O Globo
Disputas internacionais foram criadas para
unir os povos, mas líderes como Trump jamais permitirão que se alcance esse
objetivo
Minha principal atividade nesta Copa é
comprar figurinhas para o neto. Nem sempre foi assim. Nas muitas Copas que
vivi, o clima não era tão tranquilo.
Em 1970, assisti à final entre Brasil e
Itália refugiado na Argélia. Um grupo de asilados pensou em torcer contra o
Brasil, porque a vitória fortaleceria a ditadura militar. Bastaram alguns
minutos de jogo para que todos estivessem torcendo apaixonadamente pelo Brasil
e se sentissem no paraíso com a goleada.
Ainda no Brasil, acompanhei o jogo Brasil e Tchecoslováquia numa solitária na prisão. Não havia rádio, não havia vizinhos nas outras celas, não havia nada. Só silêncio. Pelos gritos que vieram da rua, contei os gols do Brasil e concluí alegremente que vencemos por 4 a 0. Ilusão. Eles fizeram um gol que ficou perdido na barreira de silêncio. Poderiam ter feito dois, três, e eu não saberia.
As Copas, sobretudo no período da ditadura,
sempre foram um tema político. João Saldanha foi uma espécie de herói para nós
por ter resistido à pressão de Emílio
Garrastazu Médici. Saldanha era o técnico da seleção, e o general Médici
queria que ele convocasse Dadá Maravilha, centroavante do Atlético Mineiro.
Saldanha respondeu: o presidente escolhe o ministério dele, eu escalo a minha
seleção.
O mundo mudou. As Copas, que eram tema da
política interna, são hoje problema geopolítico. Quando Estados Unidos, Canadá
e México resolveram hospedar a Copa de 2026 em conjunto, pensavam em projetar
uma América do Norte unida e aberta ao mundo. A América do Norte já não está
tão unida. E a abertura ao mundo, sobretudo nos Estados Unidos, transformou-se
em paranoia diante do estrangeiro.
Os primeiros signos desse novo momento
histórico apareceram com a decisão de barrar a entrada do juiz da Somália Omar
Abdulkadir Artan. Omar é considerado um dos grandes juízes do mundo, apesar de
vir de um país pobre, sem grande tradição em futebol. Foi recebido como herói
ao voltar para a Somália. A delegação de Senegal foi objeto de dura
fiscalização ao entrar nos Estados Unidos. Não se sabe por que tanto rigor
contra os africanos.
A Fifa tem aguentado tudo calada. A mesma
Fifa que, no Brasil, fez e aconteceu, impôs regras como se o seu presidente
fosse um imperador. Um jornal francês caricaturou Gianni Infantino como
fantoche de Trump. Sua imagem depois dessa Copa dificilmente escapará disso.
Mesmo antes, Infantino criou um prêmio da paz e entregou o troféu a Trump,
algumas semanas antes de ele começar uma guerra contra o Irã.
Uma característica desta Copa é que um dos
anfitriões está em guerra com um dos participantes (embora tenha sido anunciado
um cessar-fogo). É uma experiência única bombardear um país enquanto a seleção
nacional do país bombardeado disputa uma partida de futebol no campo do
inimigo.
Os iranianos também pagam um preço por
disputar a Copa. Ficarão concentrados em Tijuana e viajarão para os Estados
Unidos apenas para jogar e voltar em seguida. Pensar que grandes disputas
internacionais foram criadas para unir os povos... A verdade é que líderes
como Donald
Trump jamais permitirão que se alcance esse objetivo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário