Folha de S. Paulo
Filho de Jair Bolsonaro também ofereceu a
Trump um discurso para eventual intervenção
Se você entendeu o quão escandaloso foi o
discurso de Flávio, sugiro não criar expectativas
Em discurso nos Estados Unidos, Flávio
Bolsonaro prometeu a Donald Trump as
terras raras brasileiras como pagamento se a Casa Branca melar as eleições
desse ano e lhe entregar a Presidência da República.
O discurso foi feito na CPAC, uma reunião de extrema direita em que candidatos a Marechal Pétain apresentam seus currículos de golpista às autoridades americanas.
Além de Flávio Bolsonaro, Reza Pahlavi, filho
do último Xá do Irã, foi à CPAC solicitar
que os americanos o coloquem no poder na pátria que sua família
saqueou e manteve submissa por décadas. Na CPAC do ano passado, militantes de
extrema direita sul-coreanos andavam pela conferência defendendo Yoon Suk Yeol,
presidente que, como Jair tentou fazer, declarou
estado de sítio para instaurar uma ditadura. Como Jair, Yoon Suk Yeol
mentia que havia sido vítima de fraude eleitoral. Como Jair, está preso.
Mas seria um erro reduzir a CPAC à defesa do
golpe de Estado. A conferência teve painéis sobre outros assuntos: por exemplo,
na sessão "Bifes, Charutos e Ivermectina", quatro malucos defendiam
uma visão muito particular do que pode garantir a saúde dos americanos. Tomara
que tenham razão, porque Trump cortou o acesso de milhões de cidadãos ao
sistema de saúde tradicional.
Enfim, se Flávio frequentava as reuniões
ministeriais do pai, uma reunião repleta de golpistas, ladrões e malucos
defendendo remédio de piolho deve ter parecido só mais um dia no serviço.
Além das terras raras como suborno, Flávio
também ofereceu a Trump um discurso para uma eventual intervenção. Com cara de
pau que faria Daniel
Vorcaro corar, Flávio ressuscitou o discurso
bolsonarista sobre urnas eletrônicas.
O inquérito do golpe mostrou que os
bolsonaristas não estavam apenas errados sobre as urnas eletrônicas: eles
estavam mentindo.
No relatório
n.º 4546344/2024, da Polícia Federal (disponível na internet), há prints de
WhatsApp de Mauro Cid dizendo
para outro oficial golpista em 4 de outubro de 2022, dois dias depois do
primeiro turno: "Nada. Nenhum indício de fraude" (p. 98); print de
mensagem do pai de Cid pedindo ao filho, em nome de outro golpista, que não
seja divulgado relatório das Forças Armadas que não encontrou qualquer sinal de
fraude (p. 145); várias provas de que o técnico encarregado pelo PL para
investigar as denúncias contra as urnas eletrônicas informou o partido que as
denúncias não se sustentavam (por exemplo, email nas páginas 203-204).
Ou seja, quando pediam golpe porque a eleição
havia sido roubada, Jair e sua quadrilha sabiam que não era verdade.
Flávio também sabe. Dissemina mentiras sobre
a democracia brasileira para convencer a maior superpotência da história do
mundo a destruí-la. Nem é sua primeira vez: poucos meses atrás, apoiava o
tarifaço. E na CPAC criticou assessores de Trump que, "movidos por seus
próprios interesses", o levaram a negociar com Lula.
Se você entendeu o quão escandaloso foi o
discurso de Flávio Bolsonaro, sugiro não criar expectativas sobre seus efeitos
políticos.
É sua primeira eleição com golpistas de
direita na disputa, filho? A minha é a terceira. Se Flávio prometer privatizar
qualquer padaria continuará a ser tratado como um candidato normal, em que
gente razoável pode perfeitamente votar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário