O Globo
Para o Brasil contemporâneo, preso a uma
polarização estéril entre as tribos lulista e bolsonarista, as lições que vêm
do Sul são providenciais
“Eu sou você amanhã”. O bordão
propagandístico de uma marca de vodca tornou-se famoso no país como um alerta
para as consequências de atitudes irresponsáveis, como tomar vodca vagabunda
que dá ressaca, e não por acaso, tornou-se comum usar a expressão para comparar
os equívocos econômicos de governos populistas brasileiros com o perigo de o
Brasil tornar-se a Argentina, um país que já esteve entre as dez maiores
economias do mundo - como o Brasil está hoje - e nos últimos anos esteve
envolvido em crises diversas.
A situação da Argentina é tão peculiar que o economista Simon Kuznets, russo naturalizado americano, Nobel de Economia de 1971, cunhou a máxima de que existem quatro tipos de países - os desenvolvidos, os subdesenvolvidos, o Japão e a Argentina. A situação ganha contornos de urgência para o leitor brasileiro no novo livro do economista Fabio Giambiagi, “Argentina para Brasileiros: Un País de Película”. A obra, que conta com a chancela do ex-ministro da Fazenda Pedro Malan em sua "orelha”, é um exercício de história econômica comparada, uma advertência rigorosa para um Brasil que teima em ignorar os sinais de fadiga de seu próprio tecido institucional às vésperas do novo ciclo eleitoral.
Giambiagi, um "binacional" que alia
o rigor técnico profissional à sua vivência de infância e adolescência em
Buenos Aires, utiliza sua "dupla cidadania intelectual" para decifrar
como um dos maiores enigmas da modernidade, que figurava entre as dez nações
mais ricas do globo no início do século XX, tornou-se o caso mais dramático de
retrocesso persistente.
Para o Brasil contemporâneo, preso a uma
polarização estéril entre as tribos lulista e bolsonarista, as lições que vêm
do Sul são providenciais. O livro detalha como o longo ciclo de radicalismo
político no país vizinho paralisou a gestão pública. Giambiagi e o jornalista
Carlos Pagni, Para o Brasil contemporâneo, preso a uma polarização estéril
entre as tribos lulista e bolsonarista, as lições que vêm do Sul são
providenciaisautor do prefácio, identificam a "intransigência" e o
"espírito de vingança" como os vetores que asfixiaram a política
argentina, transformando o debate democrático em um jogo de soma zero, onde o
resultado final é, invariavelmente, o fracasso coletivo.
O fenômeno da "grieta" (a fenda) -
essa divisão social profunda e raivosa - precedeu a paralisia econômica. Sob
esse manto de divisão, moldou-se uma economia descrita por Pagni como
"subsidiada, isolacionista e estadocêntrica". O resultado é uma
sociedade que se habituou a pretender viver acima de suas possibilidades reais
de produtividade, mergulhada em uma "luta distributiva" onde capturar
rendas do Estado tornou-se mais urgente do que gerá-las. O alerta para o Brasil
é direto.
Enquanto ainda tropeçamos nas finanças
públicas, assistimos hoje a uma retomada de receituários que privilegiam a
forte presença do Estado e a expansão fiscal, ignorando os riscos de médio
prazo. Como alerta Giambiagi, não interessa ao Brasil ter um vizinho estagnado,
mas é fundamental conhecer sua trajetória para evitar que sigamos pelo mesmo
caminho de retrocesso. Como bem resume o economista, a Argentina "dá um
filme" - e, por suposto, um drama.
Para o leitor brasileiro, o risco é estarmos
assistindo apenas ao trailer do nosso próprio futuro, caso ignoremos que a
distância entre a estabilidade e o caos é menor do que supõe nossa vã
filosofia. Entender a Argentina é, antes de tudo, compreender o custo de
escolhas coletivas equivocadas. Vivemos hoje no país uma situação típica desse
caos institucional. Tanto governo quanto Congresso se aproveitam do período
eleitoral para aprovar medidas que não têm sustentação no orçamento. Querem
apenas ajudar grupos especiais, aumentando salários e regalias, em troca de
votos. O governo faz isso de um lado, estoura o orçamento e o Congresso também
faz, sem pensar nas consequências fiscais. É uma situação que revela a visão
distorcida dos poderes da República. Talvez seja o momento de o eleitorado
brasileiro exigir um discurso mais focado na construção do futuro.

Um comentário:
Acertou em cheio,matou a pau Juvenal.
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