terça-feira, 16 de junho de 2026

As Copas viraram problema geopolítico, por Fernando Gabeira

O Globo

Disputas internacionais foram criadas para unir os povos, mas líderes como Trump jamais permitirão que se alcance esse objetivo

Minha principal atividade nesta Copa é comprar figurinhas para o neto. Nem sempre foi assim. Nas muitas Copas que vivi, o clima não era tão tranquilo.

Em 1970, assisti à final entre Brasil e Itália refugiado na Argélia. Um grupo de asilados pensou em torcer contra o Brasil, porque a vitória fortaleceria a ditadura militar. Bastaram alguns minutos de jogo para que todos estivessem torcendo apaixonadamente pelo Brasil e se sentissem no paraíso com a goleada.

Ainda no Brasil, acompanhei o jogo Brasil e Tchecoslováquia numa solitária na prisão. Não havia rádio, não havia vizinhos nas outras celas, não havia nada. Só silêncio. Pelos gritos que vieram da rua, contei os gols do Brasil e concluí alegremente que vencemos por 4 a 0. Ilusão. Eles fizeram um gol que ficou perdido na barreira de silêncio. Poderiam ter feito dois, três, e eu não saberia.

As Copas, sobretudo no período da ditadura, sempre foram um tema político. João Saldanha foi uma espécie de herói para nós por ter resistido à pressão de Emílio Garrastazu Médici. Saldanha era o técnico da seleção, e o general Médici queria que ele convocasse Dadá Maravilha, centroavante do Atlético Mineiro. Saldanha respondeu: o presidente escolhe o ministério dele, eu escalo a minha seleção.

O mundo mudou. As Copas, que eram tema da política interna, são hoje problema geopolítico. Quando Estados Unidos, Canadá e México resolveram hospedar a Copa de 2026 em conjunto, pensavam em projetar uma América do Norte unida e aberta ao mundo. A América do Norte já não está tão unida. E a abertura ao mundo, sobretudo nos Estados Unidos, transformou-se em paranoia diante do estrangeiro.

Os primeiros signos desse novo momento histórico apareceram com a decisão de barrar a entrada do juiz da Somália Omar Abdulkadir Artan. Omar é considerado um dos grandes juízes do mundo, apesar de vir de um país pobre, sem grande tradição em futebol. Foi recebido como herói ao voltar para a Somália. A delegação de Senegal foi objeto de dura fiscalização ao entrar nos Estados Unidos. Não se sabe por que tanto rigor contra os africanos.

A Fifa tem aguentado tudo calada. A mesma Fifa que, no Brasil, fez e aconteceu, impôs regras como se o seu presidente fosse um imperador. Um jornal francês caricaturou Gianni Infantino como fantoche de Trump. Sua imagem depois dessa Copa dificilmente escapará disso. Mesmo antes, Infantino criou um prêmio da paz e entregou o troféu a Trump, algumas semanas antes de ele começar uma guerra contra o Irã.

Uma característica desta Copa é que um dos anfitriões está em guerra com um dos participantes (embora tenha sido anunciado um cessar-fogo). É uma experiência única bombardear um país enquanto a seleção nacional do país bombardeado disputa uma partida de futebol no campo do inimigo.

Os iranianos também pagam um preço por disputar a Copa. Ficarão concentrados em Tijuana e viajarão para os Estados Unidos apenas para jogar e voltar em seguida. Pensar que grandes disputas internacionais foram criadas para unir os povos... A verdade é que líderes como Donald Trump jamais permitirão que se alcance esse objetivo.

 

 

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