terça-feira, 9 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Gastança dos estados piora crise fiscal

Por O Globo

Governadores não ficam atrás do governo federal em ‘bondades’ eleitoreiras

Anos de eleição já foram diferentes no Brasil: ruas cobertas de panfletos, brindes e showmícios eram comuns. Uma característica infelizmente parece imutável: a propensão dos governos a gastar de forma irresponsável. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido pródigo na distribuição de “bondades” eleitoreiras, mas os governadores não ficam atrás. A gastança extra já contratada terá impacto nas contas públicas estimado em torno de 2% do PIB. Desse total, o governo federal deverá ficar com uma fatia de 0,9 ponto percentual e os governos estaduais com nada desprezível 0,6 (o restante 0,5 serão gastos realizados por fora das metas fiscais).

Copa vai testar reformas do bilionário e conservador futebol, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

É justo reconhecer que o futebol se tornou o esporte mais popular do mundo com controvérsias e regras conservadoras, mas, na era da IA, elas cansam e enfurecem jogadores e torcedores

A dois dias do início da Copa do Mundo, pedindo licença aos colegas do Esporte, o colunista aproveita a oportunidade e utiliza este espaço, normalmente ocupado com temas econômicos, para falar de futebol.

Entre parêntesis, vale lembrar que só os 20 clubes da série A do Campeonato Brasileiro faturam quase R$ 15 bilhões por ano. E que o futebol, apesar das condições financeiras catastróficas de muitos clubes grandes, movimenta estimados R$ 90 bilhões anualmente no país, gerando 370 mil empregos diretos e indiretos. Na indústria global do futebol giram US$ 300 bilhões anuais. Os EUA preveem injetar US$ 17 bilhões na economia com a Copa.

As mulheres que aplaudem Flávio Bolsonaro, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Pré-candidato do PL reúne 184 mulheres num hotel de luxo em São Paulo

“Pra ser petista, das duas uma, ou faltou proteína ou falta caráter”. A médica Claudia Leite estava entre amigas que aguardavam a abertura do salão para o encontro “Brasil de Ideias Mulher - Eleições”, o primeiro de uma série com os candidatos à Presidência, com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no hotel Tangará, zona sul de São Paulo.

A zanga se dirigia a duas pessoas que ocuparam uma mesa do restaurante Quattrino, nos Jardins, durante um show, no sábado, do comentarista de direita argentino Gustavo Segré, autor da canção “Janjo e Janja”. A dupla protestou, destoando da maior parte da audiência que os pôs para correr. “Foi um sinal de que ele [Segré] está incomodando”, comentou Vera Renzo, empresária de turismo, arriscando um palpite sobre o potencial destrutivo do comentarista argentino, titular de um quadro “Faroeste à Brasileira”, na Revista Oeste.

Ano com El Niño, guerra e tarifas, por Míriam Leitão

O Globo

Conflito no Oriente Médio, restrições à exportação da carne e questão climática compõem cenário de tensão para a economia brasileira

O fechamento do mercado da União Europeia para a carne brasileira é um golpe a mais no setor agropecuário e na economia do país, em um ano cheio de complicações. No fim de junho ou de julho, a exportação de carne para os chineses completará a cota, e as vendas terão que ser suspensas. As novas ameaças tarifárias dos Estados Unidos sobre o Brasil já estão postas. A guerra com o Irã se transformou em um choque de oferta de energia. As sombras do El Niño forte rondam o país e assustam o agronegócio.

Conversei com o professor José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), para saber se a ameaça climática é mesmo forte. Ele disse que o El Niño já se formou no Oceano Pacífico. A intensidade dos efeitos no clima, contudo, ainda não está certa. Tudo indica que será forte.

Interesses do Brasil devem prevalecer sobre amizade com Trump, por Fernando Gabeira

O Globo

Tanto a fidelidade canina da família Bolsonaro como a química que uniu Lula ao presidente dos EUA enfraquecem uma análise mais fria sobre objetivos dos dois países

Nunca me senti confortável com a importância que a imprensa dá à proximidade dos candidatos com Trump. Tanto a fidelidade canina da família Bolsonaro como a química que o uniu a Lula enfraquecem uma análise mais fria sobre interesses dos dois países.

