Folha de S. Paulo
Temas negativos na agenda pública alimentam
sentimento de mudança e penalizam incumbentes
Embora corrupção não seja critério definidor
para maioria do eleitorado, ela faz parte do processo da psicologia do voto
A corrupção voltou a ocupar lugar de destaque na agenda pública, e não poderia ser diferente. Dois megaescândalos vieram à tona recentemente: INSS e Master. Seus desdobramentos ainda estão em curso, mas irão marcar intensamente as eleições. Além disso, os sucessivos escândalos associados a emendas orçamentárias reverberam a questão. Haverá intensa disputa de narrativas sobre o envolvimento em corrupção, que afetará poucos setores muito polarizados, mas incidirá nos demais. Mais importante: ela alimenta o sentimento público quanto à necessidade de mudança de rumo.
A sensação de corrupção sistêmica gera o
efeito mar de lama: se todos os candidatos são corruptos, a corrupção perderá
importância. A cientista
política Nara Pavão (UFPE) encontrou este efeito em trabalhos
realizados no Brasil. Mas pesquisas usando métodos experimentais aplicadas na
Argentina, no Chile e no Uruguai qualificaram esta conclusão: mesmo quando
expostos a uma situação de corrupção sistêmica, os eleitores punem nas urnas o
comportamento corrupto de agentes
públicos eleitos.
A corrupção associada a obras é menos
rejeitada. O velho trade-off "rouba mais faz" captura parte da
dinâmica subjacente à psicologia do voto.
Também o hiperpartidarismo e a polarização
mitigam o impacto negativo da corrupção, mas não o eliminam. Muitas vezes, o
efeito médio da corrupção não é grande, mas há forte heterogeneidade nas
respostas. Ou seja, o efeito varia muito entre os grupos de eleitores. Ele é
sempre muito mais intenso entre os eleitores voláteis —grupo crucial em
contextos competitivos.
Embora a corrupção não seja o critério
definidor —o "deal breaker", no jargão— para a maioria do eleitorado,
ela faz parte do processo complexo da psicologia do voto, que não ocorre em um
só momento. Segundo o jargão, este processo é formado de "heurísticas
sequenciais". Pesquisas sobre processos decisórios em contextos eleitorais
mostram que o eleitor pode descartar inicialmente candidatos por algum outro
fator e em um segundo momento utilizar a corrupção como desempate.
Corrupção, economia e
segurança pública são temas que interagem entre si e têm um efeito
multiplicativo. Há fortes evidências de que a tolerância quanto à corrupção é
maior quando a economia vai bem. E vice-versa.
Aqui, interessa a economia tal qual percebida
pelos eleitores, e não os indicadores econômicos. Não se trata da importância
da distinção, por exemplo, o nível de preço ("affordability") versus
taxa de inflação. Como já discuti aqui na coluna, essa percepção sofre muitos
vieses. O mais importante deles decorre da polarização.
Processo similar ocorre quando a corrupção
está entrelaçada com a criminalidade violenta.
Temas da agenda pública sobre os quais há
consenso negativo, como corrupção ou criminalidade, criam sentimento de
mudança. Aqui, questões sobre se o país está indo na direção errada são
fundamentais. Quando estes temas dominam o debate, engendram um sentimento de
mudança que penaliza os incumbentes.
*Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA)

Nenhum comentário:
Postar um comentário