quinta-feira, 16 de abril de 2026

A constelação obscura se partiu, por Eugênio Bucci*

O Estado de S. Paulo

Orbán foi o que podemos chamar de significante inaugural na composição da rede de líderes nacionalistas, antidemocráticos e reacionários que empesteia o planeta

A derrota eleitoral de Viktor Orbán, na Hungria, no domingo passado, é um acontecimento de proporções globais. A barulhenta repercussão na imprensa internacional atesta o que digo aqui, mas uma das razões da magnitude desse fato ainda não foi exposta. Vale um artigo.

Muito se disse que Orbán era o centro europeu da estratégia da ultradireita na Europa. Verdade. Ele procurava seus aliados entre os que sabotam consistentemente o Estado Democrático de Direito. Como um agente duplo (um carro flex, uma lente multifocal ou um chip ambivalente), pactuou com Donald Trump e com Vladimir Putin, simultaneamente. Tirou vantagens e as devolveu. Cuidou de atrapalhar, de embolar e de descosturar o apoio europeu à Ucrânia, em manobras que a Casa Branca e o Kremlin, por interesses distintos, agradeceram.

Pouco se falou, contudo, de que o peso internacional do primeiro-ministro húngaro não se limitava ao seu papel em cálculos estratégicos e conjecturas geopolíticas. Seu peso maior era de ordem linguística. Isso mesmo, linguística: mais que um ator político eficaz, ele foi o que podemos chamar de significante inaugural na composição da rede de líderes nacionalistas, antidemocráticos e reacionários que empesteia o planeta. Mais que um fator objetivo no tabuleiro do poder, atuou como um fator semiótico – um aglutinador de sentidos a serviço do populismo de direita. Orbán emprestou significados ao que nunca teve um pingo de razão, injetou um conteúdo retificado – oportunista e canastrão, mas de forte apelo – a palavras ocas: “eficiência”, “pragmatismo”, “patriotismo”, “conservadorismo” e por aí vai.

Seu valor era mais discursivo (ou mais “narrativo”) do que factual. Sua predominância, tão real quanto maligna, fincava raízes menos no campo das relações internacionais stricto sensu e mais no campo das representações: ele fazia falar o despotismo supostamente eficaz, proporcionando uma aparente substância à doutrina autoritária.

A receita que ele patenteou para destruir a democracia por dentro, amplamente testada num mandato que se estendeu por 16 anos (sem contar um período anterior, de 1998 a 2002, quando ele exerceu o mesmo cargo), fez escola e gerou aficionados. O arco torto de seus adoradores declarados vai de Bolsonaro a Donald Trump, passando por Milei e Duterte. Orbán era o sonho de consumo dessa gente, o espertalhão que conseguiu encabrestar o Judiciário, amestrar a imprensa e cooptar o capital sem precisar botar os tanques na rua.

Agora, o ícone veio abaixo. Os autocratas enviuvaram – eis o que pulsa por trás das manchetes mundo afora. Sem o premiê empossado, a extrema direita perde um pouco do seu prumo. Fica faltando-lhe um pedaço. Abre-se uma rachadura na teia gravitacional que amarrava a constelação das trevas, integrada por tiranos mais ou menos descarados. Ficou acachapantemente demonstrado que Viktor Orbán, a estrela mais densa e perversa dessa constelação, tinha os pés de barro. E ele perdeu de lavada. Sua queda teve uma nota humilhante de espetáculo. A impostura ideológica despencou.

Desmascarado em público, o falatório dos extremistas da direita, esses fascistas repaginados, perde um pouco da estridência. Trumpistas de todos os matizes sofreram um golpe considerável tanto em seu coração duro como em seu calcanhar mole: a propaganda. (Quando temos em conta que a essência dessas coagulações fanáticas é a propaganda, só a propaganda, entendemos um pouco melhor a situação que os aflige.)

Fora o quê, recomenda-se cautela. Não houve nenhum despertar cívico na Hungria. Orbán não caiu porque o povo tenha se convertido, de repente, ao credo democrático – ele caiu porque era um blefe e não deu mais conta de disfarçar. Seu programa era uma fraude. Sob o seu domínio, a Hungria se tornou um dos países mais corruptos do continente, a inflação subiu, os empregos minguaram e o eleitorado, finalmente, cansou. O homem forte de Budapeste, que sabidamente subornou meio mundo, não conseguiu comprar a maioria dos votos e, desta vez, seus truques institucionais de partição de zonas eleitorais não foram suficientes para distorcer a vontade popular.

Mesmo assim, repito, recomenda-se cautela. O candidato que o destronou, Péter Magyar, de 45 anos, não tem nada de democrata radical. Ao contrário, Magyar se formou como um quadro do Fidesz (o partido retrógrado criado e comandado por Orbán), no qual fez carreira ao longo de duas décadas. O novo campeão de votos é um prócer de direita com pedigree de direita e estampa de extrema-direita: seu corte de cabelo parece ter sido entalhado numa barbearia de quartel. Ele diz que rompeu com o chefe por princípios, mas, na verdade, rompeu porque sentiu que o barco ia afundar – e estava certo.

De seu lado, o derrotado reconheceu publicamente, e de pronto, a vitória do adversário, num gesto impensável em figuras mais despreparadas como Trump ou Bolsonaro. Ele tem um projeto para atuar na oposição. Tem 62 anos de idade. Tem futuro. Não vai queimar mais navios do que já queimou. A constelação se partiu, mas não morreu. •

 

*Jornalista, é professor da ECA-USP

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