Folha de S. Paulo
Com nove sambas inéditos, Chico e Mario Adnet
trazem para 2026 o Rio de 1936
'Falso Antigo' recria um passado recheado de
surpreendentes temas contemporâneos
Por muitas décadas, aqui no Rio, tem sido assim: onde houver boa música, haverá um Adnet por perto. É uma família que, há três gerações, vive do piano, do violão, do lápis, do microfone, das mesas de som e agora, quem sabe, terá de dar algumas lições à IA. Uns pelos outros, o universo dos Adnet foi de jingles, trilhas para TV e cantar com Tom Jobim até a produção de magníficos discos independentes, a ressurreição da obra de Moacir Santos e a reconstrução de um Jobim sinfônico.
O principal nome por trás disso é o
compositor, violonista, arranjador, letrista e cantor Mario Adnet, 69. Agora em
parceria com seu irmão Chico, 66, dono de igual cartel, ele traz para 2026 o
Rio musical de, pode crer, 1936, 1946, 1956. O álbum se chama "Falso
Antigo", e o nome já diz tudo: são sambas do tempo em que a malícia se
disfarçava de inocência e as ruas competiam em ritmos e rimas —só que inéditos,
feitos hoje ou há bem pouco por Mario e Chico. Um delicioso pastiche do
passado, algo que só quem conhece a música de ontem e de hoje consegue
realizar.
Mario e Chico recriaram as harmonias, os
ritmos e o espírito dos velhos sambas, mas rechearam-nos de temas atuais, como
astronautas, fake news, indústria fonográfica, e com uma liberdade com que nem
sonhavam os bambas do passado. Para meu prazer, o resultado não lembra os
previsíveis Noel, Ary ou Ataulpho, mas os sambistas "menores" —menores
hoje, mas poderosos em sua época— como Assis Valente, Roberto Martins, Alcir
Pires Vermelho.
Pequenas maravilhas como "Falso
Baiano", "Samba Réquiem",
"Fred Astaire no Samba" e as seis outras não tocarão no rádio, mas
estão nas plataformas. E talvez só Mario e Chico conseguissem reunir convidados
tão completos como Roberta Sá, Mônica Salmaso, Pedro Paulo Malta, Pedro
Miranda, Jards Macalé e os jovens Marcelo Adnet (sim, mais um Adnet) e Mosquito,
apoiados por um escrete de instrumentistas.
Admiro e conheço bem Mario Adnet. Enquanto
houver alguém para escutar, ele provará que a música não é uma arte extinta.

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