Compreendo que Lula tenha certo orgulho da simpatia de Trump. Afinal, o poder de sedução atravessou barreiras ideológicas confirmando seu prestígio internacional. Na hora do vamos ver, a situação se revela com toda a crueza. Ao apresentar sua política para o continente, os Estados Unidos fizeram uma grande reunião na Flórida. Foi lançado o Escudo das Américas, aliança contra o crime organizado e imigração ilegal. O Brasil ficou de fora, assim como Colômbia e México. Em discurso no Congresso, Marco Rubio nomeou os países que não se alinhavam com a política americana. Entre eles estava o Brasil.

À espera da cavalaria, por Merval Pereira

O Globo

Se, como se teme, a segunda delação for tão vazia quanto a primeira, é sinal de que quer ganhar tempo à espera de uma decisão que o beneficie.

O comportamento de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro em atividade, na feliz definição de Arthur Dapieve, deixa clara sua esperança de que alguma coisa, ou alguém, virá em seu socorro a qualquer momento. Foi por isso, afinal, que ele investiu tanto tempo e dinheiro com autoridades de todos os quilates. E ainda há, em postos-chave da estrutura estatal, quem não quer que sua delação se concretize. Enquanto isso, vai enrolando as delações premiadas que negocia com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República. Vorcaro tem razão em esperar uma solução para seu caso, pois historicamente isso sempre aconteceu nos processos criminais brasileiros envolvendo empresários importantes, líderes políticos, autoridades do alto escalão dos Poderes da República.

Flávio e TSE censuraram uma pesquisa, por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

A decisão talvez tenha um impacto ao mostrar que Flávio não defende a liberdade de expressão quando a informação lhe desagrada

Ter acesso a diferentes pesquisas é mais relevante hoje em dia quando a confiabilidade delas está em discussão

O presidente do TSEKassio Nunes Marques, atendeu a pedido de Flávio Bolsonaro e suspendeu a divulgação da pesquisa AtlasIntel. Mas isso não deve ajudar Flávio. A pesquisa foi divulgada em 19 de maio; o impacto dela já passou. Ninguém nem lembrava mais. A decisão talvez tenha, aí, sim, um impacto negativo, ao mostrar que Flávio não defende a liberdade de expressão; quando a pesquisa lhe desagrada, ele é o primeiro a pedir censura.

Decisões na mesma linha que vierem no tempo certo, contudo, podem, sim, ter impacto. Isso porque as pesquisas eleitorais não só retratam a intenção de voto num determinado momento; elas podem influenciar essa intenção. O efeito é modesto, mas consistente. Por algum motivo, as pessoas não gostam de votar em quem elas acham que vai perder. Isso cria um "efeito manada", positivo ou negativo: um candidato visto como em ascensão tende a ganhar mais votos, já aquele visto como em queda tende a perder ainda mais. Numa eleição polarizada em que os candidatos estão muito próximos, o efeito modesto pode ser decisivo.

O partido Missão é o PT da direita ou o PSDB 2.0? Por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Com mentalidade de startup, ele mistura social-democracia, Vale do Silício e Bope

Guerra aberta do MBL com o bolsonarismo explicitou a existência de dois polos na direita

Como bom malufista que foi, o pai de Renan Santos odiava o PT. No caso de seu filho, hoje pré-candidato a presidente, a resposta é complicada.

Para Renan, legendas como PL e PSD são de aluguel, enquanto o PT é partido no sentido clássico. Tem teses compartilhadas, produção intelectual, atividade política e militância.

Renan se inspirou na energia da política estudantil da Faculdade de Direito da USP para fundar o MBL. Uma paixão similar marca a militância emebelista nas redes sociais —ela que bagunça a monocromia do debate político atual. Intelectualizado e mais à vontade nos bastidores, Renan pode ser comparado a Zé Dirceu. Como o ex-ministro, sobrevivente da ditadura, ele coleciona batalhas.

Em 2003, após uma decepção na política estudantil, Renan trocou a vida de universitário e aspirante a músico pelo negócio familiar de recuperação de empresas falidas. Foram dez anos de jogo bruto: ganhar dinheiro via fórceps, demissões, cortes de gastos, briga com sindicatos e pressão de credores.

