quinta-feira, 16 de abril de 2026

E o dólar vai deslizando, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Nesta semana, a cotação do dólar resvalou para abaixo dos R$ 5, patamar que não se via havia mais de dois anos. Ontem, fechou a R$ 4,9922. Em doze meses, a queda do dólar em relação ao real alcança 15,16%.

Como a economia brasileira continua carunchada pelo rombo nas contas públicas e a dívida vai galopando para acima dos 80% do PIB, cabe entender de onde vem essa força do real e examinar suas consequências.

Tem a fraqueza do dólar, que pode pesar mais do que a força do real. As despesas do governo Trump só vêm aumentando e o déficit por lá preocupa. Não dá para ignorar o movimento de redução das aplicações em títulos da dívida dos Estados Unidos pelos países que detêm volumes altos de reservas. O enfraquecimento do dólar em relação ao euro ao longo deste ano alcança 4,3%.

Outro fator da queda do dólar é a melhora da posição relativa do Brasil depois da eclosão da Guerra do Irã. Como forte exportador de petróleo, o Brasil vem tendo aumento das receitas em dólares.

A percepção de melhora da situação do País é apontada pela redução do risco Brasil, medida pela remuneração extra (acima dos juros dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos) exigida pelos credores para ficar com os títulos de dívida do Brasil. No início de 2025, esse adicional medido pelo CDS-5 (Credit Default Swap, de 5 anos) era de 2,13% ao ano. Nesta semana, mantém-se à altura de 1,23%. É fator que vem levando os investidores a transferir mais moeda estrangeira para o Brasil.

Esse efeito se soma ao da entrada de dólares destinados a tirar proveito dos juros mais altos vigentes no mercado interno. Uma das tarefas mais ingratas dos economistas e consultores é prever o futuro do câmbio. É indicador muito sensível, sujeito a oscilações que extrapolam o comportamento da economia e resvala para a geopolítica (incluído aí o desfecho da Guerra do Irã) e para os vaivéns eleitorais do Brasil. O último Boletim Focus prevê, para o final de 2026, um dólar a R$ 5,37, número sujeito a revisões.

A escorregada do dólar no câmbio interno impõe duas consequências macroeconômicas sobre o Brasil. A primeira delas é o câmbio impedindo a subida adicional da inflação, na medida em que contribui para reduzir a alta das mercadorias importadas ou dos produzidos no Brasil que já vêm cotados em dólares, caso do petróleo e de importantes alimentos, como trigo, milho e soja.

A outra consequência, com seu viés negativo, é a perda relativa de competitividade em moeda estrangeira do produto industrial brasileiro em relação ao concorrente importado, o que prejudica a indústria. •

 

Nenhum comentário: