quinta-feira, 4 de junho de 2026

Lições de um Nobel no Fórum de Lisboa, por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

A novidade do professor Mokyr está no avanço teórico em relação aos novos institucionalistas

Joel Mokyr é professor da Northwestern University e vencedor do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 2025. Seus estudos avançaram enormemente nos temas: desenvolvimento econômico, instituições e inovação tecnológica. A questão central que o motiva é: como aumentar a prosperidade num contexto de inovações tecnológicas, cujo ritmo é exponencial.

A 14.ª edição do Fórum de Lisboa, iniciativa por vezes tão criticada por setores viciados da imprensa e da opinião pública no Brasil, trouxe o professor Mokyr para uma palestra magna no último dia do evento. Foi uma oportunidade única para ouvir e registrar as lições de uma das mentes mais privilegiadas do mundo. A mesa foi mediada pelo próprio ministro Gilmar Mendes e pela presidente da Confederação Nacional das Instituições Financeiras (Fin), Cristiane Coelho Galvão.

Mokyr, um luminar, nos apresentou uma análise histórica das razões e motivações e dos fatores condicionantes do progresso econômico. Em Adam Smith, considerado o pai da Economia (Economia Política), o comércio era a variável central para explicar o desenvolvimento, o crescimento e a riqueza das nações. As trocas entre os países e sua especialização baseada em vantagens comparativas seriam o cerne da prosperidade. A ideia da força do mercado, portanto, e do peso de sua mão invisível.

Mas foi nos achados da nova economia institucionalista, cujo expoente é o laureado professor Douglass North (falecido em 2015), cerca de 250 anos depois de Smith, que o pensamento econômico caminhou para o consenso de que as instituições importam. Isto é, o desenvolvimento das nações e suas diferenças estão relacionados às regras do jogo, às leis, à Constituição, à forma de governo, à garantia de direitos (direito de propriedade, por exemplo), à qualidade da democracia, à previsibilidade, à confiança, à imprensa e a toda sorte de instituições formais e informais.

Na verdade, North, Coase e outros avançaram a partir do institucionalismo trazido ainda no início do século 20 pelos economistas institucionalistas originários, digamos, cujas formulações eram respostas diretas ao pensamento neoclássico. Esse último, a saber, é, na verdade, a corrente que prevalece até hoje nos ideários e receituários de política econômica, baseados na ideia da força dos mercados e na formalização matemática de modelos como ferramentas para entender o funcionamento da economia e derivar decisões de política econômica a partir da simplificação do mundo em equações reducionistas, mas perfeitas; no papel.

O interessante é que os novos institucionalistas, na verdade, resgataram o modus operandi dos neoclássicos para introduzir o componente institucional em suas teorias. A ideia de custos de transação como espécie de areia na engrenagem dos mercados se espalhou fortemente. Incorporava-se aos modelos neoclássicos a ideia de que institutions matter.

A novidade do professor Mokyr está no avanço teórico em relação aos novos institucionalistas. Ele defende que a prosperidade depende da qualidade das instituições e da inovação tecnológica. Mas, como explicou com um didatismo encantador na palestra proferida no Fórum de Lisboa, em 3 de junho, a incorporação de novas tecnologias tem maior sucesso quanto maior a confiança. Confiança nas instituições e na garantia de que as informações e o conhecimento serão fidedignos, bem fundamentados e espalhados sob critérios rigorosos.

O fortalecimento institucional é, ainda, a única forma de cuidar dos que, naturalmente, poderiam ser excluídos dos processos de criação e adoção de novas tecnologias, a exemplo da própria inteligência artificial. A apropriação do conhecimento deve ser democrática, livre de preconceitos e não restrita a elites tradicionais. Mokyr mostra que a ciência alimenta a inovação tecnológica e esta retroalimenta o processo de geração de conhecimento novo.

Regimes autoritários podem até produzir resultados pontuais de avanços técnicos com efeito sobre a economia. Contudo, é o progresso técnico aliado a governos e estruturas democráticas e confiáveis, sob instituições à altura, o caminho para elevar o crescimento a longo prazo.

O 14.° Fórum de Lisboa teve seu ápice na palestra do professor Mokyr. Todavia, a verdade é que os três dias de seminários e eventos foram recheados de discussões técnicas, apresentações de artigos e de avaliações conjunturais e teóricas do mais elevado nível. A combinação de autoridades políticas, servidores públicos, técnicos, especialistas, profissionais do setor privado, empresários e formadores de opinião, incluindo os jornalistas, é o grande ativo do fórum. Integrar por dentro e para fora poderia ser uma síntese.

O ministro Gilmar Mendes, uma mente privilegiada, cujo espírito público é gigantesco, faz muito bem ao Brasil com o fortalecimento, a cada ano, do Fórum de Lisboa. É preciso reconhecer, louvar e apoiar. Sobretudo neste momento de eleições gerais, ideias, mais do que paixões, devem nos nortear. Vida longa ao Gilmarpalooza!

 

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