Partidos custam bilhões por prestação de mau serviço, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Financiamento público cria uma relação desigual entre o país contratante e os políticos contratados

Eleitor é obrigado a votar, mas os eleitos não se obrigam a cumprir seus deveres para com a sociedade

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou na semana passada os dados sobre a divisão do dinheiro do fundo eleitoral, e isso não traz notícia nova.

Os números são conhecidos, mas a divulgação repõe na agenda o tema desse tipo de financiamento adotado desde a eleição de 2018. Oportunidade para renovar questionamentos sobre como partidos se tornaram sorvedouros de dinheiro público sem que, em contrapartida, prestem bons serviços ao país que os contrata.

Palanque do filho 01 não desabou, mas está balançando, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Além do caso 'Dark Horse' e do tarifaço, PL enfrenta péssimo momento no Rio

Preso por envolvimento com o CV, bolsonarista Rodrigo Bacellar prepara delação

Não bastassem os percalços da pré-campanha presidencial —o caso "Dark Horse", o tarifaço de Trump com ameaça ao Pix, o tombo do filho 01 nas pesquisas aliado ao efeito fariseu que passou a pesar sobre ele entre alguns segmentos evangélicos, o desbunde do 03 com a extrema direita norte-americana, a incômoda sombra da ex-primeira-dama Michelle e uma certa neutralidade do governador Tarcísio de Freitas em São Paulo—, o PL enfrenta um péssimo momento no Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do país.

Flávio Bolsonaro e as pesquisas, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Nunes Marques é aliado dos Bolsonaros, mas a AtlasIntel precisa se explicar

Ao suspender a última pesquisa AtlasIntel sobre a eleição presidencial, o ministro do Supremo Nunes Marques, atual presidente do TSE, nos deixa entre uma tese, ou princípio, e uma questão direta, pontual. Em tese, a ingerência numa pesquisa legal e registrada é condenável. No caso em foco, há margem para dúvidas.

A família Bolsonaro ataca pesquisas e institutos desde as eleições de 2018 e 2022, quando também fez dura campanha contra as urnas eletrônicas e, por fim, negou os próprios resultados. Aliás, Jair Bolsonaro acusa de fraude a eleição que ele próprio venceu. É inédito, incompreensível.

A suspeição de Moraes, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Suspeito pedindo contra suspeito. Flávio Bolsonaro pedindo ao Supremo que declare a suspeição de Alexandre de Moraes para julgar sobre Daniel Vorcaro e o Master. Alguém, cujas relações com Vorcaro exigem investigações, pedindo ao Supremo que declare a suspeição de ministro para julgar – no caso concreto – sobre os repasses do banqueiro ao filme Dark Horse. As relações de Moraes com Vorcaro a também exigirem investigações.

Relações Brasil–EUA: decifra-me ou devoro-te, por Rubens Barbosa*

O Estado de S. Paulo

A questão crítica em jogo para o País, neste momento, não é eleitoral, mas geopolítica

Os EUA estão cada vez mais presentes na política interna e externa do Brasil. Quatro recentes decisões impactaram o governo brasileiro e agitaram o cenário pré-eleitoral. São elas: a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas; a designação do novo embaixador norte-americano; os anúncios das recomendações das investigações contra o Brasil no âmbito da seção 301 da Lei de Comércio exterior de 1974 por práticas desleais e contrárias aos interesses dos EUA; e sobre trabalho forçado em produtos importados.

É um erro político grave – só explicável em função da política interna – considerar essas medidas como resultado de pressão por parte da família Bolsonaro sobre o governo em Washington. As medidas têm a ver com a nova visão global dos EUA, refletida na Estratégia de Segurança Nacional, cujo foco principal de interesse norte-americano é a América Latina.

