notícia de que a palavra tenha sido um
indicador da cor da pele humana ao menos até o final do século XVII”. Por
mulato, nos primeiros tempos, também se designava o mestiço de europeu com
mouro, puramente branco, destaca Cavaliere. Já havia designação para o mestiço
de negro com índio, encontra-se o emprego de mulato também do mestiço de
francês com índia, segundo o testemunho do Padre Yves d'Évreux (1577–1632), capuchinho
francês que serviu no Brasil no início do século XVII (d’Évreux, 1614, p. 95),
em sua conhecida obra Voyage au Brésil.
Já ao final do século XVIII, Antônio de
Moraes Silva registra o significado de “filho ou filha de preto com branca, ou
às avessas, ou de mulato com branca até certo gráo”, ou seja, desconsidera o
significado geral de “mestiço”, aplicável a várias raças, para limitar-se aos
descendentes de branco com negro. Segundo Ricardo Cavaliere, “o que se percebe
é que, mesmo nos registros em que mulato figura não como o animal híbrido, mas
como o humano mestiço, o valor semântico do termo funda-se efetivamente no
caráter da mestiçagem, não da cor da pele, embora os dois fatos relacionem-se
intimamente, tendo em vista que é pela tonalidade da tez que ordinariamente se
identifica visualmente o indivíduo mestiço, assim como pelos traços fenotípicos
dos olhos se identificam os indivíduos orientais”.
Mais modernamente, o então presidente dos
Estados Unidos Barak Obama classificou-se de “mutt”, que em inglês quer dizer
cão vira-lata, numa referência a ser um mestiço. Há sentido neste hábito de
condenar uma palavra por algo que ela supostamente expressou há dois séculos,
pergunta Cavaliere, elencando uma série de palavras que mudaram seu sentido ao
longo do tempo. “Quem se sentir “acuado” doravante haverá de evitar o adjetivo
para camuflar a posição, digamos, vexatória que sua etimologia sugere? Já as
mulheres evitarão dizer que sentem dor na virilha, visto que há cinco séculos o
termo, uma sufixação do lat. vir (homem), designava a genitália masculina”.
Como se percebe, encerra Cavaliere, “insistimos em revirar o passado da língua,
procurando a maldade nas palavras, desapercebidos de que ela está bem aqui em
nossos corações”.

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