O Globo
O confronto tribal entre lulismo e
bolsonarismo, um duelo de rejeições que paralisa o país, está restrito a
manobras eleitoreiras personalistas
A mais recente pesquisa Quaest revela, além dos números, uma apatia eleitoral que favorece o candidato da extrema direita, senador Flávio Bolsonaro. Jogando parado, ele vai crescendo na simpatia do eleitorado a ponto de estar, pela primeira vez, numericamente à frente do presidente Lula, que patina em torno dos 40% no segundo turno. Na eleição de 2022, não houve apresentação de programas, somente promessas vãs durante o horário eleitoral. Hoje repete-se a situação, com os dois principais candidatos se digladiando sem que haja uma discussão aprofundada sobre os problemas brasileiros.
Vivemos sob o império das narrativas de
ocasião. O debate público foi sequestrado pela superficialidade. O confronto
tribal entre lulismo e bolsonarismo, um duelo de rejeições que paralisa o país,
está restrito a manobras eleitoreiras personalistas. O principal projeto da
direita, até o momento, é a busca por anistia aos responsáveis pelos ataques
antidemocráticos do 8 de Janeiro, uma tentativa de institucionalizar a
impunidade, visando ao perdão ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por
tentativa de golpe de Estado.
No campo oposto, a resistência em avançar em
reformas estruturantes e o flerte com o retrocesso fiscal mantêm o governo Lula
preso ao passado. No meio desse fogo cruzado, o governador Ronaldo Caiado tenta
abrir uma brecha dirigida ao liberalismo conservador ou reformista. A
preferência pela inércia é tamanha que a direita bolsonarista lamenta a
existência da candidatura Caiado pelo PSD, pois sem ela a eleição poderia
acabar no primeiro turno. De acordo com a pesquisa, os demais candidatos somam
15% das preferências, e cerca de 10% iriam teoricamente para Flávio, fazendo o
senador atingir mais de 50% já no primeiro turno.
Os lulistas acreditam ter a vantagem de ver seu
principal adversário no momento perder votos preciosos, que poderiam ser
recuperados num segundo turno por Lula. Os eleitores classificados de
“independentes” pelo instituto Quaest estariam hoje, no entanto, pendentes ao
candidato da oposição. É nesse vácuo de pensamento estratégico que surge a
oportuna análise do economista Claudio Porto, fundador da Macroplan,
consultoria de cenários econômicos e políticos. Em seu novo livro, “A prática
da estratégia”, Porto afirma que, em tempos de incertezas, a política
brasileira precisa olhar para o espelho do passado, não com nostalgia, mas para
resgatar as lições de sobriedade que permitiram nossas maiores conquistas.
O exemplo mais contundente de êxito
estratégico no Brasil moderno é, invariavelmente, o Plano Real. Concebido sob a
Presidência de Itamar Franco e consolidado pela liderança intelectual e
política de Fernando Henrique Cardoso, o Real não foi um mero artifício técnico
de estabilização, mas um exercício de Estado que atacou a hiperinflação, o
desequilíbrio fiscal e a exclusão social de forma simultânea e coordenada. Nas
palavras de Porto, a estratégia é uma tríade composta por antecipação, escolha
e ação. No caso do Real, a antecipação manifestou-se na capacidade de aprender
com os erros de planos anteriores, substituindo o improviso pela racionalidade,
algo que falta aos palanques atuais.
Há exemplos regionais que merecem atenção
nacional. A virada histórica do Espírito Santo, iniciada na gestão de Paulo
Hartung, demonstra como o rompimento cirúrgico com o crime organizado e a
adoção de um planejamento rigoroso podem transformar um estado. É o antídoto
para o que Porto chama de “cegueira deliberada” — a propensão ao curto prazo
que condena o Brasil a um crescimento anêmico.
A estratégia, na definição de Porto, é uma
“ferramenta humana antifatalidade”. Sem ela, o governante torna-se refém do
acaso ou, pior, passageiro nos planos de terceiros. Enquanto o debate se perder
em polarizações vazias, continuaremos como a Rainha Vermelha de Lewis Carroll,
correndo desesperadamente para permanecer exatamente no mesmo lugar.

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