Nuvens pesadas na economia em meio à eleição, por Carlos Alexandre de Souza

Correio Braziliense

O cenário econômico nacional já seria complexo por si só, não fossem dois complicadores adicionais. O primeiro são os fatores externos, como as ações do governo Trump e a guerra no Oriente Médio. O segundo fator é a disputa eleitoral

O boletim Focus, divulgado nessa segunda-feira, anuncia nuvens cada vez mais carregadas no cenário econômico brasileiro. Pela 13ª semana consecutiva, a mediana das projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026 registrou alta. Subiu de 5,09% para 5,11%, ampliando a distância em relação ao teto da meta de inflação, definido em 4,5% pelo Conselho Monetário Nacional. As projeções também são pessimistas em relação à taxa de juros. Segundo o relatório Focus, a expectativa em torno da Selic passou 13,25% para 13,50% ao ano. Até o mês passado, a estimativa era de 13% para a taxa referencial.

Hora de sancionar a lei da Caatinga, por Sergio Leitão e Rafael Giovanelli *

Correio Braziliense

O que está em jogo é a construção de uma estratégia nacional de desenvolvimento para o semiárido, baseada em segurança hídrica, produção sustentável de alimentos, geração de empregos, adaptação às mudanças climáticas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que viveu na pele os desafios da seca no sertão nordestino, tem diante de si a oportunidade de corrigir uma omissão histórica e transformar a recuperação da Caatinga em um compromisso permanente do Estado. A sanção do Projeto de Lei (PL) 1990/2024, aprovado pelo Congresso Nacional, instituirá a Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga, criando o primeiro marco legal brasileiro voltado especificamente à recuperação de um bioma.

A importância dessa decisão vai muito além do ambientalismo. O que está em jogo é a construção de uma estratégia nacional de desenvolvimento para o semiárido, baseada em segurança hídrica, produção sustentável de alimentos, geração de empregos, adaptação às mudanças climáticas e combate à desertificação.

PIX novamente sob ataque, por Dão Real Pereira dos Santos*

Correio Braziliense

Em um país em que a renda média da população é de pouco mais de R$ 3 mil mensais, faz todo o sentido priorizar a redução de custos referente aos meios de pagamento

Há cerca de um ano e meio, o Pix sofria seu primeiro ataque massivo. Uma enxurrada de fake news, liderada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), fez milhares de brasileiros acreditarem que seriam tributados em suas movimentações financeiras. As consequências desse episódio tiveram reflexo imediato na economia real, impulsionando o governo federal a adiar em sete meses a implementação de uma Instrução Normativa da Receita Federal essencial no combate ao crime organizado e que nada tinha a ver com qualquer taxação do Pix. Essa normativa apenas amplia para fintechs obrigações de prestação de informações que já tem sido exigida dos bancos tradicionais e que fortalece mecanismos de rastreamento de operações utilizadas em esquemas de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial. 

Agora, o governo norte-americano, por meio do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), afirma que o Banco Central do Brasil teria criado uma situação de concorrência desleal ao desenvolver, operar e regular o sistema, supostamente prejudicando empresas norte-americanas de pagamentos eletrônicos. Ou seja, um governo estrangeiro ataca de forma explícita o Pix para proteger interesses privados de seu país.  

O futuro não está na polarização, por Eduardo Pedrosa*

Correio Braziliense

O futuro não está na polarização. Está na capacidade de formar uma sociedade intelectualmente livre, capaz de debater sem cancelar, discordar sem destruir e competir sem transformar adversários em inimigos

Existe um erro histórico que a centro-direita brasileira precisa ter a coragem de reconhecer. Durante décadas, enquanto a esquerda disputava universidades, movimentos estudantis, sindicatos, produção cultural, editoras e espaços de formação intelectual, a direita concentrou seus esforços nas eleições, na economia e na gestão pública. A esquerda pensava em décadas. A direita pensava em governos. E, talvez, seja impossível compreender o Brasil de hoje sem entender essa diferença.

A política não começa na urna. Ela começa muito antes, nos lugares onde uma geração aprende a interpretar o mundo. Foi isso que Antonio Gramsci percebeu ao desenvolver o conceito de hegemonia cultural. Quem influencia a educação, a cultura e os formadores de opinião influencia a forma como a sociedade pensa. E quem influencia a forma como a sociedade pensa acaba, inevitavelmente, influenciando a política.

Poesia | O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Teresa Cristina - Com que roupa (Noel Rosa)