A terra é redonda
As cópias anotadas dos Quaderni del Carcere de Gramsci pertencentes a Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido, descobertas na Unicamp, revelam ênfases distintas: o primeiro nos processos históricos europeus, o segundo na literatura e na práxis política
A descoberta
Tudo começou numa terça-feira, 17 de março,
do ano em curso. Acabara de chegar à Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp) para o início de um pós-doutorado junto ao seu Departamento de
Sociologia, sob a supervisão do professor Marcelo Ridenti, que gentilmente me
convidou a acompanhar uma visita guiada – com a sua turma de graduação da
disciplina Pensamento Social do Brasil –
à Coleção Sérgio Buarque de Holanda, na Biblioteca de Obras Raras Fausto
Castilho.
Adquirida pela Unicamp em 1983, logo após o falecimento do autor de Raízes do Brasil, em 24 de abril de 1982, a coleção é composta por aproximadamente 10 mil volumes, dentro de um espaço que procura reconstituir o escritório de Sérgio Buarque, com a sua escrivaninha, cadeira de repouso e máquina de escrever.
A um certo momento da visita, nos agrupamos
para ouvir uma apresentação sobre a história da coleção. Nesse momento, bem à
frente de uma das inúmeras estantes que abrigam os livros do pai de Chico
Buarque, deparei-me com os seis volumes da edição temática dos Quaderni del Carcere de
Antonio Gramsci, em língua italiana: Il
materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce; Gli intellettuali e
l’organizzazione dela cultura; Il Risorgimento; Note sul Machiavelli, sulla
politica e sullo Stato moderno; Letteratura e vita nazionale; Passato e
presente.
Tratava-se da oitava edição, publicada em
1966, pela Giulio Einaudi Editore, com capa dura, adquirida na Loja do Livro
Italiano ltda., situada na rua Barão de Itapetininga, n.140 – loja 4, em São
Paulo, conforme a indicação do carimbo no primeiro volume.
Tão logo retornei à casa do professor
visitante, em seguida à aula do professor Marcel Ridenti sobre a obra de Sérgio
Buarque, agendei o retorno à Coleção para consultar os seis volumes dos Quaderni, que havia folheado
apressadamente.
Ao retornar à coleção na quinta-feira, 19 de
março, os seis volumes já estavam dispostos numa mesa para a consulta. Porém,
antes de começar a busca pelas eventuais marcações e/ou anotações deixadas
nos Quaderni de
Antonio Gramsci, pensei na possibilidade de, na Coleção Antonio Candido, que
fica exatamente em frente à Coleção Sérgio Buarque de Holanda, também existirem
os Quaderni do
genial marxista nascido na Sardenha.
Ato contínuo, pedi aos sempre solícitos
funcionários da Biblioteca Fausto Castilho se poderiam dirimir a minha
curiosidade e, em poucos minutos, já estavam sobre a minha mesa cinco volumes
da segunda edição (temática) de 1949 dos Quaderni de Gramsci, bem como os quatro volumes da
edição crítica organizada por Valentino Gerratana, de 1975.
Adquiridos também, conforme o carimbo, na
Loja do Livro Italiano ltda., quando esta se situava na rua Xavier de Toledo,
n.57, em São Paulo, na Coleção Antonio Candido, não consta Il Risorgimento, mas sim o volume
com as Cartas do Cárcere – Lettere
dal Carcere.
Marcações e anotações
Ao folhear atentamente os seis volumes
dos Quaderni da
Coleção Sérgio Buarque de Holanda, dei-me conta de que, sempre com marca texto
de cor limão (ou amarela), o historiador nascido em 1902 limitou-se a fazer
marcações (não há registros de anotação) nos quatro primeiros volumes dos Quaderni, não havendo sinais de
marcação em Letteratura e vita
nazionale e em Passato
e presente.
Já na Coleção Antonio Candido – doada à
Unicamp pelas suas filhas em 2018 – para além de marcações a lápis, há inúmeros
comentários, especialmente em Note sul
Machiavelli, sulla politica e sullo Stato moderno, tendo sido
encontrado entre as páginas 28 e 29 de Letteratura
e vita nazionale um extenso “fichamento” escrito em língua
espanhola. Não foram localizadas marcações e/ou anotações em Gli intelletuali e l’organizzazione dellc
cultura, Lettere dal cárcere e nos quatro volumes da edizione
critica organizada por Valentino Gerratana.
Dito isso, merece ser sublinhado o fato de
que apenas Il materialismo… e Note sul Machiavelli… apresentam
marcações/anotações de ambos os intelectuais.
Sugestões
Nas duas partes que virão na sequência da
presente introdução, sem a menor pretensão de tirar conclusões sobre uma
possível influência que a leitura dos Quaderni tenha
tido sobre algum momento do pensamento e da obra de Sergio Buarque de Holanda e
Antonio Candido, buscaremos apenas e tão somente sugerir as possíveis áreas de
interesse, acadêmicas e políticas, reveladas pelas marcações e anotações dos
dois intelectuais brasileiros nos Quaderni
del Carcere de Antonio Gramsci, bem como inferir as motivações
que os teriam impulsionado a ler a obra do fundador do Partido Comunista
Italiano e o contexto histórico no qual realizaram tal leitura.
Nesse sentido, a sugestão aqui apresentada é
de que as preocupações de Antonio Candido, na leitura dos Quaderni de Gramsci, por um
lado, em termos acadêmicos, as reflexões carcerárias de Antonio Gramsci acerca
da literatura e o nacional-popular, presentes em Letteratura e vita nazionale; por
outro lado, em termos políticos, as discussões levadas a cabo por Antonio
Gramsci nas prisões fascistas sobre práxis política,
Estado, partido e revolução.
No que diz respeito à leitura realizada por
Sérgio Buarque de Holanda, percebe-se uma ênfase nas notas de Gramsci de
caráter histórico, presentes nos quatro volumes que apresentam marcações, sobre
o Humanismo, Reforma, Contra-Reforma, Renascimento e o Risorgimento italiano,
particularmente nas suas dimensões culturais.
Por razões que serão apresentadas nas duas
partes subsequentes do presente artigo, podemos conjecturar que tanto Antonio
Candido como Sérgio Buarque de Holanda entraram em contato com a obra
carcerária de Gramsci na década de 1960, com o autor de Formação da Literatura Brasileira tendo
lido os Quaderni del Carcere (muito
provavelmente) antes que o autor de Visão do
Paraíso.
Por fim, resta dizer que a transformação das
sugestões feitas acima em hipóteses de pesquisa propriamente ditas exigiria um
“desvio de rota” da pesquisa em curso no pós-doutorado recém-iniciado junto ao
Departamento de Sociologia da Unicamp sobre os debates travados acerca da ideia
de democracia como valor universal, na Itália e no Brasil, nas décadas de 1970
e 1980.
*Marco Mondaini, historiador, é professor titular do Departamento de Serviço Social da UFPE e apresentador do programa Trilhas da Democracia. Autor, entre outros livros, de A invenção da democracia como valor universal (Alameda) [https://amzn.to/3KCQcZt]

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