domingo, 7 de junho de 2026

O custo dos agrotrogloditas, por Elio Gaspari

O Globo

Relatório dos EUA cita Moratória da Soja pelo qual grandes exportadoras se comprometem a não comprar commodity plantada em área de desmate

Está entendido que Donald Trump fará o que estiver ao seu alcance para tirar Lula do Palácio do Planalto e está entendido também que Flávio Bolsonaro fará de tudo para apresentar-se como o homem de Trump em Pindorama. Fora desse circo, pelo menos em tese, a diplomacia comercial americana promete negociar e promover audiências públicas até o dia 15 de julho, antes de baixar um tarifaço sugerido para a faixa de 25%.

Passada a barulheira da semana passada, entrarão em campo os profissionais, com argumentos e números.

O documento que prenuncia o tarifaço, produzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA, é uma salada de exemplos conflitantes e até mesmo de afirmações absurdas. Ao falar do desmatamento cita números do governo Bolsonaro, reconhece que a situação melhorou mas em seguida roga uma praga: “Mesmo assim, como indicam os dados históricos, esses esforços podem ser desfeitos por administrações futuras, e as taxas de desmatamento ilegal podem aumentar novamente.” (Sobretudo com um Bolsonaro no Planalto.)

A certa altura o relatório diz:

“É mais fácil e menos dispendioso produzir produtos agrícolas em pastagens degradadas e previamente desmatadas. Isso contribui para que mais produtos agrícolas brasileiros concorram nos mercados globais, o que leva à queda dos preços desses produtos.”

Ora, se um cultivo se dá numa terra desmatada há 20 anos e se a soja plantada pelo novo fazendeiro sai mais barata qual é o problema. A “queda dos preços” pode ser uma boa notícia.

A argumentação dos americanos tem momentos de fragilidade, mas tem também argumentos robustos que mais uma vez obrigam o Brasil a olhar para o prejuízo causado pelos agrotrogloditas.

A certa altura o relatório cita a saída da Moratória da Soja de grandes empresas exportadoras. Pouco conhecida fora do mundo do agro, essa moratória é um pacto firmado pelas grandes tradings, há quase 20 anos, pelo qual elas se comprometem a não comprar soja plantada em área de desmate. Em troca recebiam benefícios fiscais.

Aos poucos o pacto foi sendo comido pelas beiradas e incentivos foram retirados. Resultado: grandes tradings saíram do pacto e agora o governo americano usa esse caso para exemplificar a capacidade do Brasil de andar para trás.

O mau humor americano deriva também do fato de o Brasil saber andar para a frente.

Johanna Dobereiner, a madrinha da soja

Em 1970, com a ajuda americana, o agrônomo Norman Borlaug ganhou o prêmio Nobel da Paz, numa disputa com D. Helder Câmara. Seu mérito foi ter criado uma nova variedade de trigo, resistente a pragas.

No Brasil, Johanna Dobereiner (1924-2000) revolucionou o plantio de soja e foi indicada para o Prêmio Nobel de Química, mas não levou. Tendo passado quase toda a vida em Seropédica (RJ) e considerando-se uma “camponesa de laboratório”, ela hoje é pouco conhecida fora do mundo científico ou do agro mais ilustrado.

Nos anos 1970, quando ir contra a adubação química era um sacrilégio, suas descobertas permitiram a entrada da soja no cerrado e tornaram o Brasil o segundo maior produtor de soja, atrás dos Estados Unidos. (Dobereiner descobriu uma forma de fixar o nitrogênio nas plantas por meio de bactérias.)

Já em 1973 a Central Intelligence Agency produzia um relatório intitulado “Soja do Brasil: uma ameaça emergente para as exportações dos EUA”.

Grosseria diplomática

Depois de deixar a embaixada americana em Brasília sem titular por mais de um ano, Donald Trump indicou o deputado estadual Daniel Perez para o cargo. Perez tem 38 anos, faz política na Flórida e, como o secretário de Estado Marco Rubio, é filho de cubanos.

Num tempo de relações crispadas, Trump e Rubio fizeram mais uma grosseria. Anunciaram a indicação de Perez antes que o governo brasileiro lhe tivesse concedido o agrément. É uma formalidade, mas desrespeitá-la sinaliza má vontade.

Nos anos 60 do século passado, o presidente francês Charles De Gaulle, abespinhado com João Goulart, engavetou o pedido de agrément para o embaixador Vasco Leitão da Cunha, a quem havia conhecido na África, durante a guerra. O governo brasileiro havia divulgado a indicação sem avisar ao francês. Vasco acabou mandado para Moscou.

A encrenca se repetiu em 2022, com a Argentina. O então embaixador, o empresário Daniel Scioli, foi nomeado ministro de Desenvolvimento e deixou o posto. Durou 47 dias no novo cargo. No dia de sua demissão, a Casa Rosada anunciou que ele voltaria para a embaixada em Brasília. Fizeram isso sem consultar o Itamaraty.

Os presidentes Alberto Fernandez e Jair Bolsonaro sequer se falavam. O então chanceler Carlos Alberto França não quis jogar gasolina na fogueira e sugeriu a Bolsonaro que relevasse a grosseria e Scioli voltou.

O mundo paralelo de Lula

Na semana passada Lula referiu-se ao “sucesso da minha visita ao Trump”.

Se ele acredita nisso, as relações do Brasil com os Estados Unidos passarão por novas turbulências.

É o Itamaraty quem informa, os EUA mostraram a faca antes que se esgotasse prazo combinado na bem-sucedida visita de Lula a Trump

Imoralidades

O governo americano viu um incentivo à corrupção na anulação das condenações da empreiteira Odebrecht pelo ministro Dias Toffoli.

Por mais extravagantes que sejam as decisões de Toffoli em casos de delinquentes do andar de cima, o ministro baseou-se em argumentos jurídicos, elas não se comparam com a máquina de perdões de Donald Trump.

Trump já perdoou larápios da política como um governador que tentou vender uma cadeira no Senado, ou finórios de Wall Street, como o papeleiro Michael Milken que no século passado pagou uma multa de 600 milhões de dólares, foi condenado a dez anos de cadeia e ralou apenas 22 meses.

Como repetia o professor Delfim Netto, “dois erros não fazem um acerto.”

Festinhas do Vorcaro

Depois que veio à tona que Daniel Vorcaro patrocinou uma Noite das Astronautas, com mulheres (inclusive russas e ucranianas) para entreter os convidados, caiu a ficha em relação às suas festas.

Finalmente percebe-se que havia algo a mais que a degustação de uísques e charutos nos eventos de Vorcaro. Afinal, por mais que Nova York tenha atrativos, os hierarcas de Brasília não voariam nove horas só para tomar um trago e fumar um charuto.

Nenhum comentário: