Correio Braziliense
O controle burocrático dos
partidos, o financiamento eleitoral, as emendas impositivas ao Orçamento e a
“política como negócio” ditam as regras do jogo
É cada vez mais evidente na política brasileira o descolamento dos partidos de projetos nacionais e sua conversão em máquinas de sobrevivência eleitoral. Esse “transformismo” é um processo político associado ao peso do fundo eleitoral, das emendas parlamentares, da densidade das legendas e às alianças na disputa à Presidência e aos governos estaduais. Esse conjunto explica o troca-troca da janela partidária. Confirma a hegemonia conservadora na Câmara e uma deriva mais à direita do sistema partidário. O PL cresce de 86 para 101 deputados (+15), tornando-se o principal polo de atração de parlamentares. Se for confirmado esse avanço nas eleições, a legenda ampliará seu acesso ao Fundo Eleitoral, ao Fundo Partidário e ao controle de emendas, relatorias e comissões, independentemente do resultado das eleições presidenciais.
Quanto maior a bancada, maior a capacidade de
financiar campanhas e irrigar bases locais, num mecanismo de autorreprodução de
mandatos que vicia a representação popular, blinda os mandatários e bloqueia a
renovação política. O avanço da direita não se deve apenas à identidade
ideológica. Decorre, sobretudo, de sua expectativa de poder, fortalecida pela
competitividade da candidatura de Flávio Bolsonaro, em empate técnico com o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esse movimento foi acompanhado por ganhos
do PP (+4) e do Podemos (+8), partidos que ampliam sua capacidade de
financiamento e distribuição de recursos, reforçando o campo conservador.
No campo governista, a situação é mais
fragmentada. O PT recua marginalmente (67 para 66, -1), mantendo sua base, mas
sem capacidade de expansão. O PSB cresce (+4), enquanto PSol, PCdoB, PV e Rede
avançam de forma residual. Esses ganhos melhoram a capilaridade da esquerda,
mas não alteram significativamente sua força material. As perdas do União
Brasil (-15), do MDB (-5), do Republicanos (-3) e, sobretudo, do PDT (-10),
reduzem as possibilidades de ampliação do campo governista em direção ao
centro.
PSD e MDB permanecem como peças-chave do
xadrez político do Congresso. O PSD mantém 47 deputados, porém, sua força real
está na densidade eleitoral e no controle de governos estaduais e estruturas
locais. Trata-se de um partido fragmentado regionalmente, que responde mais aos
interesses de suas lideranças estaduais do que a uma estratégia nacional. Isso
torna a candidatura do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado suscetível de
“cristianização”, pois uma parte do partido deve apoiar Lula, enquanto outra já
gravita em torno de Flávio Bolsonaro.
O MDB, mesmo reduzido a 37 deputados, mantém
forte capilaridade municipal e acesso relevante a recursos. Não se orienta por
ideologia, mas por expectativa de poder. Apoiará quem oferecer melhores
condições eleitorais e espaço na máquina pública. Em um cenário polarizado,
ambos — PSD e MDB — atuam como fiadores de maiorias, são protagonistas da
barganha política em troca de governabilidade.
Política como negócio
As emendas parlamentares são decisivas nesse
processo. O orçamento impositivo transformou deputados em operadores diretos de
recursos, fortalecendo sua autonomia em relação ao Executivo. Isso reduz a
capacidade de coordenação do governo e reforça a lógica individual: cada
parlamentar busca maximizar sua entrega local. Bancadas maiores concentram mais
emendas, tornando-se mais atrativas. O crescimento do PL, portanto, é também
orçamentário. PL, PSD, MDB e PP convertem melhor votos em cadeiras e poder
local, enquanto legendas menores têm menor eficiência competitiva. Isso explica
a migração para partidos médios e grandes, capazes de sustentar campanhas
robustas.
O avanço do PL indica que cresce, no sistema
político, a avaliação de competitividade de Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, a
estabilidade do PT reflete a resiliência de Lula como candidato à reeleição.
Nesse quadro, as perdas do PDT (-10), Avante (- 4), PRD (-3) e Cidadania (-2)
são emblemáticas. Em crise interna, o último perdeu identidade; e Arnaldo
Jardim (SP), seu parlamentar mais influente, não será candidato.
Ainda que exista uma questão ética
subjacente, o “transformismo” é uma questão política. No Brasil, não existe um
projeto democrático de modernização capaz de forjar um novo consenso nacional.
A massa crítica intelectual e empresarial para formular essa alternativa foi
alijada da política ou capturada por essa dicotomia.
Os partidos foram capturados pela “transa” política. Já não se orientam por programas, mas por interesses particulares, pesquisas eleitorais e a audiência nas redes sociais. Subalterna, a “política do bem comum” foi sufocada pelo controle burocrático dos partidos, o financiamento eleitoral, as emendas impositivas ao Orçamento e a “política como negócio”, que ditam as regras do jogo e alimentam uma “partidocracia” patrimonialista. E, assim, novas gerações perpetuam as velhas oligarquias.

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